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Manobra de Del Nero para escolher sucessor expõe a falta de democracia da CBF

Indiciado por corrupção pelo Departamento de Justiça dos EUA, Marco Polo Del Nero não é mais presidente da CBF. Ele pediu licença do cargo, nesta quinta-feira, e indicou o vice Marcus Antônio Vicente para assumir o comando da entidade interinamente. Ele é o terceiro dirigente no posto máximo do futebol brasileiro apenas em 2015, depois de Del Nero e José Maria Marin. Deputado federal pelo Partido Progressista, Vicente compõe a Bancada da Bola e chefiou a Federação Capixaba de 1994 a 2015.

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Em entrevista ao Globo Esporte, Vicente afirmou que a sua interinidade será longa: pretende cumprir o mandato de Del Nero até o fim (2019) e que não convocará novas eleições. Deixa implícito que o ex-presidente da federação paulista não planeja voltar para o seu cargo, agora que está “dedicado à sua defesa, em vista de ter seu nome mencionado em acusações relatadas pela Justiça norte-americana e pelo Comitê de Ética da FIFA”, de acordo com a nota da CBF.

Logo, por que Del Nero não renunciou de uma vez? O estatuto da entidade prevê que, nesse caso, assumiria a presidência o vice-presidente mais velho, Delfim Peixoto, de 79 anos, comandante da Federação Catarinense. Representante da Região Sul, Peixoto é inimigo político de Del Nero, cobrou esclarecimentos do dirigente sobre a sua alergia a viagens internacionais e sequer foi convidado para o jantar de fim de ano da CBF.

Em junho, quando já era claro que uma hora o FBI bateria na sua porta, Del Nero tentou articular a queda desse artigo de sucessão para impedir que Peixoto chegasse à presidência. Como não conseguiu, a alternativa encontrada foi pedir licença do cargo, o que lhe dá o direito de indicar o seu sucessor. De acordo com a Folha de S. Paulo, ele primeiro convidou Fernando Sarney, seu substituto no Comitê Executivo da Fifa e filho de José Sarney. O maranhense recusou.

Marcus Antônio Vicente, novo presidente da CBF (Foto: Gustavo Lima/ Câmara dos Deputados)
Marcus Antônio Vicente, novo presidente da CBF (Foto: Gustavo Lima/ Câmara dos Deputados)

A segunda escolha foi Marcus Vicente, 61 anos, que está no seu quinto mandato como deputado federal e foi muito atuante na Câmara para tentar barrar a lei do Profut, que entre outras coisas, prevê alguns problemas para a CBF. Um deles é uma tentativa de democratizar a CBF, por exemplo, com um parágrafo exigindo a representação dos atletas. E a manobra de Del Nero apenas reforça o quanto isso é necessário.

Porque, se isso não acontecer, o comando da entidade nunca sairá do mesmo grupinho, e considerando que os últimos três presidentes foram acusados de corrupção, e um deles está preso, isso não é bom para o futebol brasileiro. Expandir o colégio eleitoral com o voto dos atletas é essencial, assim como seria a inclusão de clubes de divisões inferiores para que os interesses representados pelo sufrágio não fossem apenas os da elite. Seria preciso dar o devido peso a cada um dos clubes, de acordo com a divisão. Seja como for, está claro que é preciso democratizar.

E também para dificultar esse tipo de manobra política. A CBF teve quatro presidentes nos últimos cinco anos e tem uma imagem muito ruim com o público. Comporta-se quase sempre como um clube exclusivo, com pouco contato com a realidade, ao mesmo tempo em que fatura na casa das centenas de milhões com a seleção brasileira, sem prestar contas de maneira transparente. Um pouco mais de democracia não lhe faria mal. E é uma cobrança constante de grupos como o Bom Senso, que reuniu muitos jogadores em busca de melhorias.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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