Mamando no Bezerrão

Nem Hernanes, nem Rogério Ceni e nem Muricy Ramalho. Também não são Paulo Baier, Júlio César, Tcheco ou Rafael Carioca. Os nomes mais falados na semana que decide o Campeonato Brasileiro de 2008 têm sido Virgílio Elísio, diretor de competições da CBF, José Roberto Arruda, governador do Distrito Federal, Edmo Pinheiro, vice-presidente do Goiás, e João Paulo de Jesus Lopes, diretor de futebol do São Paulo.
No centro de tudo isso, está a disputa que envolve a escolha do Bezerrão, em Gama, como sede para a partida final. Sem poder utilizar o Serra Dourada, já que foi punido pelo STJD, o Goiás queria jogar em Itumbiara, interior do estado, como já havia feito contra o Botafogo. Outra opção apresentada pelos dirigentes esmeraldinos foi Uberlândia. Para atuar no Estádio João Havelange, no interior de Minas Gerais, os goianos diziam ter despesas a custo zero e 50 mil ingressos para vender.
A CBF não quis atender essas vontades, e resolveu que a virtual decisão do Campeonato Brasileiro seria em Gama, no remodelado Bezerrão. Não bastasse o fato de ter recebido o grande jogo da seleção brasileira em território nacional na temporada, contra Portugal de Cristiano Ronaldo, o modesto estádio que custou R$ 56 milhões aos cofres públicos se transformou em palco para a publicidade em torno do governador José Roberto Arruda. Ídolo da população local, Arruda se transformou em presidente de honra do Gama, que fez campanha pífia na Série B e foi rebaixado algumas rodadas antes do fim.
O Goiás, insatisfeito com a punição imposta pelo STJD e pela determinação do jogo no Distrito Federal, não quis participar da festa que seria a final no Bezerrão. Alegou que, entre o aluguel que teria que pagar pelo estádio e demais despesas, gastaria R$ 1,2 milhão, e que assim só restaria cobrar módicos R$ 400 por cada ingresso, reduzindo pela metade para estudantes. Assim, a expectativa dos esmeraldinos era arrecadar uma receita de R$ 3,5 milhões e sair por cima em razão do direito que “ganhou” em participar da final.
A notícia caiu como bomba no início desta semana. Insatisfeita, a CBF declarou que precisava agir de alguma forma, embora não encontrasse qualquer respaldo legal para isso e não soubesse explicar por que os ingressos para o amistoso diante de Portugal custaram de R$ 180 a R$ 250. Por sua vez, o São Paulo viu frustrado o plano de ver sua grande torcida invadir o Bezerrão e transformar o estádio de 20 mil lugares em um caldeirão para conquistar o empate que lhe basta para o título. Por fim, o governo do Distrito Federal temeu a possibilidade de a festa virar mico. Até recorrer ao Procon foi uma possibilidade considerada por quem se sentiu atingido.
Assim, foi preciso que um acordo fosse costurado e as exigências do Goiás fossem atendidas para abaixar o valor do ingresso. Com bem menos despesas para pagar, os goianos chegaram aos valores de R$ 75 a R$ 250, e provavelmente se deram por satisfeitos com o resultado de sua represália.
O título nas mãos do Goiás
Não fosse o empate que o Grêmio conseguiu diante do Corinthians, na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2007, o Goiás não estaria na Série A. É justamente por esse argumento que os gremistas querem que os esmeraldinos vençam o São Paulo no Bezerrão e entreguem a taça no Estádio Olímpico. Protagonistas também em 2005, quando bateram o Corinthians no jogo do título, os goianos têm retrospecto muito bom contra os clubes da ponta alta da tabela.
Diante do Flamengo, o Goiás venceu em casa e empatou no Maracanã. O Cruzeiro, por sua vez, perdeu as duas para os alviverdes. Já Grêmio e Palmeiras trocaram vitórias com o Goiás. No primeiro turno, o São Paulo levou a melhor, no Morumbi, e venceu por 2 a 1.
Para vencer novamente, o São Paulo terá que resolver o problema que terá com o desfalque de Jean. Referência defensiva que atua por trás da linha de quatro armadores no 3-1-4-2 de Muricy, o jovem jogador poderia ser trocado por Richarlyson, mas este não tem cacoete para atuar como primeiro meio-campista. Logo, talvez o mais fácil seja recuar Hernanes e voltar ao 3-4-1-2, também utilizado em muitos momentos do Brasileiro, mas há quem pense que o treinador pode alterar tudo e jogar com duas linhas, em um 4-4-2 – talvez o melhor para conter o ímpeto do fortíssimo contragolpe esmeraldino pelas faixas do campo.
O jogo de velocidade do Goiás é calcado nos alas Vítor e Thiago Feltri, que vivem ótimos momentos, especialmente o primeiro. Além disso, Júlio César e Paulo Baier também entram em diagonal, pelos dois lados, e passam e finalizam muito bem. Isso tudo funciona ainda melhor porque Iarley é um centroavante inteligente que, mesmo sem tanto poder físico, prende os zagueiros rivais como fazia Aloísio, por exemplo, e se sai bem. Sobram, ainda, cinco jogadores para marcar: Rafael Marques, Henrique e Ernando na zaga, e os volantes Fahel e Ramalho. Dessa forma Hélio dos Anjos tirou o Goiás do rebaixamento e levou até a sexta posição, o que igualaria 2004 como a terceira maior campanha da história.
A lógica aponta para o São Paulo completando 18 jogos de invencibilidade e o tricampeonato, mas o adversário, dificilmente, poderia ser mais perigoso entre os clubes do meio da tabela. Na Serrinha, fala-se abertamente em levar o título para o Rio Grande do Sul, como teria ocorrido em 2005 caso o Internacional não perdesse seu jogo contra o Coritiba.
Vasco respira por aparelhos
Responsável por rebaixar o Palmeiras em 2002, o Vitória poderá mandar outro clube grande do país para a segunda divisão. O Leão da Barra vem até São Januário sem grandes ambições e até cogitou utilizar um time misto em sua despedida, mas deve mesmo atuar com força máxima e fechar sua participação em 2008. Caso não perca, automaticamente sela o rebaixamento vascaíno.
O pior para o Vasco (40 pontos) é não depender apenas de suas próprias forças nessa rodada final. Entre Náutico (43 pontos, que viaja para enfrentar o Santos), Figueirense (41 pontos, que recebe os reservas do Inter) e Atlético-PR (42 pontos, que pega o Flamengo em casa), o Gigante da Colina precisa de dois tropeços.
Além de tudo isso, Renato Gaúcho precisa controlar a ansiedade e o nervosismo de sua equipe, algo que tem sido característico nessa fase difícil. A situação explica o péssimo desempenho dentro de São Januário no returno, quando o Vasco só venceu dois de seus nove jogos, somando ainda mais dois empates e preocupantes cinco derrotas.
A salvação para o Vasco é improvável, e o futebol brasileiro pode ter seu quarto clube grande caindo para a Série B na sexta edição por pontos corridos. Sinal que um torneio de 20 equipes não comporta tantos grandes assim. Nesta 37ª rodada, Ipatinga e Portuguesa não venceram seus jogos em casa e confirmaram a queda.
A seleção da Série B
No fim das contas, Criciúma e Marília – este que acabou prejudicado pela derrota do Corinthians frente ao América-RN -, acabaram rebaixados para a próxima Série C, se juntando a Gama e CRB. O acesso já estava definido e levou, além dos campeões corintianos, Avaí, Santo André e Barueri para a Série A de 2009. Se despedindo da competição, a coluna elege os seus melhores. E tem de tudo, de veterano a jovem revelação.
Neneca (Santo André): O experiente camisa 1 foi uma das grandes figuras do clube do ABC na Série B, brilhando em momentos importantes da competição, como no empate com o Corinthians no Pacaembu.
Osmar (Vila Nova): Assim como na primeira divisão, foi uma posição sem tanto brilho individual. Experiente em Série B, o lateral do Vila foi regular ao longo da competição e leva o prêmio por isso.
Chicão (Corinthians): Eficiente na defesa, líder dentro de campo e super importante nas jogadas ofensivas. Chicão representa o setor corintiano, bem diferente do que despencou para a Série B em 2007.
Jean (Ponte Preta): Destaque já no Paulistão, o ex-jogador do Vitória manteve o nível e foi a figura mais regular entre os titulares da Ponte dentro da Série B.
André Santos (Corinthians): Jogador que praticamente não conseguiu ser anulado em toda a competição, o lateral corintiano fez nove gols e chegou a ter o nome pedido para a seleção brasileira.
Batista (Avaí): Talentoso, o cabeça-de-área com passagens pelo Paraná Clube recuperou o seu melhor futebol e foi certeza de qualidade no passe, chutes de média distância e entrega em campo.
Willians (Santo André): Dono de um estilo similar ao de Ramires, o volante fez uma parceria de alto nível com o veteraníssimo Fernando, sempre marcando forte e pintando na área para finalizar – fez três gols na Série B.
Douglas (Corinthians): Nem de longe lembrou o meia que jogou a última Série B pelo São Caetano. O camisa 10 corintiano foi a maior novidade em relação ao time vice-campeão da Copa do Brasil e o principal jogador da Série B de 2008, com nove gols, quatro assistências e personalidade nos momentos decisivos.
Marcelinho Carioca (Santo André): Taxado como em fim de carreira, o Pé-de-anjo provou que é movido por desafios e voltou a jogar, no ABC, o futebol que lhe consagrou no Corinthians, fazendo oito gols e trazendo uma mentalidade vitoriosa ao Santo André.
Dentinho (Corinthians): Terceiro principal marcador da Série B com 14 gols, o jovem prodígio corintiano apareceu em momentos importantes e decolou no returno. Além de balançar redes, colaborou bastante taticamente para o desempenho do Corinthians.
Túlio (Vila Nova): O vice-artilheiro da Série B foi Nunes, do Bragantino, com 15 gols. Pois o veteraníssimo Túlio abusou da conta e brilhou com incríveis 24. É verdade que seu desempenho caiu na reta final e perdeu pênalti decisivo contra o Barueri, mas é difícil lhe tirar da seleção com tamanha média de gols.
O time eleito pela organização do torneio foi: Renê (Barueri), Osmar (Vila Nova), Chicão (Corinthians), Jean (Ponte Preta) e André Santos (Corinthians); Willians (Santo André), Batista (Avaí) e Douglas (Corinthians); Túlio (Vila Nova) e Herrera (Corinthians).



