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Mais que um torcedor fanático, Agnaldo Timóteo viveu o Botafogo e ajudou o clube inúmeras vezes

Falecido neste sábado, o cantor fez shows para trazer reforços, viajou em turnê com o time e até custeou o enterro de Garrincha

Aos 84 anos, Agnaldo Timóteo faleceu no último sábado, como mais uma das vítimas da COVID-19 no Brasil. O mineiro de Caratinga seguirá lembrado principalmente por sua carreira como músico, entre os cantores mais populares do país ao longo de décadas. Porém, sempre haverá um lugar especial na torcida do Botafogo para rememorar o alvinegro fanático. Timóteo não apenas torcia fervorosamente pelo clube e comparecia nas arquibancadas, ele também viveu por muitos anos o dia a dia nos bastidores e conviveu com jogadores. Sua personalidade forte, um tanto quanto controversa, se manifestava pelo time do coração – por vezes, até de maneira exagerada. De qualquer maneira, o intérprete não media esforços para ajudar, inclusive tirando dinheiro do próprio bolso. Seu ato abnegado de pagar o funeral de Garrincha, em particular, é daqueles que merecem aplausos para sempre.

A paixão de Agnaldo Timóteo começou ainda na infância, em Caratinga, quando tinha 12 anos. Conforme o cantor relatou para o Jornal dos Sports em 1973, sua história com o clube teve início em 1948, numa época na qual trabalhava como auxiliar de garçom num restaurante da cidade mineira. Ele costumava ouvir as transmissões do Campeonato Carioca na Rádio Nacional e o Botafogo, campeão naquele ano sob as ordens de Zezé Moreira, era o time que “mais falava ao coração” do menino. Seu irmão Carlos, além do mais, também era botafoguense e influenciou Timóteo. “Carlos, por sinal, era um verdadeiro craque, o rei das peladas de Caratinga”, contaria o músico.

Agnaldo Timóteo já tinha 23 anos quando realizou o sonho de assistir a um jogo do Botafogo pela primeira vez. O jovem esteve nas arquibancadas do Independência, onde viu uma emocionante virada alvinegra por 2 a 1 contra o América Mineiro. “Embora o time já tivesse em Garrincha seu maior e mais famoso jogador, quem mais me impressionou e se tornou meu ídolo principal foi Didi, pela inteligência que exibiu, por seus passes magistrais”, relatou, também ao Jornal dos Sports.

Agnaldo Timóteo nas arquibancadas (Foto: Jornal dos Sports)

Dois anos depois, Agnaldo Timóteo viu o Botafogo pela primeira vez em General Severiano, ao golear o AIK da Suécia por 5 a 1. O intérprete dizia que, antes de acompanhar um jogo no Maracanã, preferia fazê-lo na casa botafoguense. Já em 1962, Timóteo era mais um na multidão de 159 mil pessoas, durante a decisão do Campeonato Carioca contra o Flamengo. Depois de uma viagem sob chuva, o mineiro chegou sujo e enlameado ao estádio. Não se arrependeu: “Todo o sacrifício foi recompensado pela maravilhosa e inesquecível exibição de Mané Garrincha, massacrando o Flamengo, levando o Botafogo à vitória de 3 a 0 e ao bicampeonato”.

Morando no Rio de Janeiro e fazendo carreira como cantor, Agnaldo Timóteo passou a frequentar com assiduidade as arquibancadas a partir de 1968. Veria a conquista do Campeonato Carioca daquele ano em cima do Vasco, com goleada por 4 a 0 no jogo decisivo, mas também começaria a amargar o longo jejum do clube que se arrastou por 21 anos. Nesta época, também começou a se aproximar de muitos jogadores e até mesmo a participar de excursões.

Agnaldo Timóteo ficou amigo de vários jogadores. Seus ídolos também eram pessoas com quem convivia, inclusive os aposentados. Acompanhava Nílton Santos em uma equipe de pelada, assim como via os jogos do ex-defensor nos tempos de treinador. Marinho Chagas, em certa entrevista, citou Timóteo como um de seus melhores amigos. E essa relação se estendia com atletas dos mais diferentes perfis que vestiram a camisa alvinegra.

Timóteo e Jairzinho (Foto: Manchete)

Durante os anos 1970, afinal, Agnaldo Timóteo participava do clube mesmo sem ser dirigente. Alguns momentos são emblemáticos, aliás. Em 1972, a contratação do lateral Ademir junto ao Botafogo de Ribeirão Preto se tornou possível depois que o cantor concordou em fazer dois shows na cidade paulista, com toda a renda revertida para pagar o negócio. Timóteo também ofereceu uma apresentação em Recife, para antecipar a liberação de Marinho Chagas junto ao Náutico, assim como fez parte de uma vaquinha entre torcedores ricos para vencer a concorrência do Palmeiras e confirmar a transferência do lateral. No auge do sucesso, o intérprete também doou dinheiro para adiantar o bicho de jogadores do Botafogo e comprou uma geladeira à recém-criada sala de imprensa. Nas crises, até mesmo ofereceu um show beneficente para bancar os salários atrasados com as bilheterias.

Talvez o maior símbolo desse casamento entre o torcedor fanático e o clube tenha ocorrido durante uma turnê em conjunto pelo Norte e pelo Nordeste, ocorrida no início dos anos 1970. O Botafogo mandou uma equipe mista para a viagem, repleta de juvenis, que podia não ter o maior apelo. Um atrativo a mais para encher os estádios era a presença de Agnaldo Timóteo, que fazia apresentações curtas durante o intervalo ou ainda subia ao palco em shows nas cidades, antes ou depois dos amistosos. Foram mais de 20 partidas na turnê, com o sugestivo nome de “Futebol Show”. Nesta época, segundo o Jornal dos Sports, o astro recebeu uma advertência da gravadora Odeon para focar mais na carreira e menos no clube.

“Essa é uma das minhas criações na carreira de cantor-torcedor, em que procurei juntar o útil ao agradável, fazendo minhas apresentações e ao mesmo tempo vendo jogar o time do meu coração. As consequências foram uma maior comunicação com o público e maior identificação com quem se amarra em futebol. Eu promovo as minhas músicas e o time promove ainda mais o Botafogo. Os jogadores ganham um bichinho, que parados no clube, fora do time titular, não teriam condições de ganhar”, relatava Timóteo. O músico chegou a chefiar a delegação dos juvenis e era uma espécie de conselheiro a algumas promessas, também indicando reforços.

A invasão de campo (Foto: Jornal dos Sports)

O jeito intempestivo também se notava nas arquibancadas. Agnaldo Timóteo comprava briga com outros torcedores, por razões que considerava injustas. Chegou a ser preso por uma agressão nas tribunas durante os anos 1970. Também batia boca com comentaristas que criticavam a equipe. O episódio mais famoso, de qualquer maneira, ocorreu no Campeonato Brasileiro de 1984, durante uma partida decisiva contra o Operário-MT. O torcedor ilustre, que na época também era deputado federal, invadiu o gramado de São Januário e foi cobrar mais atitude dos jogadores – especialmente de Cláudio Adão, que havia acabado de desperdiçar um pênalti. Saiu depois sem ser importunado pela polícia. A derrota por 1 a 0, porém, eliminou os botafoguenses.

“Sou um torcedor privilegiado, porque, apesar de ter uma profissão de alta classe, quando chego nas arquibancadas sou visto e interpretado como qualquer torcedor: grosso, ignorante, pornográfico, sem me preocupar em ser inteligente, mas, apenas, autêntico. Em minha opinião, aliás, esse é o verdadeiro torcedor de futebol, aquele que xinga, briga, ofende, discute, chora e ri, tudo em nome do amor que ele tem ao seu clube – ou, melhor, ao seu time, que torcedor não tem clube, mas time”, definiu ao Jornal dos Sports, em 1973.

Em 1983, Agnaldo Timóteo teve sua atitude mais nobre como torcedor. O músico pagou o sepultamento de Garrincha após a morte do eterno camisa 7. Segundo o Jornal dos Sports, a CBF, que dava uma ajuda ao veterano durante seus últimos anos de vida, tinha prometido pagar todas as despesas do funeral. Porém, a entidade só havia bancado o caixão. Foi o torcedor quem desembolsou o dinheiro para as taxas e para a cerimônia. Uma foto emblemática do dia mostra Timóteo às lágrimas, abraçado a Nilton Santos, grande amigo de Mané. O jornal Última Hora também relata que o então deputado ligou para Zico, cobrando a presença do craque no enterro. “Garrincha foi um injustiçado. É mais um ídolo brasileiro que viveu no ostracismo. Aqui no Brasil, é como diz o Pelé: tem que matar um leão por dia para provar que é caçador”, afirmou o intérprete.

Apesar do gesto, para Agnaldo Timóteo, Nilton Santos era o grande símbolo do Botafogo. “No correr dos jogos, fui sentindo que, apesar da classe de Didi, da genialidade e do espetáculo em si chamado Garrincha, da impetuosidade de Jairzinho, nenhum deles no conjunto superou Nilton Santos”, contou, em 1973. Já em 2001, ao Jornal do Brasil, seu Botafogo de todos os tempos tinha a seguinte escalação: Manga, Carlos Alberto Torres, Sebastião Leônidas, Nilton Santos e Marinho Chagas; Ney Conceição, Didi e Gérson; Garrincha, Jairzinho e Quarentinha.

É importante frisar também que a relação de Agnaldo Timóteo com o futebol não se restringia ao Botafogo. O músico costumava frequentar as viagens da seleção brasileira, dando apoio público a diferentes treinadores da equipe nacional, e comparecia até mesmo aos estádios nos subúrbios do Rio de Janeiro. Também dava sua contribuição ao futebol amador, patrocinando torneios de pelada no Rio de Janeiro. Era amigo de dirigentes inclusive dos rivais, fazendo apostas com eles, e de craques adversários – a exemplo de Pelé. Tal trânsito gerou, no tempo em que era deputado, um convite para ser diretor do Taguatinga no Distrito Federal. Já em São Paulo, manifestava sua simpatia pelo Corinthians – motivado pelas cores alvinegras, claro.

Já um ano especial a Timóteo aconteceu em 1989, com a reconquista do Campeonato Carioca após 21 anos. Meses antes do título, o cantor já se mostrava esperançoso, diante dos bons reforços trazidos pelos alvinegros. “O Botafogo é um time de tradição e uma das maiores forças do nosso futebol. Uma estrela não fica ofuscada a vida toda, principalmente quando esta estrela tem o brilho e a força alvinegra”, dizia, ao Jornal dos Sports, ainda em 1988.

Às vésperas do título, Timóteo via um ótimo clima entre os jogadores alvinegros: “Se analisarmos friamente os elencos formados anteriormente, chegaremos à conclusão de que o Botafogo contou sempre com grandes jogadores. Temos como exemplo o Alemão, o Mendonça e muitos outros. Infelizmente, não havia o astral de agora. Um astral que certamente nos levará ao título. É importante deixar claro que o Botafogo não tem obrigação de ser campeão. O Botafogo tem apenas o dever de nos passar alegria e é isso que estamos sentindo agora”. A alegria, de qualquer forma, seria maior com o troféu. Agnaldo Timóteo participaria dos festejos, ao lado de outros cantores alvinegros famosos, como Beth Carvalho.

Meses depois, Timóteo participou de um episódio tumultuado no centro de treinamentos do Botafogo, numa discussão sobre as eleições presidenciais de 1989. Após ser eleito deputado pelo PDT e deixar o partido por uma briga com Leonel Brizola, o cantor se aproximou de Paulo Maluf e fez campanha a Fernando Collor no segundo turno. Segundo o Jornal dos Sports, a confusão com jornalistas e torcedores incomodou também jogadores e membros da comissão técnica. Neste momento, porém, seu trânsito no dia a dia botafoguense era menor. Os registros de suas histórias no clube seriam menos frequentes nos jornais dos anos 1990. Não deixaria de ser, ainda assim, um dos mais famosos apaixonados alvinegros. Tal relação nunca se rompeu e permanecerá viva através das diversas maneiras como apoiou o clube.

* Fica o agradecimento a Nelson Andrade Mattos pela contribuição com uma informação adicional. Um abraço!

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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