Brasil

Maior legado de Luxemburgo pode ser a permissão para o Palmeiras se desapegar de vez do seu passado

Era assustador como o nome de Vanderlei Luxemburgo sempre aparecia perifericamente quando o Palmeiras precisou contratar um treinador nos últimos cinco anos (muitas e muitas vezes). Compreensível que fosse citado, porque se trata de um dos treinadores mais vitoriosos da história do clube, mas ainda assustador porque representava o risco de um dia a pessoa responsável pelas decisões dizer sim. Bom, aconteceu e, previsivelmente, nem deu certo e nem durou muito tempo.

Difícil criticar a demissão de um profissional que nunca deveria ter sido contratado. Faz uma década, ou mais, que ele não dá motivos para ser colocado na primeira prateleira dos treinadores do futebol brasileiro, além daquelas entrevistas em que se gaba de ter inventado métodos e táticas que não inventou e/ou não consegue mais colocar em prática.

Parecia até que tinha desencanado. Estava há quase dois anos fora do mercado, fazendo vídeos para o YouTube, vendendo cachaça, curtindo uma merecida semi-aposentadoria, quando foi contratado pelo Vasco. Fez um trabalho que dividiu opiniões. Ninguém em sã consciência achou excepcional, mas houve quem, pelas circunstâncias, defenda que foi bom; e há quem defenda que foi apenas aceitável. De qualquer maneira, cumpriu o objetivo de passar longe do rebaixamento.

E, de repente, depois de quase dois anos fora do mercado e um trabalho no máximo entre o bom e o razoável, Luxemburgo recebeu um dos três ou quatro cargos mais cobiçados do Brasil. Parecia uma loucura – e era. Parecia completamente incoerente com o discurso de que o futebol estava mudando e o Palmeiras precisava acompanhar essa mudança – e era. Parecia não ter nada a ver com a primeira escolha, Jorge Sampaoli – e não tinha. Mas, por incrível que pareça, seguia uma lógica torta.

Na ausência de um nome unânime, ou de criatividade para encontrar um, Luxemburgo pelo menos agradaria parte dos conselheiros, da política interna e da torcida do Palmeiras. Era um argumento fácil de vender até para quem não entende nada futebol: vitorioso, blá, blá, blá, história linda aqui, blá, blá, blá, currículo, blá, blá, blá. Além disso, depois de tanta dificuldade em acertar treinadores desde que conseguiu voltar a ser candidato ao título, e de ter tido relativo sucesso com Felipão, por que não tentar novamente um grande personagem do passado?

O Palmeiras, como boa parte do futebol brasileiro, é sebastianista por natureza. Enquanto Felipão e Luxemburgo estivessem dispostos a trabalhar, e enquanto o clube continuasse incapaz de firmar um trabalho de médio prazo ou pensar fora da caixa, era um pouco inevitável que alguma hora um deles – ou os dois, como acabou sendo o caso – se visse novamente comandando o principal banco de reservas da Turiassu.

Eles foram sintomas de como o Palmeiras vem caminhando em zigue-zague desde que adquiriu poder de investimento para ser forte, sempre mais apegado a nomes do que a trabalho de campo ou filosofias. Quando tentou fugir da grife, não deu tempo e nem respaldo a Eduardo Baptista e Roger Machado. O único critério era quem conseguiria entregar um título o mais rápido possível e, por um ponto de vista e durante um período em que o nível de futebol no Brasil era mais baixo e o Palmeiras era mais forte, as escolhas foram justificadas com três conquistas nacionais em quatro anos.

Houve, porém, poucos bolsões em que jogou realmente bem, nenhuma ideia que permeasse todos os trabalhos, além dessa – a mais básica e rasa possível. Felipão, pelo menos, entregou a última dessas conquistas com um time que foi competitivo até o momento em que não era mais. Meio por acaso, com foco em outros torneios, e usando a força bruta de um elenco que lhe permitiu ter um time reserva que conquistava pontos com regularidade, adoçado por um jogador sempre decisivo como Dudu, e aproveitando uma concorrência muito frágil.

Luxemburgo foi pior. Em parte, pelas expectativas. É verdade que seu time passou 20 jogos invicto e foi campeão paulista sobre o Corinthians, mas havia sido prometido ao palmeirense, depois do paupérrimo trabalho de Mano Menezes, que a forma seria diferente. Ofensividade e modernidade eram o discurso da diretoria e o que a perseguição a Sampaoli sugeria. O passado de Luxemburgo como treinador ofensivo e moderno era o álibi para quem queria acreditar que ele talvez até conseguisse fazer isso.

Não chegou nem perto. Seu trabalho foi pobre. Teve uma defesa forte, que desabou sem Gustavo Gómez, e esperava as qualidades individuais resolverem na frente. Nunca conseguiu colocar em prática nada de ofensivo ou moderno, nem com posse de bola, nem com marcação alta e pressão, nem com contra-ataques letais. Foi exatamente como seus antecessores, mas com menos material humano e expectativas diferentes. Deixa pouco ao próximo treinador, com exceção dos garotos, aos quais, sendo justo, realmente deu moral, mas que seriam utilizados de qualquer maneira porque sempre foi essa a intenção da diretoria para um ano de contenção de despesas – acentuada pelos efeitos econômicos da pandemia.

O Palmeiras ainda tem elenco bom o bastante para pelo menos brigar pelos títulos, mas, enfraquecido em relação a anos anteriores, vendendo jogadores sem reposição, precisava mais do que nunca de um competente trabalho coletivo e nem se deu uma chance ao contratar Luxemburgo. Difícil imaginar que conseguirá encontrá-lo neste momento, no meio da temporada, seja com nomes brasileiros ou estrangeiros. A menos que haja uma grande surpresa, será um ano perdido, com exceção, talvez, de um pequeno e importante aspecto.

Sabe aquele namoro que lhe deu momentos deliciosos, talvez os melhores da sua vida, mas que, por diversos motivos, um desgaste natural, diferenças irreconciliáveis, ou mesmo uma grande briga, chegou ao fim? O tempo, porém, pode ser traiçoeiro. Pode fazer com que você se concentre apenas nas coisas boas a ponto de não se lembrar com clareza das ruins. Talvez ela – ou ele, dependendo de quem estiver lendo, mas, no meu caso, ela – não deixe mais a toalha em cima da cama e talvez eu não me incomode mais que ela deixa a toalha em cima da cama. Ela pode estar diferente. Eu posso estar mais maduro. Por que terminamos mesmo? Em casos extremos, quando houve muito amor envolvido, a dúvida corrói por dentro até ser impossível seguir em frente sem saber se tentar novamente daria certo ou não, até isso se tornar realmente necessário, nem que seja para ter certeza que, não, não daria certo mesmo.

Luxemburgo e Felipão são personagens tão grandes da história do Palmeiras que seus fantasmas sempre estariam presentes nos corredores do Palestra Itália e, em momentos particularmente depressivos, eles ganharam contornos concretos. Levaram muitos a acreditar que a reconciliação talvez desse certo, talvez estivessem mais maduros, talvez outro contexto ajudaria, talvez não fosse tão bom quanto foi no passado, mas ainda melhor do que as outras opções. Certamente levaram muitos a acreditar que valia a pena mais uma tentativa.

Com exceção do título brasileiro, pouco se salvou nos dois últimos dois anos, mas, se bem interpretados, eles podem servir como essa recaída que o Palmeiras precisava para expurgar as memórias doces do passado com Luxemburgo e Felipão – que sempre existirão – e ter certeza de que realmente o tempo deles já passou. Talvez era o que o Palmeiras precisava para poder olhar para a frente e se apaixonar novamente: a permissão para se desapegar de vez do passado.

Talvez. Pode ser apenas eu sendo otimista também.

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Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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