Brasil

Luxemburgo no Cruzeiro é déjà vu do desespero por rebaixamento à Série C

Em tempos desesperados, medidas desesperadas: assim como em 2020, o Cruzeiro busca um medalhão como técnico para evitar a queda para a Série C

Segundo o dicionário, déjà vu é: “Modo de ilusão que ocorre na memória e faz com que uma pessoa acredite já ter visto ou vivido alguma coisa, ou circunstância, nova e que nunca chegou a acontecer; paramnésia”. Tempos desesperados exigem medidas desesperadas. É assim que pode ser lida a contratação de Vanderlei Luxemburgo para comandar o Cruzeiro, em sua terceira passagem pelo clube. É um déjà vu: afundado em crise, o clube celeste recorre a um grande nome do passado do clube e do futebol brasileiro para tentar evitar a tragédia de cair para a Série C.

LEIA TAMBÉM: Em 2003, a tríplice coroação de uma máquina: O arrasador Cruzeiro conquistava o Brasileirão

O torcedor viveu o mesmo roteiro em 2020, com a chegada de Felipão. Com o adendo que a segunda vez parece ainda pior e o temor é ainda mais palpável. Com 13 pontos em 15 jogos, em 18º na tabela, há nove jogos sem vencer (seis empates e três derrotas), a sensação é de queda livre. Aos 69 anos, Luxemburgo estava sem trabalhar desde que deixou o Vasco, em fevereiro de 2021, no fim do Campeonato Brasileiro de 2020 que se estendeu para este ano. Mais uma vez, a missão será evitar o descenso. Segundo o ge.globo, o contrato do treinador é até o final de 2022.

LEIA TAMBÉM: A permanência do Cruzeiro na Série B deixa o clube diante de um abismo ainda mais profundo

O técnico é um dos maiores da história do futebol brasileiro, mas não era visto como uma boa contratação por nenhum clube grande, ou mesmo nos clubes de Série A. Dificilmente apareceria um clube deste tamanho para Luxemburgo de novo na sua carreira. No mundo caótico azul-celeste, porém, qualquer esperança vale muito. O técnico representa exatamente isso: uma esperança desesperada.

A sua contratação vem com o selo de medida desesperada de quem está em queda livre e tenta se agarrar a qualquer galho possível. Em um cenário como esse e considerando os trabalhos mais recentes do treinador, até faz algum sentido, ao menos para dirigentes que parecem incompetentes demais para pensar futebol. O Cruzeiro, um gigante pela própria natureza, vive dias de crise que parecem não passar mais. Após cair para a Série B em 2019 e sentir o calor de um novo rebaixamento em 2020, desta vez para a Série C, o clube levou Luiz Felipe Scolari para salvar a pátria azul-celeste. Essa missão foi cumprida. Não houve nada mais a comemorar.

O ano de 2021 é especial para o Cruzeiro porque o clube completou 100 anos em janeiro. Uma marca importante em termos históricos, mas em campo tem sido terrível. Luxemburgo será o terceiro técnico no ano, depois de Felipe Conceição, que começou a temporada, e Mozart Santos, que se demitiu depois de empate contra o Londrina na última sexta, dia 30. Depois de 13 rodadas da Série B, o time está em 18º e na zona do rebaixamento para a Série C.

É a terceira passagem de Luxemburgo pela Toca da Raposa. A primeira foi a mais vitoriosa, no momento de ápice do treinador, de 2002 a 2004. Conquistou o Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro em 2003, o que foi chamado de tríplice coroa. A segunda passagem não funcionou. Em junho de 2015 foi contratado pelo Cruzeiro que estava em crise, mas comandou o time em 19 jogos, com 10 derrotas, três empates e seis vitórias. Foi demitido no fim de agosto para a chegada de Mano Menezes.

O cenário agora é bem pior do que a última passagem de Luxemburgo. O clube está sem qualquer perspectiva de melhora no curto e até no médio prazo. Realisticamente, a Raposa está fora da briga pelo acesso à Série A, salvo um milagre – eles existem, mas é justamente a sua raridade é o que o caracteriza. Em meio a um caos completo, Luxemburgo tem alguma experiência e pode, ao menos, fazer o básico para evitar um cenário ainda mais catastrófico, que seria a queda para a Série C. Esse é um cenário bastante plausível no momento e o clube sabe disso, até pela experiência em 2020.

Luxemburgo é uma carta que traz algum conforto para os dirigentes. Sendo um dos maiores nomes do futebol brasileiro, ainda que esteja longe do seu melhor nível há muitos anos, ele é capaz de tirar algum rendimento de um time fazendo o básico. Foi isso que ele fez no Vasco, em 2019, ajudando a tirar o cruzmaltino do rebaixamento. Não conseguiu repetir o feito quando voltou, já em janeiro de 2021, ainda pelo Brasileirão de 2020.

Em um cenário que praticamente nenhum técnico de peso aceitaria assumir o Cruzeiro, o presidente Sérgio Santos Rodrigues sabe que o nome de Luxemburgo oferece uma proteção à diretoria. Luxemburgo está sendo corajoso em assumir um clube que parece fadado ao fracasso em 2021. O sucesso no clube mineiro será salvar o time da Série C, o que parece muito pouco, mas é tudo que resta.

Há mais risco para o técnico do que para o clube. Piorar é muito difícil, mas uma queda para a Série C pelo Cruzeiro, depois de cair com o Vasco na temporada passada (2020, embora o campeonato tenha terminado em 2021), seria algo desastroso para o vitorioso currículo de Luxemburgo. Ele sabe que precisaria trabalhar em clubes menores, mas um gigante derrubado como o Cruzeiro oferece uma chance.

Desde 2019, todos os treinadores que passaram pela Toca da Raposa foram sugados pelos problemas. Mano Menezes tinha um histórico de títulos, mas foi demitido por comandar um time horroroso e que já embicava rumo ao rebaixamento. Veio Rogério Ceni, que foi um novo desastre. Depois, Abel Braga, que também não funcionou. Por fim, Adílson Batista, que comandou o time no que parecia um rebaixamento inevitável. Já em 2020, Adílson Batista acabou demitido e a sequência continuou: Enderson Moreira, Ney Franco, Luiz Felipe Scolari e o interino Célio Lúcio.

Luxemburgo é um bom motivador, é alguém que conhece futebol, mas não é técnico com bons trabalhos há muitos anos. O que o Cruzeiro precisa hoje não é um bom técnico, precisa de um profissional que consiga ao menos fazer o básico e melhorar um pouco, talvez mobilizando o time, assim como fez Felipão na última temporada. Dentro do que é possível, do mundo real e do desespero no ar, Luxemburgo é uma opção de quem não sabe mais o que fazer. Não há grandes expectativas. O que se espera do técnico é que ele consiga juntar os cacos e guiar o time para fora da “zona da confusão”. Não se engane: isso não é pouca coisa. Sonhar com algo mais, hoje, só é possível no mundo de Morfeu. O risco é de ser um pesadelo ainda pior.

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo