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Luxa foi demitido, e fica difícil saber qual o maior questionamento dos últimos cinco meses

A decepção na Ilha do Retiro foi enorme. Os torcedores rubro-negros sabiam que o Junior de Barranquilla conta com um time bastante forte. Que investiu em contratações de peso nos últimos meses, sobretudo Teo Gutiérrez e Yimmi Chará. Que, mais do que mídia, os astros também vêm garantindo bons resultados, eliminando Deportivo Cali e Cerro Porteño na Copa Sul-Americana, além de brigar pelas primeiras posições do Campeonato Colombiano. O que os pernambucanos não esperavam era um resultado tão contundente em sua própria casa. O Sport vivia seu sonho continental e alcançou a inédita vaga nas quartas de final graças à superação. No Recife, porém, o Leão foi presa fácil aos Tiburones, que venceram por 2 a 0 e poderiam ter feito mais, tamanho o domínio ao longo dos 90 minutos. Apito final e a diretoria logo depois anunciou a notícia profetizada há meses: Vanderlei Luxemburgo estava demitido.

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Na entrevista após o jogo, Luxa apenas confirmou a demissão. Não estava muito amigável, mas se mostrou resignado com o anúncio, feito ainda nos vestiários: “Agradeço a maneira como fui recebido. Foi uma passagem boa aqui, fiz amizade e vocês puderam me conhecer melhor. O Dubeux [vice-presidente de futebol] me mandou embora no vestiário. Tinha certeza que isso ia acontecer. A culpa é sempre do técnico. Entenderam que o melhor para o Sport foi a minha saída. Mas faz parte do jogo. Vamos tocar a vida”.

Por outro lado, Gustavo Dubeux meteu os pés pelas mãos em diversos momentos ao comentar o episódio. Deu a entender que a decisão já estava tomada, pautada apenas no Campeonato Brasileiro. Além disso, deu o Sport como praticamente eliminado, apesar do jogo de volta que ainda será disputado entre as duas equipes, em Barranquilla. Declarações que levantam mais questionamentos sobre o norte que rege os rubro-negros neste momento difícil no final da temporada, em que a prioridade é fugir do rebaixamento.

“Nos momentos difíceis, temos que tomar posições que achamos corretas. Quero agradecer ao trabalho de Vanderlei, um excelente profissional, dedicado e que abraçou a causa do clube. Ele se encaixou no perfil do Sport. Agora, infelizmente, tivemos o retrospecto no segundo turno que deixou muito a desejar. Essa posição não foi em relação a esse jogo. O time do Junior é muito melhor e deverá ser o campeão da Sul-Americana”, apontou Dubeux, confirmando que Daniel Paulista assumirá o comando da equipe até o final do ano.

O ponto que fica é: se a situação no Campeonato Brasileiro se encontra em estado crítico, por que confirmar a demissão justamente no vestiário, após a derrota incontestável na Copa Sul-Americana? Precisavam de um argumento irrefutável para tentar maquiar as decisões erradas tomadas anteriormente? Por que não direcionaram o planejamento total ao Campeonato Brasileiro antes? Por que deixar para Daniel Paulista assumir o time apenas dois dias antes do jogo fundamental contra o Coritiba, na Ilha? São muitas interrogações, e nisto o Sport se afunda.

Afinal, o primeiro entrave aconteceu logo na contratação de Vanderlei Luxemburgo. Ninguém nega a importância do ‘professor’ na história do futebol brasileiro, especialmente pelos 15 anos em que trabalhou no mais alto nível. Mas faz mais de uma década que os bons momentos não duram. O filme em quase todas as suas últimas passagens é o mesmo, com a empolgação inicial, a acomodação e a perda de fôlego que leva à demissão. Mas a diretoria rubro-negra parece não ter considerado o currículo recente para isso. Preferiu apostar no nome, especialmente para se blindar com um medalhão como Luxa.

O momento permitia ver o copo meio cheio – como, inclusive, aconteceu aqui na Trivela. Luxemburgo tinha voltado a ganhar força na mídia, especialmente pelas participações em programas esportivos, nos quais indicava a clareza de seus conceitos e dizia não estar desatualizado. Vinha de uma passagem conturbada pela China, é verdade, mas repercutia pelas palavras. Assumia pela primeira vez um clube do Nordeste, de fortes ambições e que vinha de um primeiro semestre muito abaixo de suas possibilidades. Se a motivação do treinador se refletisse no cotidiano e contagiasse o elenco experiente, dava para sonhar. E até deu, por algumas semanas.

Luxemburgo assumiu as rédeas. Não demonstrou tanto assim a sua reinvenção, mas conseguiu causar o impacto inicial que alguns esperavam. Venceu o “rival” Flamengo logo em seus primeiros jogos, conquistou o Pernambucano precisando apenas disputar o segundo jogo da decisão, colocou o Sport na zona de classificação da Libertadores. A excelente oratória de Luxa, que não se perdeu com o tempo, dava ares de renovação à Ilha do Retiro. Algo que não demorou a se esvair, com a sequência ruim no campeonato nacional começando em julho e se intensificando com a seca a partir da virada para o segundo turno. Em 11 rodadas disputadas até o momento, os pernambucanos conquistaram apenas uma vitória.

Os sinais de desgaste eram evidentes. O time não conseguia produzir em campo. Se sonhar com a Libertadores fosse mesmo um passo maior do que as pernas para este elenco do Sport, também não é equipe para atravessar tamanho jejum de vitórias. E, não fosse o equilíbrio nivelado para baixo neste Brasileirão, a situação poderia até ser pior. A paciência da torcida já estourara havia meses, sem perceber meios de mudar a forma de jogo. O time parecia um barco à deriva, despencando na tabela rodada após rodada.

E aí é que entra outra interrogação enorme sobre a diretoria do Sport. Talvez a maior, elo entre os questionamentos pela escolha de Luxa e os que pintam em sua demissão. Por que raios o Leão anunciou a renovação com o treinador em meados de setembro, quando o caos já começava a se desenhar? No momento, os rubro-negros ofereciam uma prova enorme de confiança no trabalho do treinador e da comissão técnica, apesar dos resultados já inconsistentes. Pareciam ignorar a ciranda de técnicos que rege o futebol brasileiro, de decisões tão repentinas quanto uma chuva de verão. Nem 50 dias se passaram para aquilo afirmado publicamente fosse descartado. Para que o “projeto 2018” se tornasse palavras ao vento.

Diante da falta de perspectivas do Sport, a mudança de treinador faz certo sentido. É o tal “fato novo”, com Daniel Paulista reaparecendo como bombeiro para tentar fazer mágica. Alguém que conhece o clube muito bem e está em contato constante com o elenco, quem sabe capaz de encontrar algum caminho nesta reta final, repleta de confrontos diretos com outros clubes na mesma situação periclitante. A torcida rubro-negra também recebeu de braços abertos a decisão, após sofrer por meses com o time que não apresenta soluções de jogo e não sentir um empenho para evitar a queda. O problema fica mesmo para a falta de coerência na série de reviravoltas que aconteceram ao longo dos últimos cinco meses – e que não são inéditas, como a própria escolha de Ney Franco em março serve de exemplo.

Ao Sport, resta se agarrar neste fio de esperança para tentar a salvação. Se a força da torcida não foi suficiente para evitar o desastre contra o Junior, que ao menos acorde o time nestas últimas rodadas do Campeonato Brasileiro. A permanência na primeira divisão é essencial para manter o patamar financeiro. Entretanto, os temores começam quando se pensa no planejamento errante, que não permite grandes sonhos – e que, de qualquer forma, até dias atrás estava baseado na filosofia de um treinador de contrato longos. A passagem de Luxemburgo é uma sucessão de enganos próprios que apenas estagnou o Leão.

Por fim, a maior dúvida recai sobre o próprio Luxa. Esta foi a primeira vez desde o fim de seu auge que o treinador aceitou assumir um time brasileiro fora de São Paulo, Rio, Minas ou Rio Grande do Sul. Seguia sofrendo a pressão de uma torcida inflamada, mas lidando com um orçamento menor que o costume e uma exigência também menos megalomaníaca. Com o elenco que o Leão possui, uma campanha segura no meio da tabela estaria mais do que suficiente. E desta vez ele contou com uma tolerância acima do normal, até pelas ilusões oferecidas pela diretoria de um ‘projeto’ diferente, apoiado com juras públicas de confiança. Os erros não são apenas de Luxemburgo, até pela acomodação que rege os percalços atuais na Ilha do Retiro. Ainda assim, o moral do professor cai um pouco mais.

Pelas circunstâncias, esta foi a demissão mais emblemática na derrocada de Luxemburgo. Talvez a última de suas últimas chances na elite do futebol brasileiro. A tal renovação só pareceu sair da boca para fora, sem impactar em campo. Fica mais difícil imaginar outro clube da Série A apostando no técnico, tanto pela falta de resultados quanto por seu alto salário, em um momento no qual novatos ganham espaço. De qualquer forma, a capacidade dos “executivos” surpreenderem é inesgotável. Hoje, a contratação de Luxa soa mais como uma blindagem temporária, pela maneira como o medalhão chama a responsabilidade, mas que não traz grandes expectativas. E por isso ele ainda pode continuar em voga. Uma pena, a quem já representou tanto.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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