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Lucas Leiva deixou o Grêmio como um símbolo da reconstrução e volta, 15 anos depois, como a esperança de dias melhores

Aos 35 anos, Lucas Leiva retorna ao clube onde tudo começou para contribuir com sua experiência em busca do acesso

Lucas Leiva explodiu num momento de reconstrução do Grêmio. Participou da Batalha dos Aflitos, ganhou a Bola de Ouro como melhor jogador do Brasileirão em 2006, esteve presente na final da Libertadores de 2007. Foi o ídolo precoce que auxiliou os tricolores a se reafirmarem na elite do futebol, mesmo saindo tão jovem para fazer seu nome na Europa. E o retorno do meio-campista, 15 anos depois, tem sentido parecido. Ressurge como uma liderança capaz de recolocar os gremistas na primeira divisão. Possui experiência e qualidade para tanto. Acima de tudo, pesa a identificação com o clube que foi sua primeira casa.

Lucas Leiva assinou com o Grêmio até dezembro de 2023, quando estará às vésperas de completar 37 anos. E a decisão por voltar a Porto Alegre fez o meio-campista abrir mão de outras oportunidades. O veterano recebeu ofertas mais vantajosas do ponto de vista financeiro e também promessas de contratos mais longos. Todavia, abdicou a chance de figurar na Série A e se adequou às limitações do orçamento gremista, menor na segunda divisão do campeonato nacional, para vestir novamente a camisa tricolor.

“Eu tinha esse sonho. O momento chegou. Não importa onde o Grêmio está, o importante é representar esse time que significa tanto para mim”, declarou Lucas, em sua apresentação. “É difícil falar do Grêmio, porque foi o início do meu sonho. Vivenciei todos os momentos do Grêmio. O que me fez voltar foi o desejo de poder contribuir e encerrar um ciclo da minha carreira onde comecei”.

“Sou um cara que joguei em poucos clubes, mas criei uma raiz muito forte. Saí tem 15 anos e parece que foi ontem, tenho a mesma sensação agora. Memórias lindas que eu passei aqui, mas também já pensando nesse novo desafio. Preciso construir algo novo nessa minha segunda passagem, estou muito motivado para poder ajudar. Ninguém faz a diferença sozinho”, complementou.

Aos 35 anos, Lucas construiu uma carreira respeitável na Europa. Mesmo que as lesões tenham atrapalhado, o volante se tornaria uma das figuras mais queridas pela torcida do Liverpool enquanto permaneceu em Anfield. Foram 346 partidas pelos Reds, em dez anos que não renderam conquistas tão relevantes, mas serviram para representar o talento e a dedicação do brasileiro. É uma pena que o meio-campista não tenha participado das glórias que vieram logo depois, o que não impede também seu reconhecimento pelos serviços prestados à equipe durante tanto tempo. Foi uma abnegada referência em períodos de vacas magras.

Já na Lazio, Lucas Leiva também teve seu destaque. Emendou boas sequências e somou 198 aparições em cinco temporadas com os biancocelesti. Não era exatamente um protagonista, mas garantia a consistência de um grupo que quase sempre brigou pelas primeiras posições no Campeonato Italiano. Mesmo que a idade pesasse, o brasileiro ainda disputou 35 partidas na última edição da Serie A, 19 delas como titular. Seguia com uma reputação e uma ascendência sobre o elenco.

É este Lucas que retorna ao Grêmio: um jogador tarimbado, de grande influência sobre o grupo e capacidade para contribuir em alto nível. É um exemplo, por tudo o que construiu e pelas lições que dará aos mais novos. Não deve oferecer o jogo mais intenso, mas a qualidade técnica tende a se sobressair, ainda mais na Série B. E a forma como se compromete com o Tricolor também é notável. Não se importou com a situação do time, longe da elite, para cumprir seu desejo de voltar e encerrar a carreira por lá. Assina para ser um dos responsáveis na busca pelo acesso, dentro de uma concorrência dura pelo G-4.

A torcida do Grêmio tem seus motivos para ser receosa com jogadores repatriados. A última experiência, com Douglas Costa, é algo que nenhum tricolor deseja repetir. Porém, Lucas Leiva indica ser diferente. Primeiro, por já assumir seu papel dentro de um momento difícil para o clube. Não é o rebaixamento que o afastou da empreitada. Depois, pelo próprio comprometimento que marcou a sua carreira. A falta de noção que selou a saída de Douglas Costa, com provocações baratas, não seria repetida pelo veterano.

A grande questão é o quanto Lucas Leiva poderá oferecer em campo. A Série B possui um nível de jogo mais baixo, mas também mais físico, que pode gerar receio a alguém com seu histórico de lesões. Além disso, aos 35 anos, a tendência é que não atue por muito mais que duas ou três temporadas pelo clube. Até pelo mercado que ainda tinha na Europa, Lucas preferiu viver seu auge físico em ligas mais competitivas e adiou este retorno. A volta para o Grêmio será mesmo para oferecer a experiência e a influência que pode ter em campo, não tanto vigor.

Independentemente dos poréns, a torcida do Grêmio pode se animar com as perspectivas. O profissionalismo de Lucas sempre falou mais alto em sua carreira e, mesmo sem disputar uma Copa do Mundo, é um dos meio-campistas brasileiros mais respeitados no exterior. Tais qualidades estarão à disposição dos tricolores a partir de agora, por mais que o contexto não seja o melhor. Se aquele garoto representou tanto às esperanças dos gremistas por dias melhores, o veterano também ajuda a reavivá-las.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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