Igor Liziero começou sua história no São Paulo aos nove anos de idade. Quase duas décadas depois e com uma trajetória marcada por grande expectativa, momentos positivos e lesões, vive um momento diferente do que está acostumado: no Nacional, de Portugal, e em grande fase. E diz não sentir nenhuma mágoa do Tricolor.
Em entrevista exclusiva à Trivela, o meio-campista lembrou da sua passagem pelo São Paulo de forma honesta — do auge com o título paulista ao erro fatal contra o Flamengo que custou caro para sua história no clube. Comparou o futebol português com o brasileiro, se derreteu por Hernán Crespo e mostrou como tem evoluído como jogador em um sistema que lembra o do argentino.
Liziero torcedor: o carinho pelo São Paulo e, principalmente, por Crespo
Liziero atendeu a reportagem poucas horas antes da vitória do São Paulo sobre o Grêmio, pelo Campeonato Brasileiro, na última quinta-feira (12). O carinho que sente pelo clube fica evidente na forma como fala sobre sua trajetória, mas também no ímpeto de assistir ao jogo que começaria na sequência da entrevista. Nem mesmo o fuso horário de quatro horas de diferença atrapalha.
“Sempre que dá, eu tento assistir aos jogos. Se não, eu acordo e no café da manhã já estou vendo os melhores momentos, vou ver o placar. O São Paulo foi o clube que me formou, não tem como desvincular”, diz.
A afeição que o meia tem por Crespo segue agora como torcedor. Mesmo nos momentos conturbados recentes que clube e treinador passaram, que foram acompanhados de perto lá de Portugal. E quando lembra dos seus principais momentos com a camisa tricolor, é a época do argentino que vem à mente.

“Eu acho que foi o Crespo (quem mais marcou), pelo fato de que no ano de 2021 eu joguei bastante, também consegui ter uma sequência muito boa, vindo depois de uma lesão séria do tornozelo”.
Liziero ganhou confiança do treinador em um esquema agressivo, de pressão forte e constante, além de um jogo vertical e que buscava dominar a bola. Hoje, no Nacional, apesar das proporções, há uma semelhança clara com o estilo de Crespo.
A equipe da Ilha da Madeira, comandada por Thiago Margarido, tenta sempre impor um estilo de posse e intensidade. Tem uma saída de três semelhante à daquele São Paulo, com alas avançando e pontas virando meias criativos por dentro. E Liziero aponta as semelhanças:
“De vez em quando o Matheus, que é o nosso número 6 (volante), baixa para fazer uma construção a três, eu tenho que descer um pouco. O que muda é que na época do Crespo, muitas vezes eu jogava nessa função. Teve jogos que eu joguei com o (Gabriel) Sara e o (Martin) Benitez, eu era o 6. E às vezes jogava lado a lado com o Luan, então tem essa semelhança no estilo de jogo. E o legal é que os dois treinadores também gostam de propor”, analisa.
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De campeão paulista a erro fatal
O começo de 2021 marcou a volta de Liziero após sete meses lesionado, momento em que o clube saiu da seca de quase uma década para ser campeão paulista. Ele estava entre os jogadores mais importantes da época e teve um bom ano, mas que acabou com um episódio negativo.
Logo aos 18 segundos do jogo contra o Flamengo, no Morumbi, o volante perdeu a bola na entrada da área, em jogada que levou ao gol de Gabigol. O jogo acabou em 4 a 0 para o Rubro-Negro.
Ele revelou como um erro crucial o assombrou. Não só na forma como a torcida o criticou e como sua situação no clube mudou, mas como ficou psicologicamente abalado.
Depois disso, Liziero foi emprestado três vezes: ao Internacional em 2022 e a Coritiba e Yverdon-Sport, da Suíça em 2023/24. Mesmo com a mudança repentina após um ano positivo, não se vê como injustiçado. Em tom quase estoico, o meia busca sempre aprender com todas as situações que vive:
⚽️ O golaço de Liziero em Criciúma!#VamosSãoPaulo 🇾🇪 pic.twitter.com/8BZdur77w8
— São Paulo FC (@SaoPauloFC) October 27, 2024
“Foi um erro que na época mexeu muito comigo, óbvio. O jogo que era, o Morumbi lotado (…). Queria ter ganhado muito mais no São Paulo, mas eu sou muito grato pelo que ganhei lá e não me sinto injustiçado nunca”.
Os empréstimos acabaram em 2024, quando retornou ao time então comandado por Luis Zubeldía — outro que foi muito elogiado pelo jogador. O fato do argentino ter reconhecido seu esforço não passou despercebido.
De coração aberto, Liziero entende que sua volta da Suíça poderia ser vista de forma negativa, como “figurinha repetida”, como ele mesmo destaca. A nova leva de jogadores poderia tê-lo colocado para trás, mas as oportunidades de Zubeldía são lembradas com gratidão.
“O São Paulo tinha novos jogadores no meio-campo, Luiz Gustavo, Bobadilla, Marcos Antônio, e ele (Zubeldía) foi um treinador que viu a minha seriedade nos treinamentos, viu que podia contar comigo. Tanto que ele me colocou contra o Atlético-MG, jogo que até então era o mais importante do ano”, recorda.
Saída para Portugal e reflexões sobre Cotia
Liziero deixou o São Paulo em julho de 2025, depois de seis meses treinando separado após o fim do seu contrato. Hoje, no Nacional, tem rostos conhecidos: Paulinho Boia, com quem jogou no Tricolor; Léo Santos, ex-Corinthians e companheiro de seleção de base; e Gabriel Verón, antiga joia do Palmeiras.

É evidente a felicidade do jogador com seu momento em Portugal. Do riso fácil ao falar às boas atuações. E na crescente comparação entre o futebol brasileiro e português, ele crava que há diferenças notórias:
“O jogo do Brasil é mais cadenciado, um ritmo diferente. Aqui, quando tem que fazer uma transição, é realmente uma muito forte, quando tem que encurtar uma pressão, é um encurtamento muito forte. É um jogo um pouco mais intenso nas transições”, pontua.
A saída foi apenas no ano passado, mas poderia ter sido muito antes. Liziero explodiu em 2018, depois de ser eleito o melhor jogador da Copinha daquele ano. Foi presença constante com Diego Aguirre no time principal e se consolidou entre os profissionais aos 20 anos.
Não fosse uma série de lesões traumáticas no tornozelo, que precisou ser operado posteriormente, o meio-campista poderia ter seguido um caminho semelhante ao de várias joias de Cotia: uma venda rápida e muitas vezes considerada barata. E, neste domingo (15), ele enfrentará um exemplo disso: William Gomes.
“O William Gomes é um jogador de nível top. Extremo, velocidade, tem força, e com certeza se estivesse no São Paulo agora, estaria jogando. Mas, pela necessidade financeira, o clube não consegue segurar esses jogadores e acaba vendendo até por um valor abaixo. Depois, o Porto pode vender o William por não sei quantos milhões. E isso acaba prejudicando um pouco o São Paulo“, opina.
Ele chega a comparar a situação tricolor com a do Palmeiras, rival que tem revelado grandes talentos, mas conseguido mantê-los por mais tempo. Para ele, isso cria maturidade para o jogador, faz com que haja retorno esportivo e, no fim, uma venda muito maior. Mas respeita a ideia de que “a necessidade financeira de vender um atleta acaba sendo superior ao que o clube precisa no momento”.
Ao olhar para trás, Liziero não se sente decepcionado por não cumprir, até o momento, a expectativa que se criou em cima do melhor jogador da Copinha de 2018. Com um visual diferente, ele sabe que o ‘renascimento’ em Portugal pode ser a guinada que a carreira precisa para atingir seu potencial.
“A carreira de futebol nem sempre é aquela crescente. O importante é tirar algum aprendizado de cada momento. Eu tirei os meus e isso conta muito para mim”.



