Brasil

Livre, leve e solto

Ricardo Gomes chegou ao São Paulo sob desconfiança. Seu currículo é dominado por trabalhos apenas regulares, com alguns pontos de sucesso. Não parecia ser o suficiente para reconstruir um time que se desmanchava taticamente e vinha com desgaste de relacionamentos internos. Dois meses depois, o Tricolor já alcançou uma sequência de sete jogos sem derrota, chegou à quinta posição e fez a torcida (sua própria e a dos concorrentes) acreditar que o tetracampeonato é possível.

Ainda é cedo para se fazer diagnósticos definitivos a respeito do trabalho do técnico são-paulino, porém, é justo dizer que, até o momento, é excelente. E não apenas pelos resultados, mas porque o futebol apresentado é um dos melhores do Brasil. De repente, o São Paulo reencontrou a força coletiva, o talento individual e a confiança para se impor diante dos adversários.

Claro que a diferença do Tricolor atual do que foi mal no primeiro semestre não equivale à diferença técnica entre Ricardo Gomes e Muricy Ramalho. Até porque o principal mérito do ex-zagueiro foi aproveitar o que havia de bom no trabalho de seu antecessor, mas deixando para trás os problemas que surgiram após três anos e meio com o mesmo comando.

Os mais apocalípticos até já falavam em luta contra o rebaixamento (né, Caio?), mas o fato é que o São Paulo nunca deixou de ter um time forte no papel. Aliás, mais forte até que o do ano passado, pois tem mais opções no banco de reservas.

Ricardo Gomes teve o mérito de fazer exatamente o que era preciso, sem muitas extravagâncias. Aproveitou-se do fato de não ser Muricy para esfriar os ânimos na disputa pelo ataque (claramente, Washington, Dagoberto e Borges não se davam bem com o antigo comandante), onde houve sensível melhora na produção.

No meio-campo, o técnico percebeu que não precisava colocar Júnior César e Jorge Wagner disputando posição ou se trombando na esquerda. O ex-Fluminense ganhou espaço na ala, enquanto que o baiano passou a atuar como meia, fechando pelo meio e armando o jogo. Lembra muito mais o Jorge Wagner de Bahia e Cruzeiro do que o de Internacional e São Paulo de Muricy.

Além disso, Ricardo ousou ao colocar Jean na direita, abrindo espaço no meio para Hernanes e Richarlyson refazerem a dupla de sucesso em 2007. Ambos cresceram e deram mais solidez ao time. O jogo são-paulino ficou menos viciado, com toque de bola mais fluente e confiança para construir as vitórias sem traumas.

Somando essas melhorias em meio-campo e ataque, a defesa parou de ver seus integrantes no departamento médico (um dos fatores que minaram o trabalho de Muricy no primeiro semestre deste ano). E Denis, aos poucos, ganhou um pouco mais de confiança e não provoca mais calafrios na torcida.

Assim, sem comprar ou vender ninguém, o São Paulo conseguiu reencontrar seu jogo. E, se essa base foi forte o suficiente para conquistar três títulos brasileiros seguidos, pode, ao menos, brigar para fazê-lo mais uma vez.

A culpa é do mordomo

O amigo e botafoguense Maurício Stycer resumiu bem em seu Twitter, logo após a derrota do Alvinegro para o Atlético Paranaense: “O jogador desobedece o técnico, erra o pênalti, o time perde o jogo e a diretoria demite o técnico… Se pudesse, eu desistia do Botafogo”. E não dava para analisar a situação de modo diferente.

Ney Franco é um bom técnico. Pode não ser um Rinus Michels, mas sabe montar um time, explora bem o potencial dos jogadores que tem em mãos e não atrai crises desnecessárias. Foi com base nisso que ele soube dar sequência aos bons trabalhos que Cuca havia feito em General Severiano, assegurando ao Botafogo um final de 2008 e um início de 2009 muito mais positivo do que se poderia imaginar.

A diretoria parece ter consciência disso, mas se viu refém dos fatos. O modo como o Alvinegro perdeu do Furacão não pode passar em branco. Quando o jogo ainda estava em 0 a 0, André Lima desperdiçou um pênalti que ele não deveria ter batido. No resto da partida, a apatia dos alvinegros também merece atenção. Ney Franco foi demitido, mas o discurso dos dirigentes expõe uma cisão entre o técnico e parte do elenco. E, como não se pode trocar os jogadores, o jeito é trocar o treinador. Ainda assim, fala-se que é momento de cobrar o elenco.

Se o Botafogo, ao menos, mostrou senso crítico para avaliar o caso, o Vitória vai ter de se esforçar muito para justificar a demissão de Paulo César Carpegiani. Foi uma das decisões menos inteligentes do atual Campeonato Brasileiro. O técnico montou um time bastante interessante, que jogava em velocidade, explorava os contra-ataques e se mantinha no topo da tabela. Tudo isso com investimento baixo e um time que, no papel, teria como objetivo lutar para não ser rebaixado.

O principal símbolo do bom trabalho de Carpegiani é Apodi. O jogador sempre foi visto como lateral, mas claramente sua força ofensiva contrastava com a fraqueza na marcação. O técnico o colocou como ala, quase um meia avançado pela direita. E rapidamente o ex-Santos e Cruzeiro se tornou uma das pricnipais figuras do time.

Ao demitir o treinador por problemas internos e pressão devido a apenas dois tropeços, o Vitória interrompe uma trajetória que poderia ser tranquila. Mais ou menos como fez o Corinthians em 2007, que dispensou Carpegiani na 21ª rodada (a quatro pontos da zona de rebaixamento) e acabou caindo.

O Rubro-Negro talvez não tenha um fim de campeonato tão sombrio, mas erra se achar que tem time para fazer algo muito melhor do que vinha fazendo com o técnico gaúcho.

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Equipe Trivela

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