Brasil

Lisca dá voz ao necessário questionamento sobre a postura do futebol diante da situação sanitária no país

Pelo segundo dia consecutivo, o Brasil registrou o maior número de mortos por COVID-19, com 1.840 vidas ceifadas pela doença. São 71.704 novos pacientes infectados, em total de casos que supera os 10 milhões. O total de vítimas, por sua vez, beira os 260 mil. E, enquanto a vacinação caminha a passos lentos, o cenário é bastante preocupante pela maneira como o sistema de saúde está sobrecarregado. Segundo dados da Fiocruz, 19 das 27 unidades federativas têm mais de 80% dos leitos de UTI ocupados. Alguns estados já entraram em colapso.

O futebol, enquanto isso, segue realizando suas atividades dentro do protocolo estabelecido meses atrás – e que nem sempre se provou realmente seguro. Não há uma discussão uniforme sobre o lugar do futebol nesta triste realidade, com Rogério Caboclo falando grosso sem motivos e se dando por satisfeito pela doação de 27 ambulâncias realizada através da CBF. Não há qualquer esboço de se repensar o calendário, com uma temporada se encavalando na outra e os estaduais sequer passando por uma redução. Por enquanto, a atitude diante da situação sanitária é pontual, das federações. O Campeonato Paranaense teve a rodada adiada e o Campeonato Catarinense será suspenso.

O futebol precisa se questionar. E isso não se nota, quando há uma cadeia de subserviência e de interesses no esporte, com um dirigente comendo na mão do outro e uma severa acomodação. E num dia em que o Ministério Público acha plausível criar caso por uma provocação normal nas arquibancadas, enquanto entraves muito mais sérios ocorrem ao redor do Brasil, Lisca merece ser ouvido. O treinador do América Mineiro fez pertinentes colocações antes da vitória por 1 a 0 sobre o Athletic Club de São João del Rei, pelo estadual.

O desabafo do técnico reforça como o futebol não deve ficar alheio ao que ocorre no país. Que existam diferentes pontos de vista e justificativas para que a bola ainda role, certas ou não, muita gente se incomoda com essa postura alienada do futebol e descolada da realidade. Lisca dá voz a este incômodo. Mais do que nunca, é o momento para se perguntar se o futebol não deveria ser paralisado imediatamente, se os jogos não deveriam ser reduzidos, se as viagens não deveriam ser adiadas ou se os protocolos não deveriam ser reformulados para evitar mais gente exposta aos riscos.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.