Brasil

Lição aprendida

Antes dos jogos que encerrariam a 36ª rodada do Campeonato Brasileiro, a torcida flamenguista que lotava o Maracanã recebia uma notícia vinda do Engenhão, e vibrava com ela: o rival Botafogo havia vencido o São Paulo por 3 a 2, e o time rubro-negro dependia apenas de uma vitória contra o Goiás, o pior time do returno, para chegar à primeira posição da Série A. O que se viu já é sabido: um time cansado e até um pouco temeroso demais não conseguiu ter serenidade para vencer, ficando no empate sem gols com o Esmeraldino e frustrando o Maracanã.

Parecia a oportunidade de ouro perdida, que nunca mais voltaria. Enquanto o São Paulo iria a Goiânia animado, em busca de uma vitória que o colocaria na rota do sétimo título nacional, o Flamengo teria de enfrentar o Corinthians, fora de casa. Um jogo difícil, em que pesassem as suspeitas (e até torcida, por parte dos corintianos) de que haveria um amolecimento da equipe de Mano Menezes. O certo é que a equipe de Andrade aprendeu as lições da frustração contra o Goiás, foi mais centrada – e, contando de novo com a sorte, está às portas de mais um título brasileiro.

E a equipe se recuperou, para começo de conversa, porque jogou bem. É evidente: ao jogar fora de casa, o Flamengo parece ficar mais aliviado, sem a magnitude de sentimentos que a torcida causa. Por exemplo, caso o time houvesse feito 2 a 0 contra o Goiás em 15 minutos, o apoio estaria garantido. Como não fez o gol, o apoio foi logo transformado em pressão. Por isso, e pela irregularidade vista nas atuações da primeira metade do campeonato, os 16 pontos perdidos em casa.

Com a habilidade de sempre nos desarmes rápidos – obra, principalmente, de Willians – e o espaço no contra-ataque, o jogo no Brinco de Ouro ficou logo à feição do Flamengo. Como mostrado no primeiro gol, quando um lançamento rápido e a velocidade de Zé Roberto bastaram para deixar a defesa do Corinthians vencida. E durante todo o jogo, a equipe carioca sempre manteve maior organização em suas ações. Diferentemente do time de Mano Menezes, que não conseguia (nem tinha a obrigação) de ser efetivo. Mas da situação corintiana se falará mais abaixo.

No Serra Dourada, o São Paulo até aparentou ter aprendido sua lição, também. A falta de velocidade defensiva foi corrigida com maior dinamismo nos ataques, o que possibilitou à equipe impor mais respeito, o que resultou em mais pressão, por fim concluída no gol de Washington que abriu o placar. Todavia, mais relaxado com a vantagem que o manteria na liderança, o time de Ricardo Gomes voltou a permitir que o adversário é que impusesse velocidade nos ataques.

Com um trio de zagueiros lento e as deficiências crônicas de Júnior César na marcação, não foi difícil que Rithelly e Vitor se sentissem mais confiantes para ajudar Iarley e Fernandão no ataque, e para virar o jogo, o que fizeram. Mas foi o terceiro gol do time da casa a afetar de vez o São Paulo, que já não tinha tanto fôlego no ataque para compensar a recomposição errada dos zagueiros. Washington quase recolocou o time no jogo, mas o gol de Léo Lima arruinou os planos de reação.

E o São Paulo mostrou não ter aprendido bem a lição que já havia tido no Engenhão. Coisa que o Flamengo fez, no Brinco de Ouro. Por mais que o Grêmio seja pressionado a facilitar as coisas e não deixar o rival Internacional com o título, o problema do Flamengo está de volta: mesmo com a liderança, fica o desafio de jogar calmamente com a torcida, e impor logo respeito. É a última lição. Caso também tenha sido aprendida, fatalmente o Flamengo será campeão.

Cultura só muda lentamente

“Entregou vergonhosamente”, “pontos corridos proporcionam isso”, “a mala branca rolou solta”, “capaz do Grêmio escalar o Sub-15 contra o Flamengo”. Tudo isso tem sido falado nas últimas rodadas, para tentar depreciar um eventual título flamenguista e até tentar alertar para resultados suspeitos demais.

O tema foi ainda mais comentado após a atuação do Corinthians contra o Flamengo. A equipe do Parque São Jorge não mostrou, de fato, grande vontade de vencer o líder do campeonato. Mas não se pode ignorar que a falta de entusiasmo é uma realidade vivida pelo Alvinegro desde a vitória na Copa do Brasil. E que, no primeiro tempo, o time jogou normalmente. Perdendo chances, tropeçando nos próprios erros, mas sem nada que denotasse um “amolecimento” assumido. O jogo só mudou na expulsão de Chicão (absolutamente justa, diga-se de passagem).

Daí por diante, descontente com as decisões de Evandro Rogério Roman, o time corintiano se descontrolou, de fato. O pênalti de Dodô em Leonardo Moura – discutível, mas passível de marcação, já que o lateral-esquerdo corintiano tocou de leve – só ampliou isso, culminando no lamentável comportamento de Felipe, durante a cobrança. E, agora, há o temor de que o Grêmio não ofereça a menor resistência ao Flamengo, apenas para que o Internacional não consiga o título.

Porém, daí a fazer ilações, como a de que essas eventuais falhas éticas só ocorrem porque o campeonato é disputado em pontos corridos, é distorcer demais o centro da questão. Que, por sua vez, reside no fato de que o futebol preza muito a cultura da vantagem – e quase nunca a do espírito esportivo. É assim no mundo todo. E ainda mais no Brasil, país pouco afeito a discussões éticas, ainda.

Mudar todo o sistema do campeonato, só, não resolve a questão. É preciso que, além de punições, haja uma mudança de pensamento. Algo ainda distante no futebol brasileiro.

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Equipe Trivela

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