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Juarez Soares escreveu sua história como uma figura inescapável no jornalismo esportivo brasileiro

O repórter habituado à linguagem boleira, o comentarista firme em sua opinião, o jornalista compromissado com seu trabalho. Juarez Soares foi, por mais de seis décadas de carreira, sinônimo da cobertura esportiva no Brasil. De apresentador a diretor, o “China”, como era carinhosamente chamado pelos amigos, desempenhou as mais diferentes funções em sua trajetória. Passou pelos mais importantes canais de televisão e emissoras de rádio do país, além de atuar como colunista na crônica impressa. Certo é que, independentemente da forma como transmitia a sua mensagem ou do gosto de quem o ouvia, Juarez deixou o seu nome marcado na imprensa, sobretudo a paulista. Sua morte nesta terça-feira, vítima de uma parada cardiorrespiratória, representa um vazio. E gera diversos tributos, após 61 de seus 78 anos de vida terem sido dedicados aos microfones.

Nascido em São José dos Campos, Juarez Soares Moreira começou a sua carreira como radialista no próprio Vale do Paraíba. A primeira oportunidade veio em 1958, aos 17 anos, na Rádio Cultura AM de Lorena. No entanto, o início do adolescente não aconteceu como repórter ou comentaristas, funções nas quais o China acabou se consagrando. A brecha surgiu como locutor e, sem pensar duas vezes, ele abraçou a oportunidade mesmo sem ter qualquer experiência prévia. Narrava os jogos do Esporte Clube Hepacaré na divisão de acesso do Paulistão.

Juarez permaneceu por três anos trabalhando em Lorena. Em 1961, planejava se mudar para São Paulo, onde pretendia fazer faculdade de História ou Filosofia. Por indicação de um amigo, realizou um teste na Rádio Difusora, embora seu interesse fosse realmente estudar. Porém, o talento falou mais alto e o jovem do interior terminou aprovado. Juarez seria convidado para ser repórter. Depois de dois meses de experiência, ganhou o seu primeiro contrato na Difusora. Sua carreira deslancharia a partir de então.

Juarez Soares até conciliou a reportagem com os estudos. Cursou Pedagogia e fez especializações em Filosofia. Sua intenção era lecionar, mas os rumos profissionais foram outros. Ainda funcionário das Emissoras Associadas, dona da Difusora, o repórter passou a integrar a equipe da Rádio Tupi a partir de 1963. Fazia parte de um projeto ambicioso encabeçado pelo locutor Pedro Luiz, grande nome das narrações esportivas da época, na incensada “Equipe 1040”. A parceria com o veterano rendeu frutos e Juarez o acompanhou depois à Rádio Nacional, que se tornaria a Rádio Globo. Por lá, o repórter participou de sua primeira cobertura de Copa do Mundo. Deu sorte: esteve no México para acompanhar o tri mundial em 1970.

“Quando acabou a final, em que o Brasil venceu a Itália por 4 a 1, houve aquele furor todo, invasão de campo e tudo mais. Nós não estávamos no ar, então eu desci para o campo e decidi ir para o vestiário. Os jogadores do Brasil foram chegando, e fui entrevistando. O Félix goleiro entrou reclamando muito, dizendo ‘fala pro Mário Moraes (então comentarista da Rádio Globo) que eu sou campeão do mundo’, porque o Mário criticava muito o Félix. O Pelé dava murros num armário e dizia ‘Pelé não morreu, não!’, porque muita gente apontava que seria a última Copa dele, e que ele não estava enxergando bem. Foi marcante estar ali e ver essas reações que poucos viram num momento histórico. Gravei com os jogadores e subi correndo para a cabine, cheguei lá com as entrevistas exclusivas, que foram ao ar para todo o Brasil ouvir”, relembrou o veterano, em 2015, durante entrevista à revista Vitti.

A Rádio Globo seria também a ponte para o meio onde Juarez Soares se celebrizou em todo o Brasil: a televisão. A partir de 1974, começou a aparecer como repórter na TV Globo, cobrindo seu primeiro Mundial na tela em 1978. A atuação do paulista, cabe ressaltar, não se restringia apenas ao esporte. Ele também tinha a sua representatividade no Sindicato dos Jornalistas e integrou a linha de frente durante a greve de 1979. Neste período, chegou a ser demitido brevemente da Globo, até ser recontratado. “A emissora queria mandar embora mais de 100 profissionais que participaram da greve, mas como eu fui um dos ‘cabeças’ do movimento e aparecia no vídeo, pedi aos diretores que trocassem toda essa turma por mim e alguns companheiros. Eles aceitaram”, recontou, ao Terceiro Tempo.

Na volta à Globo, Juarez Soares se tornou comentarista da rádio ao lado de Osmar Santos. Também acumulava funções na Rádio Excelsior (atual CBN), contribuía à TV com reportagens e ocupava o papel de comentarista no ‘Bom Dia São Paulo’. Já em 1982, Juarez trabalhou em sua quarta Copa do Mundo. Deveria compor a dupla principal da TV Globo com Luciano do Valle, mas havia uma reclamação constante dos espectadores de outros estados sobre o China: seu bairrismo ao futebol paulista. Com isso, o carioca Márcio Guedes acabou escalado como comentarista principal. De volta ao posto de repórter, Juarez acompanhou a Seleção ao longo da campanha na Espanha. Porém, logo depois do Mundial, ele deixou a emissora. Teve uma breve estadia na Record ao lado de Luciano do Valle, antes de ajudar o narrador em seu famoso ‘Show do Esporte’ na TV Bandeirantes. Revolucionariam o jornalismo esportivo e o próprio esporte.

“Depois da Copa de 1982, Luciano do Valle me convidou para sair da Globo. Era uma loucura, ninguém saía da Globo assim. Ainda mais que ele nem sabia para onde iríamos. Ela me disse: ‘Não sei bem pra onde vamos, nem o que vamos fazer. Vamos fazer tudo, menos futebol’. Eu achei que era brincadeira. Mas saí da Globo com ele e fomos para a TV Bandeirantes, onde criamos o Show do Esporte, um marco no jornalismo esportivo, pois era o dia todo de esportes. Além de futebol, transmitíamos basquete, vôlei, boxe, sinuca, muitas coisas”, rememorou Juarez Soares, à revista Vitti.

Foi na Bandeirantes que Juarez Soares aumentou sua influência sobre o jornalismo esportivo brasileiro. Além de comentarista, ele se tornou apresentador do ‘Show do Esporte’. Comandava jornadas de 11 horas à frente das câmeras, durante o dominical que trazia transmissões de diferentes modalidades ao vivo. Era chamado de “a mola mestra do Show”, segundo reportagem da revista Placar na época. De certa maneira, Juarez ocupava um papel de ‘Sílvio Santos dos esportes’, pela maneira como conduzia a programação. Mais do que isso, também foi Diretor de Esportes e se tornou responsável pela cobertura jornalística da seleção brasileira na Band.

Como comentarista, Juarez Soares se notabilizou pela língua afiada. Suas colocações ácidas nem sempre agradavam a todos, embora não se pudesse negar a relevância no olhar do jornalista. Ao lado de Luciano do Valle, cobriu outras três Copas do Mundo a partir de 1986. Em 1990, ficou famosa sua insatisfação diante da eliminação contra a Argentina, nas oitavas de final. Chegou a soltar um “puta que pariu” durante o gol fatal de Claudio Caniggia. E as opiniões do ‘China’ incomodaram a própria concentração da Seleção durante o Mundial de 1994.

Juarez era um crítico ferrenho ao “futebol robotizado” de Carlos Alberto Parreira. A CBF atingiu o limite de barrar a presença dos repórteres da Band em Los Gatos, onde o Brasil permaneceu ao longo do torneio. Há até mesmo relatos de que o comentarista se irritou com o gol de Bebeto durante a vitória sobre os Estados Unidos, nas oitavas de final. Entretanto, a caminhada ao tetra rebateu o prestígio do jornalista. Durante os mata-matas, torcedores chegaram a fazer um enterro simbólico do programa ‘Apito Final’, onde se ouviam as críticas mais pesadas. As rusgas encurtariam a passagem do veterano pela Bandeirantes, encerrada em dezembro de 1994.

“Saí da Bandeirantes porque critiquei muito a CBF. Mas só fui saber o motivo da minha saída depois. Em 1994, o Brasil ganhou a Copa, mas nós batemos muito duro na Seleção. Havia aquela mesa redonda famosa com Tostão, Gerson, Rivellino, Armando Nogueira e eu. Eu batia muito duro, e na hora de negociação de direitos de transmissão, a CBF falou para a Bandeirantes que não tinha como vender os direitos para eles, porque nós ‘metíamos muito o pau’, especialmente eu. O Luciano do Valle me chamou e disse que eu não ia estar na transmissão final do Brasileiro de 94. Em solidariedade, o Luciano também não transmitiu aquela decisão. Veja a que ponto ele chegou. A Bandeirantes sabia que eu não ia aceitar isso. Agradeci ao Luciano do Valle pela solidariedade, mas disse que estava de saída. Peguei minhas coisas e fui embora mesmo. Foi uma ingerência política do Ricardo Teixeira, então presidente da CBF. E todos sabemos que tipo de gente que ele é, sempre foi mafioso”, revelou Soares à Vitti.

Depois da Bandeirantes, Juarez Soares trabalhou na Rádio Gazeta, além de se tornar funcionário do SBT. Seria comentarista do canal durante as várias competições exibidas pelo canal na segunda metade dos anos 1990 e também na Copa do Mundo de 1998, geralmente acompanhando Sílvio Luiz nas transmissões. Foi o seu último Mundial na tela, bastante criticado pelo pessimismo de suas opiniões. “Eu vejo a realidade e o resultado só se explica pelo provincianismo do Rio de Janeiro”, declarou ao Jornal do Brasil, que realizara uma eleição para apontar o melhor e o pior comentarista daquela Copa. O China foi justamente o mais votado como o pior pelos leitores do periódico carioca.

Juarez Soares ainda trabalhou na Cultura, integrando a mesa do Cartão Verde, antes de acumular funções na Record a partir de 2001 (com uma primeira passagem breve pela Rede TV, em 2002, durante alguns meses, na mesa-redonda “Bola na Rede”, então conduzida por Juca Kfouri). Na televisão, aparecia como comentarista nos programas de debate comandados por Milton Neves. Além disso, chefiou a reportagem na rádio até 2010. Neste momento, conciliava o jornalismo com uma forte atuação política. O China já participara da fundação do Partido dos Trabalhadores e foi o sexto vereador mais votado nas eleições paulistanas de 1988. Durante os dois primeiros anos de mandato, foi Secretário de Esportes na prefeitura de Luíza Erundina e levou o GP de Fórmula 1 de volta a Interlagos. Juarez não quis concorrer à reeleição e tentou ser deputado federal em 2002, antes de se desfiliar. Juntou-se ao PDT e foi vice de Paulinho na candidatura à prefeitura em 2004. O jornalista ainda trabalhou como secretário-adjunto da Secretaria do Municipal do Trabalho, com José Serra, pedindo exoneração diante de denúncias de nepotismo. Segundo ele, a filha já era funcionária da secretaria antes de sua chegada.

Em 2010, Juarez Soares se uniu a Éder Luiz na Rádio Transamérica, participando especialmente das mesas redondas da emissora. Permaneceria na casa até 2016. Virou comentarista do programa Estação Futebol, da Rede Vida, e comprou a Rádio Oceânica de Caraguatatuba. O seu último trabalho na televisão aconteceu na Rede TV, reencontrando-se com Silvio Luiz e Luiz Ceará a partir de 2013. Compunha a mesa no Bola Dividida e também comentava partidas no canal, incluindo a Premier League. Foi demitido em abril deste ano. E o último vínculo aconteceu na Rádio Capital, na qual seguia participando dos debates. Já nesta terça, debilitado pela luta contra um câncer no reto, não resistiu a uma parada cardiorrespiratória. Tinha 78 anos.

A notícia da morte de Juarez Soares repercutiu de diferentes maneiras no futebol. Foi lamentada não apenas por antigos companheiros do jornalismo, mas também por diversos clubes e atletas. O reconhecimento a quem, mesmo sem fazer questão de ser amado, deixou sua marca na construção do imaginário do futebol brasileiro. A importância do China é evidente, ao longo de uma carreira que começou meio sem querer, mas que acompanhou a história do esporte no país.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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