Brasil

Jeito novo

A derrota por 2 a 0 para o Cruzeiro, no jogo de volta das quartas de final da Copa Libertadores, não eliminava o São Paulo da competição, somente. Pelo desalento que tomou conta da torcida, e até de alguns jogadores, a saída do torneio sul-americano parecia marcar, em definitivo, o fim do domínio do clube do Morumbi no futebol brasileiro. Tanto pelo modo equivocado como a equipe se portou naquele 18 de junho, quanto pela demissão de Muricy Ramalho, no final do dia seguinte.

E o anúncio de Ricardo Gomes não acabou com os temores. Afinal de contas, o treinador carioca fizera trabalho apenas mediano no Monaco – para nem citar a mancha maior em sua carreira, a desclassificação no Pré-Olímpico de 2004 (da qual nem foi tão culpado assim). Para recuperar um bom trabalho de Ricardo, era necessário voltar a 2002, quando treinou o Juventude que foi às quartas de final do Brasileiro.

Pois Ricardo Gomes, pacientemente, foi achando o seu modo de treinar o São Paulo. Chegou a colocar o time em variáveis do 4-4-2, nos primeiros jogos comandando a equipe. Até que soube compreender o fato de que a equipe já estava habituada ao 3-4-1-2, tantas foram as vezes que a equipe entrou assim com Muricy. Não por coincidência, a primeira partida que teve o esquema foi o 2 a 1 contra o Barueri, pela 14ª rodada – um dos jogos apontados por jornalistas e torcida como fundamentais para devolver o São Paulo à disputa de um título nacional.

Houve mais turbulências, que até fizeram supor o São Paulo como time sem mais chances. Mas o time foi aproveitando novas chances que surgiam, aos trancos e barrancos; viu alguns tropeços dos adversários próximos; e está aí, empatado em pontos com o Palmeiras, a cinco rodadas do fim do Brasileiro. Mesmo que as turbulências continuem.

Bem, melhor será dizer a turbulência, no singular. Porque, havia algum tempo, o setor de defesa não causava tanto pânico nos são-paulinos. Não há como negar que Ricardo Gomes ainda tem de colocar o seu dedo neste lugar, que sempre foi um dos pontos fortes de Muricy. Foi ali que a equipe passou os apuros que causaram a perda de pontos importantes: a virada sofrida contra o Flamengo e o empate obtido a fórceps contra o Coritiba são os grandes exemplos. E, mesmo nas vitórias, os calafrios vieram. Foram unânimes as críticas à marcação de cruzamentos na primeira trave, onde as falhas deram gols ao Santos. Contra o Internacional, Bosco foi incensado como o herói, tantas foram as defesas salvadoras. E o mesmo se viu no 1 a 0 contra o Barueri.

Mas qual seria a razão da queda de desempenho na marcação? Rogério Ceni? Nem tanto. Mesmo que esteja enfrentando o mais difícil dos seus doze anos como titular da equipe, ao sofrer com contusões (uma delas, a mais grave de sua carreira) e cometer eventuais falhas, o capitão são-paulino ainda traz uma segurança maior aos seus companheiros – além de fazer ótimas defesas, como contra Flamengo e Barueri. Melhor seria colocar tudo na conta de uma má fase, que acometeu André Dias e Miranda. E que deve passar.

Ainda assim, o meio-campo tem ajudado a minorar os problemas defensivos. E os cinco jogadores do setor mostram a principal característica a contrabalançar a turbulência são-paulina: garra. Richarlyson tem inegável qualidade, ao se desdobrar na cabeça de área para conter ataques, mas há tempos não tinha em suas atuações a alma que o levou à Seleção Brasileira, que o fez ser um dos melhores de 2007, que o tornou personagem decisiva no jogo do título, em 2008, ao anular Paulo Baier e asfixiar o Goiás. Idem para Hernanes. Jogando mais atrás, ou sendo o homem de armação, o pernambucano esqueceu as performances tímidas, na maior parte do ano, e voltou a ter o mesmo papel destacado que tinha.

Jean (ou Zé Luís) é(são) companheiro(s) que ajuda(m) a minorar o trabalho que Richarlyson tem. E, finalmente, Júnior César executa bem a missão para a qual foi contratado: ser um jogador canhoto que possa desafogar Jorge Wagner. Não por acaso, o meio-campista é mais escalado, agora, em sua posição original. Até sendo, de certa forma, aquele “camisa 10” de cuja falta o São Paulo se ressente, desde a saída de Danilo.

No ataque, Dagoberto consegue dar maior eficiência à sua rapidez costumeira – o que faz com que ele tenha lampejos mais frequentes das ótimas atuações no Atlético Paranaense. E Washington ganha de Borges na entrega. Pode perder gols a granel, pode estar de saída, pode não ter agilidade, mas o camisa 9 são-paulino demonstra maior vontade do que Borges. Isso pode fazer com que o estranhamento entre ele e a torcida fique mais amenizado, neste fim de Brasileiro.

Enfim, Ricardo Gomes. O ex-zagueiro chegou ao clube no meio de um tiroteio. Afinal de contas, se muitos eram os que avaliavam que o ciclo de Muricy no clube acabara (e não por falhas, mas por mera fadiga de materiais, por cansaço, por, vá lá, “problemas na relação”), não eram poucos os que defendiam sua permanência, em virtude do laço reforçado definitivamente – ele já existia, pelo tempo como jogador, auxiliar técnico e treinador que Muricy já tinha no clube, mas nunca foi tão fortemente estabelecido como nos últimos anos.

Ricardo soube passar bem pela fase de ligeira má vontade da torcida com ele. Soube, pouco a pouco, dar a sua cara. E está aí um São Paulo com um jeito novo. Fraco na defesa, como havia se desacostumado a ser. Mas com plena chance de reação – e de título brasileiro. Que, se vier, merece ser tão comemorado como foi o de 2008, que também teve uma subida vertiginosa. 

Sim, o Flu pode

O titular da coluna confessa: morre de medo de passar por desinformado sobre o futebol brasileiro. Vive a ter sobressaltos com a ideia de que, um dia, algum comentário vá na linha do “você não leva jeito para a coisa, não tem profundidade, saia daí e abra espaço para outro”. Principalmente se ele vier dos leitores. Por isso, o colunista tenta se informar o máximo que pode, para que mantenha aqui o nível estabelecido por gente como Ubiratan Leal e Dassler Marques. Erros são cometidos, mas os leitores os apontam, o colunista corrige e pede desculpas, e a vida segue.

Por isso, quando as circunstâncias do Campeonato Brasileiro colocam os fatos do lado do colunista, ele não disfarça certo alívio. É o que tem acontecido no caso do Fluminense. Senão vejamos: a primeira coluna dizia que o Fluminense teria de jogar o que não havia jogado em todo o ano, se ainda quisesse escapar do rebaixamento. Na segunda, reconhecia que a tabela era das piores possíveis. Mas, nas curtas da semana passada, alertava: uma desvantagem de nove pontos para o primeiro colocado fora da zona de rebaixamento tinha caído para cinco.

E as duas últimas rodadas fizeram com que o Fluminense ganhasse mais esperança de que ainda pode disputar a Série A em 2010. A situação ainda é absolutamente difícil, mas vencer a dupla mineira, Atlético e Cruzeiro, revelou algumas coisas. A primeira delas, talvez a mais importante: Cuca parece ter deixado de lado o aspecto “triste”, que vez por outra toma conta de sua personalidade, para trabalhar. Apenas trabalhar.

E disso surgiu uma equipe, pelo menos, mais voluntariosa do que a anterior. Além de ser um zagueiro mais ativo do que Luiz Alberto, Gum tem ido ao ataque com constância – e marcado gols, como os dois contra o Internacional e o que abriu a impressionante virada contra os cruzeirenses. No meio, Conca manteve as boas performances. Mas foi o ataque a ser mais “premiado”. Primeiro, com Maicon se apresentando bem, após o retorno do Mundial Sub-20. E Fred, enfim, sendo o artilheiro que o Tricolor esperava. Sem ele, provavelmente, o 3 a 2 no Mineirão não passaria de sonho.

Mas o tempo ainda corre. O Fluminense ainda precisa trabalhar muito – e a hipótese mais plausível ainda é a da queda. Enquanto isso, a torcida desfruta do sonho; e o colunista, da vantagem passageira de ter os fatos a seu favor. Porém, a lição principal que as performances aguerridas deixam é a de que o Flu pode. Pode se manter na primeira divisão – e, caso seja rebaixado, pode jogar a Série B com dignidade e raça. Dois pré-requisitos para voltar à divisão de elite.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo