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Januário de Oliveira foi único na narração, ao eternizar super-heróis e transmitir através da voz aquilo que o povo gosta

Voz lendária do futebol carioca, especialmente nos anos 1980 e 1990, o narrador faleceu aos 81 anos nesta segunda

A voz potente e a língua afiada são importantes para um grande narrador, mas não bastam por si. Também é preciso ter identidade, deixar expressa sua marca na cadência do jogo e saber como engrandecer os momentos de emoção. Januário de Oliveira tinha essas virtudes, como poucos na profissão. Os bordões que criava e os apelidos que dava ajudavam muito na leveza de sua locução. Era irreverente sem se tornar cansativo, passava o tom certo da euforia, criava uma atmosfera particular em suas partidas. As frases de efeito logo fisgavam e cativavam, transformando o trabalho de Januário em algo único. Difícil imaginar um narrador mais adequado que ele para traduzir o clima vivido no futebol carioca, principalmente nos anos 1990. O gaúcho de Alegrete também foi um dos “Reis do Rio”, pelo menos por sua voz. E assim fica gravado nas lembranças, na semana em que se despede dos milhões de torcedores neste Maracanã imaginário ocupado por seus fãs, falecido aos 81 anos.

Alegrete deu João Saldanha ao jornalismo esportivo e, em 1939, botaria Januário de Oliveira no mundo. E antes de dominar os microfones, o gaúcho tentou sua sorte dentro dos gramados. A paixão pela bola se expressava nas cores do Internacional e o adolescente chegou a jogar nas categorias de base coloradas. Trabalhou até como gandula em meados dos anos 1950, mas não permaneceria tanto tempo assim. “Cheguei a enganar no meio de campo do Internacional durante um ano, mas acabei desistindo. Tinha muita gente melhor do que eu”, explicaria ao Jornal dos Sports, em 1981. Sorte dos ouvintes e dos telespectadores que conquistaria a partir de então.

A carreira de Januário de Oliveira começou em Bagé, na década de 1960. Ficou alguns anos na Rádio Cultura da cidade, mas logo o gaúcho se tornaria um filho adotivo do Rio de Janeiro – e dos mais ilustres. Na Guanabara, Januário se apaixonou pelas três cores do Fluminense. Sua trajetória como profissional também decolou, a princípio na Rádio Mauá, pela qual trabalhou nas Copas de 1970 e 1974. Seria contratado depois pela Rádio Nacional, ficando por lá até 1981. Deixou expressa sua marca como narrador, formando inclusive uma dobradinha com o ex-goleiro Barbosa nos comentários. A partir de então, se aventuraria na TV.

O estilo de narração de Januário de Oliveira, embora fosse ótimo no rádio, parecia se casar ainda melhor na televisão. O gaúcho conseguia construir alegorias e trazer novas cores que iam além das imagens exibidas na telinha. Talvez por isso seu trabalho fosse tão excepcional: ele nos ajudava a ver além. E o começo seria na Rede Bandeirantes, que marcaria seu trabalho tempos depois. Ficaria apenas três meses por lá, até ser levado pela TV Educativa – a popular TVE, que posteriormente daria lugar à TV Brasil. A partir de então, passou a ganhar ainda mais o público e não se limitou apenas às narrações, chegando a atuar como apresentador dos programas Show do Futebol e Esporte Visão. Comandava mesas redondas pesadas no domingo à noite, que reuniam nomes como Luiz Mendes, Sérgio Noronha, José Inácio Werneck, Sérgio Cabral, Achiles Chirol e Gérson.

A irreverência, aliás, não impedia Januário de Oliveira de adotar um tom crítico. Algo que deixaria expresso em 1987, em entrevista à Tribuna da Imprensa. “O problema do futebol brasileiro é, acima de tudo, a má administração em todos os setores – sejam clubes, federações e confederação. Qualquer dirigente hoje torna a presidência dessas entidades um simples trampolim político. Isso faz com que o futebol se desmoralize. Para se ter uma ideia, dos deputados constituintes que aí estão, de 15 a 20 são presidentes de grandes clubes brasileiros. Fica claro que, por serem dirigentes de clubes populares, fazem da sua torcida o principal impulso para chegarem a cargos públicos”, afirmou. “Torcedor eu jamais deixarei de sê-lo, uma vez que o futebol ainda me apaixona. Mas já perdi a ilusão do torcedor que hoje paga por uma arquibancada. Foram tantos os desgostos com que tive contato nos bastidores do futebol, que acho que se o sujeito que vai hoje ao Maracanã soubesse disso, deixaria de assistir às partidas”.

Embora muito associado ao futebol, o trabalho de Januário de Oliveira não se resumia a uma modalidade. Pelo contrário, ele mesmo se considerava um “profissional eclético”, por conseguir narrar diferentes tipos de esportes. O futebol, de qualquer maneira, era o seu preferido. E explicava por que os esportes coletivos tinham mais seu apreço do que modalidades individuais, como a Fórmula 1 e o tênis. “O problema do esporte individual é que surgem rixas entre os competidores, não importa que sejam da mesma equipe ou escuderia. O importante é vencer”, comentaria ao Jornal dos Sports, em 1989.

Apesar da relação íntima com o futebol, uma das narrações favoritas de Januário aconteceu em quadra. Ele estava presente na memorável decisão do basquete masculino nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis, quando a seleção brasileira fez história ao impor a primeira derrota dos Estados Unidos em seu território. “Minha maior emoção foi narrar aquela vitória. Foi uma coisa, quase morri”, confessou ao Jornal do Brasil, em entrevista concedida em 1993. Durante a expansão do vôlei no país, Januário também emprestou sua voz para dar emoção aos campeonatos a partir dos anos 1980.

Também foi na década de 1980 que os bordões de Januário de Oliveira realmente caíram na boca do povo, através de suas transmissões na TVE – em videotapes que iam ao ar nas noites de domingo. “Taí o que você queria” era uma marca registrada no início de cada partida, mostrando como sabia unir som e imagem para chamar atenção do telespectador. “Eu trabalhava na Rádio Nacional e ia narrar o Fluminense x Campo Grande. O jogo não começava nunca e já estava faltando assunto. Eu enrolava, enrolava e, quando o juiz apitou o início, eu mandei: ‘Finalmente! Taí o que você queria’. Ficou. Foi assim também com o ‘tá lá um corpo estendido no chão’. Um jogador caiu, eu não sabia quem era e falei isso. Vi depois no VT, gostei e incorporei no vocabulário”, contou ao Jornal do Brasil. E assim seria com seu “cruel”, com o “sinistro”, com o “e o gol…”, com o “é disso que o povo gosta” e outras tantas frases famosas.

Januário de Oliveira completou 12 anos na TVE. Porém, com o núcleo de esportes desativado, permaneceu dois anos fora do ar. Foi quando recebeu uma proposta da TV Bandeirantes para se tornar a voz do Rio de Janeiro nas transmissões esportivas do canal, a partir de 1993. Também apresentava programas como o Show do Esporte. “Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida profissional. Foi excelente para mim e muito bom para a Bandeirantes, porque eles só tinham vozes paulistas e precisavam de alguém mais carioca. A partir de agora, porém, não vamos fazer apenas os jogos do Rio. Vai ter uma escala e, se tiver que narrar alguma partida em São Paulo, eu vou”, afirmou ao Jornal do Brasil, em 1993.

Aquele seria o auge da carreira de Januário de Oliveira, na parceria com Gérson (o Canhotinha de Ouro) nos comentários. Num tempo célebre ao futebol carioca, ele deu sua contribuição ao clima especial. E não que resumisse seu trabalho apenas aos quatro grandes, animando as narrações também dos clubes suburbanos. De qualquer maneira, sua preferência era pelo Maracanã lotado: “Eu gosto mesmo é dos jogos que reúnem grandes massas. Narrar um jogo do Flamengo em final de campeonato é emocionante. As grandes torcidas me contagiam. Mas é claro que, quando o Fluminense está disputando um bom clássico e ainda por cima vence, é emoção em dobro”.

Dentre as principais contribuições de Januário de Oliveira estiveram os apelidos que cunhou aos jogadores. Sávio, o Diabo Louro da Gávea (que depois virou Anjo); Charles Guerreiro; Valdeir, o The Flash; Geovani, o Pequeno Príncipe; Túlio Maravilha; e o Super Ézio foram os mais emblemáticos. E havia uma relação especial com o antigo artilheiro tricolor. “Certa vez estava com o Ézio no Pizza Palace e surgiu um papo de super-heróis. Pouco depois o chamei de Super Ézio numa narração e, quando não falava, a torcida me cobrava. E o negócio do Super Ézio com sua capa verde tirei de um amigo que, tricolor roxo, contava histórias para os filhos pequenos dizendo que o lobo se chamava Flamengo, um velho esfarrapado era Botafogo e um outro personagem malvado era o Vasco. O príncipe, que vestia uma capa verde e sempre salvava a mocinha, se chamava Fluminense. Aproveitei isso e botei a capa verde no Ézio”, contaria ao Jornal do Brasil.

Januário de Oliveira deixou a Bandeirantes em 1997. Ainda trabalhou na TV Manchete durante a Copa do Mundo de 1998, sem viajar à competição, mas assumindo a narração até da semifinal entre França e Croácia. Porém, neste momento, a saúde do veterano estava debilitada. Por conta da diabetes, Januário perdeu parcialmente a visão e deixou as transmissões depois do Mundial. Poucos anos depois da melhor fase de sua carreira, o veterano precisava se aposentar forçadamente antes de completar 60 anos.

“O que mais sinto falta é da emoção de estar participando daquilo. É a mesma falta que faz para todo mundo que para de trabalhar com o que gosta. Imagina quem trabalha com rádio, TV, esporte, futebol, uma paixão mundial, e de repente você é obrigado a parar. Parei há 14 anos, mas ainda sonho com o futebol. Sonhei outro dia que estava procurando uma pasta com uns textos em casa, e o táxi lá fora, esperando. Sonho que estou transmitindo, que estou falando com o repórter, pegando as escalações, coisas que a gente fazia em todos os jogos. Não consegui me desvencilhar e não quero me desvencilhar. É uma lembrança que eu não quero esquecer”, contaria Januário, ao UOL Esporte, em 2012. Neste momento, tinha apenas 8% da visão, mas seguia acompanhando atentamente o futebol brasileiro – embalado por outros narradores.

Nas duas últimas décadas, Januário de Oliveira passou a morar em Goiânia e depois em Natal, até conduzindo um projeto local para narradores. E o carinho por suas narrações memoráveis persistia. Uma das reportagens mais bonitas do jornalismo esportivo nos últimos anos teve Januário como personagem. Em 2019, o narrador retornou ao Maracanã a convite do Esporte Espetacular, em matéria de Eric Faria. Por lá, se reencontrou com Sávio, Valdeir e William, bem como com a viúva e o filho de Super Ézio. É até difícil de segurar as lágrimas, vendo os sete minutos de reportagem. Também seria emocionante a conversa com Sérgio du Bocage, seu repórter de campo nos tempos de TVE, pela TV Brasil.

Januário de Oliveira sofreria um AVC pouco depois daquelas entrevistas e veria sua saúde se deteriorar. O veterano da narração completou 80 anos em 2019, mas lidava com as limitações causadas pela idade. Já na última semana, o craque dos microfones seria internado com um quadro de pneumonia em Natal e faleceria nesta segunda-feira, vítima de uma parada cardíaca. Sua voz e seus bordões ainda viverão por muito tempo na memória de quem vibrou com suas narrações. Os apelidos, então, durarão enquanto as histórias desses ídolos permanecerem entre os torcedores – ou seja, para sempre. Assim, mesmo nesse momento de saudades, o futebol já tem certeza de que o legado de Januário de Oliveira será eterno. Como raros, ele entendia as torcidas e sabia do que o povo gostava.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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