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Jaílson, o goleiro campeão e invicto que sonhava em ir ao Programa do Ratinho

Não faz muito mais do que dois anos. O Palmeiras estava à beira do precipício. Fernando Prass havia se machucado e nenhum dos seus reservas deu conta do recado. O jovem Fábio foi um terror. Deola melhorou pouco o nível. A uma semana do prazo final de inscrições do Campeonato Brasileiro, a diretoria decidiu contratar um goleiro mais experiente para ficar na retaguarda. O escolhido foi Jaílson. Naquela época, ainda era preciso explicar quem ele era: “Jaílson do Ceará” ou “goleiro do Ceará”. Estava vindo, na realidade, o goleiro reserva do Ceará, já com 33 anos. A típica contratação desesperada de uma diretoria perdida. Fernando Prass voltou dois jogos depois, o Palmeiras escapou do rebaixamento por um triz, e Jaílson precisaria esperar mais de dois anos para ter uma chance de verdade pelo seu time do coração.

Era por volta de 18h40, em 27 de novembro de 2016, quando o quarto árbitro levantou a placa com os números 49 e 1. Jaílson demorou um instante para perceber o que estava acontecendo. O título já havia sido conquistado além de qualquer dúvida razoável, mas ele se mantinha concentrado na partida contra a Chapecoense. Quarenta mil vozes, ao cantar o seu nome, avisaram-no que sua missão já estava cumprida e ele poderia relaxar. Foi abraçado por todos os companheiros antes de deixar o gramado para a entrada de Fernando Prass. O abraço entre os dois guardiões de luvas sorrindo na lateral do gramado foi uma das mais bonitas da tarde para o torcedor do Palmeiras – o torcedor do Palmeiras gosta muito de goleiros. Foi, ao mesmo tempo, uma homenagem de Cuca ao ídolo que voltava de lesão e ao substituto que, até a penúltima rodada, não perdeu uma única partida de Campeonato Brasileiro.

As quarenta mil vozes não precisavam mais explicar que Jaílson era aquele goleiro que veio do Ceará, que era reserva do Ceará, que tinha 33 anos e nunca havia disputado uma partida de primeira divisão no Brasil. Um roteirista talentoso não inventaria um arco tão perfeito: chegou ao clube sob desconfiança, ficou esquecido por dois anos até ser convocado em condições adversas; aceitou o chamado e salvou o Palmeiras muitas vezes. Com a humildade dos bons heróis, sabe que seu filme chegou ao fim: “Quando Prass voltar, eu vou falar: ‘Esse lugar é seu’”. Segundo os estúdios, porém, com Prass já com 38 anos e duas lesões graves recentes, uma continuação não está descartada.

Jaílson não foi sequer a primeira escolha de Cuca quando Fernando Prass machucou-se com a seleção olímpica. Desde a sua chegada, o Palmeiras havia contratado outros goleiros, mais renomados ou promissores, para serem reservas imediatos do camisa 1. Aranha encarou essa situação durante um ano. Quando saiu, veio Vagner, do Avaí. Vagner foi quem assumiu o vácuo debaixo das traves nos jogos contra Atlético Mineiro e Botafogo, duas derrotas, a única vez no Brasileirão que o Palmeiras perdeu dois jogos seguidos. Não passou nenhuma segurança. Era a hora de usar a carta da experiência que havia sido adquirida em outubro de 2014. Jaílson foi titular contra o Vitória. Sua quarta partida com a camisa do Palmeiras, apenas a segunda oficial, a primeira na elite do futebol brasileiro em toda sua carreira.

Jaílson fechou o gol. Defendeu a primeira, uma tentativa à queima-roupa de Kieza, com o pé. Caiu no canto direito para defender um desvio de Cleiton Xavier em cobrança de falta que seria gol contra. Novamente com os pés, bloqueou chute cruzado de Vander. Euller buscou o ângulo e Jaílson foi buscar. O Palmeiras venceu por 2 a 1, resultado que deu um alívio à torcida e aos jogadores depois de três rodadas sem vitória. Após a partida, o elenco inteiro cumprimentou o novo goleiro titular. “Falei (para o Ceará) que queria ir embora, que era o time do meu coração. Não é porque hoje estou no Palmeiras que sou palmeirense. Eu sou palmeirense desde pequeno”, disse, naquele dia. “Tinha o sonho de disputar uma Série A e hoje estou realizado esse sonho”.

Duvido, porém, que em seus sonhos mais caros Jaílson pensou que não apenas disputaria uma Série A, mas a faria pelo time que torcia, substituindo um ídolo, na campanha que encerrou um jejum de 22 anos sem título brasileiro e sem ser derrotado nenhuma vez. Depois de enfrentar o Vitória, entrou em campo mais 17 vezes pelo Brasileirão, com cinco empates e 12 triunfos. A única derrota do Palmeiras nessa sequência foi para o Santos, na Vila Belmiro, com Vinicius Silvestre debaixo das metas porque Jaílson estava suspenso. A única de Jaílson foi na Copa do Brasil, em Porto Alegre, para o Grêmio.

E não é que ele teve que trabalhar pouco para alcançar esses resultados. Fez intervenções decisivas no 1 x 0 contra o Atlético-PR, única derrota do Furacão na Arena da Baixada no campeonato, ajudou a manter o zero no placar contra o Grêmio e fez lindas defesas contra o Sport, para citar apenas alguns jogos em que se destacou. Acima de tudo, passou segurança ao torcedor palmeirense traumatizado pela última vez em que havia ficado sem Fernando Prass, temeroso de que aquilo voltasse a acontecer bem no meio de uma campanha que tinha tudo para acabar em troféu. Como palmeirense, Jaílson estava ciente desse problema e evitou que ele se concretizasse.

Também cumpriu a promessa que fez a sua avó, Nacife Marcelino, 80 anos, segundo o Globo Esporte: “A senhora não vai morrer enquanto não me ver sendo goleiro do Palmeiras”. Levou a família inteira para os bastidores da partida contra o Botafogo, a primeira que poderia selar o título alviverde. Inclusive o seu Gérson, que treinava Jaílson no quintal de casa, em São José dos Campos.

Com o título conquistado, o primeiro goleiro negro a ser campeão com a camisa do Palmeiras precisou tratar de assuntos mais burocráticos. Na última quinta-feira, renovou contrato até 2018 e quer encerrar a carreira no Parque Antártica. Conquistados os sonhos mais importantes – Série A, jogar pelo Palmeiras, título -, chegou a hora de realizar os que estão na segunda prateleira: Jaílson é fã declarado do apresentador Ratinho e, bem-humorado, tem o hábito de imitar o personagem Xaropinho. No mesmo dia em que estendeu seu vínculo com o Palmeiras, o goleirão de 35 anos foi convidado por Carlos Massa para participar do “Jornal Rational” do Programa do Ratinho. Jaílson, neste fim de ano, é um homem satisfeito.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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