Brasil

Já facilitou (um pouco)

Jornalistas que trabalham com futebol – e torcedores – são bichos esquisitos. Os primeiros já sabem que palpitar excessivamente sobre resultados de jogos e campeonatos é um hábito temerário. Evidentemente que, quando feito sobre análises racionais e de modo não tão apaixonado, há mais chances de coisas sensatas serem faladas. Porém, na maioria das vezes, os palpites são feitos a esmo e de modo apaixonado. Cenário propício para absurdos serem falados. E forçar o jornalista, depois, a desculpas.

Porém, os torcedores não se cansam de pedir isso aos analistas. Faz parte, é um modo de tentar aplacar a ansiedade às vésperas de um jogo importante, por exemplo. Ou de alguns jogos importantes. Que estão sobrando, por sinal, no Campeonato Brasileiro, a quatro rodadas do final. E, para alívio dos jornalistas, o cenário, que parecia absolutamente adverso a apostas de qualquer tipo, começa a ficar um pouco mais tranquilo. Um pouco. Bem pouco.

Na 32ª rodada, Cruzeiro e Internacional perderam parte do status de “favoritos ao título”. Os mineiros, por permitirem a inqualificável virada do Fluminense, em pleno Mineirão; e os gaúchos, por não terem forças para reverter o 1 a 0 do Botafogo, no Beira-Rio. E, na 33ª, foi a vez de o Atlético Mineiro sofrer um revés pouco recomendável, na hora da decisão. Por outro lado, vencer fora de casa, em pleno Mineirão, credenciou o Flamengo como candidato em definitivo ao título – se é que ainda havia alguma dúvida a esse respeito.

Aliás, o titular da coluna não se furta a dizer: tem o time da Gávea na conta de seu principal favorito à conquista. Atuar como atuou, de modo seguro, sempre controlando o jogo, mesmo num Mineirão lotado, só faz aumentar a respeitabilidade da equipe de Andrade. O time está absolutamente adaptado, e não permitiu que o tropeço contra o Barueri minasse o moral. Além disso, mesmo em terceiro lugar, não se pode esquecer: a equipe conseguiu os seis pontos, nos confrontos diretos contra São Paulo e Palmeiras.

Porém – e não se pode falar no Brasileiro, atualmente, sem falar em poréns -, a dependência de Petkovic é algo que ainda traz dúvidas a como agiria o Rubro-Negro, sem ele. Sem contar que o próximo jogo será contra um Náutico em situação cada vez mais difícil para escapar do rebaixamento, mas ainda com eventuais perspectivas. E nos Aflitos.

Dificuldade que não tem o Palmeiras, pelo menos a princípio. Jogando no Palestra Itália, a equipe tem plenas condições de poder passar por um Sport quase condenado e subir para a liderança, provisoriamente. Ou, pelo menos, a equipe teria plenas condições. Porque, cada vez mais, os palestrinos aparentam dilapidar suas chances, a cada derrota sofrida.

O fato de Carlos Eugênio Simon ter errado, sim, na anulação do gol de Obina (e como errou!) não pode apagar o fato de que a equipe foi muito menos aguerrida do que o Fluminense, no Maracanã. Raramente, deu trabalho que perturbasse Rafael. Sem contar que ações como o destempero de Luiz Gonzaga Belluzzo nunca são bem vindas, em ambientes onde a crise se avizinha. Como é o palmeirense, atualmente.

O que dá chances ao São Paulo para poder cimentar sua liderança na competição. Jogando contra o Vitória, o time de Ricardo Gomes vive uma situação até tranquila. Se bem que foi ajudado pela derrota do Palmeiras. Caso contrário, o empate contra o Grêmio seria amplamente decepcionante. Tanto pelo fato da equipe não ter conseguido um bom resultado num jogo em que foi amplamente superior (ainda mais no primeiro tempo – e justamente quando Rafael Marques marcou o gol gremista), quanto pelas três expulsões. Menos as de Dagoberto e Jean, mais na incompreensível explosão de Borges. O único alento tricolor veio com Rogério Ceni, mostrando mais uma vez porque é… Rogério Ceni.

Mas o São Paulo enfrenta o Vitória, rival que merece respeito. E irá ao gramado do Morumbi desfalcado. Palmeiras e Flamengo agradecem. Porém, o segundo e o terceiro colocado podem tropeçar. E aí, uma vitória do Atlético voltaria a alimentar as esperanças da torcida. E ainda há Cruzeiro e Internacional… mas, bem, aí é um excessivo pudor considerar tantas variáveis. De todo modo, o favorito do colunista está aí. Até para ser ridicularizado ao fim deste imprevisível Campeonato Brasileiro.

Um aprendeu. O outro, não

Na última rodada, o jogo entre Sport e Cruzeiro ofereceu um cenário interessante. Independente do resultado (que também veio de um jogo agradável), iam ao gramado da Ilha do Retiro duas equipes que enfrentaram, em estágios diferentes do Brasileiro, a falada “síndrome do pós-Libertadores”. Claro, referindo-se à saída da competição continental mais desejada pelos clubes brasileiros.

E o 3 a 2 cruzeirense não deixou dúvidas sobre qual equipe aprendeu a lidar melhor com o trauma de ter caído fora do torneio. Trauma que era até mais sério. Afinal, a equipe perdeu a Libertadores dentro de casa. E sofreu com o fantasma por muito tempo – talvez fundamental para que a equipe perca a vaga na Libertadores de 2010. Mas, pelo maior talento do time, e pela aceitação gradual, houve essa reação, no final. Demorou, mas o Cruzeiro conseguiu apagar o “Projeto Libertadores”. E já é capaz de viradas como a que fez para cima do Sport.

O Leão, por sua vez, não conseguiu aceitar, ao longo do ano, que a Libertadores tinha acabado. Toda a preparação feita no início do ano, toda a boa exibição na primeira fase do torneio, as ótimas atuações da equipe, tudo isso foi trabalhado para ser comprovado com o título sul-americano. E ruiu, após o azar de contar com um inspirado Marcos na decisão por pênaltis (mas não só nela), nas oitavas de final.

Desde então, o sonho do Sport foi desmoronando. A crise estranha que culminou na demissão de Nelsinho Baptista e na saída de Paulo Baier. A campanha muito ruim no Brasileiro, que faz com que a equipe tenha tomado o lugar do Fluminense como “ameaçado principal ao rebaixamento”. Nada que já não tenha acontecido em casos anteriores: Fluminense, após 2007, é o último exemplo – para não falar do Corinthians, que não sossegará enquanto não tirar da memória a eliminação traumática em 2000. Mas é preciso para o Sport aceitar que a vida continua. Como o Cruzeiro aceitou.

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Equipe Trivela

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