Brasil

Intrusos na Série A

O estado de São Paulo terá seis ou sete clubes na primeira divisão brasileira de 2009. O número varia de acordo com a permanência ou não da Portuguesa, mas é engordado pelos acessos confirmados de Corinthians e Santo André. A quarta vaga para a promoção deve ser confirmada pelo Barueri, que só precisa de uma vitória em seus dois últimos jogos para selar a classificação. Por fora, correm o Bragantino e o Vila Nova – este com chances remotas.

As promoções de Santo André e Barueri deflagram uma situação delicada para o futebol brasileiro. Clubes com pouca ou nenhuma tradição chegam à elite nacional amparados em dois modelos bastante questionáveis, respaldados por personalidades sem ligação com o esporte e de questões importantes a serem respondidas para a sociedade.

Em tese, qualquer clube tem direito de buscar seus objetivos esportivos e tradição. Na prática, é bem diferente, e Santo André e Barueri são filhos de projetos discutíveis. Enquanto isso, clubes tradicionais do futebol nacional como Bahia, Fortaleza, Santa Cruz, Remo, Paysandu, Vila Nova, Ponte Preta e Guarani, por exemplo, não conseguem se organizar a ponto de viabilizar uma volta à primeira divisão. O que indica, também, uma falta de capacidade deles, claro, supostamente maiores.

Santo André: o império de Ronan Maria Pinto

Se foi o São Caetano que, no início do século, levou o nome do ABC para o Brasil e até exterior, com o vice-campeonato da Libertadores, é o Santo André, agora, o responsável por dar continuidade a esse processo. Ao contrário do Azulão, que tinha o respaldo da prefeitura local, o sucesso do Ramalhão em 2009 é fruto da mobilização local de empresários e personalidades importantes que investiram na formação da equipe liderada pelo jovem técnico Sérgio Soares.

Há algum tempo, o Santo André abriu o seu capital a quem quisesse pôr dinheiro e, conseqüentemente, atingir lucros. A fórmula atraiu a presença de grupos financeiramente fortes na região, como Auto Shopping Global e Samcil. À frente do projeto, Ronan Maria Pinto, dono do diário do Grande ABC e ligado ao setor local de transportes.

Essa nova sistemática afastou o ex-presidente Jairo Livolis e Celso Luiz de Almeida, que era secretário de esportes da prefeitura de Santo André e hoje administra apenas a parte social do Santo André. A perda de poder da dupla fez com que Ronan Maria Pinto se tornasse a figura politicamente mais atuante no Ramalhão, a ponto de romper com a COOP, antiga patrocinadora, e também com a prefeitura da cidade.

Recentemente, Ronan chegou a dizer que a estréia no Campeonato Paulista de 2009 será em Ribeirão Preto, alfinetando a prefeitura por não entregar o Estádio Bruno José Daniel em condições adequadas. Em outras palavras, como se dissesse: “Chegamos aqui sem a ajuda de vocês”.

Entre os que ajudaram o Santo André, o nome de Marcelinho Carioca é figura de consenso. Indicado entre os melhores jogadores da Série B, o experiente meia vestiu a camisa do Santo André com unhas e dentes, passou por um importante processo de recuperação física e foi além de um projeto de marketing da direção do Ramalhão.

Nomes como do goleiro Neneca, do zagueiro Douglas, do lateral-esquerdo Jaílson, dos volantes Fernando e Willians, do meia Jéfferson, ou ainda do centroavante Márcio Mixirica, compuseram a espinha dorsal da equipe liderada por Sérgio Soares. Com esses nomes, além de Pará e Maikon Leite – ambos negociados com o Santos -, o Santo André conseguiu seus objetivos em 2009, e venceu a Série A-2 do Campeonato Paulista e ainda voltou para a primeira divisão nacional, onde não chegava desde 1984.

Um cenário diametralmente oposto ao de 2007, quando o Santo André caiu de divisão no Campeonato Paulista e passou boa parte da Série B na zona de rebaixamento, se salvando apenas no final. De clube que atrasava salários, o Ramalhão passou a ser vitrine na Série B, ainda que com a pífia média de público: 2.763 torcedores, a 16ª média da competição.

O problema é que Ronan Maria Pinto é acusado de concussão, formação de quadrilha, fraudes em licitações e na execução de contrato durante a administração do ex-prefeito Celso Daniel, assassinado há seis anos. Entre as acusações que pairam sobre Ronan, a de envolvimento com este crime é uma das mais nebulosas, embora o caso seja, até hoje, insolúvel.

Barueri: farra com o dinheiro público

Por fora, bela viola. Por dentro, pão bolorento. Um dos mais antigos tradicionais ditados da humanidade serve para ilustrar, de maneira metafórica, a realidade em Barueri. Um estádio novinho em folha, moderno e confortável, foi construído pela prefeitura da cidade, localizada na Região Metropolitana de São Paulo, e entregue de mão beijada para o clube, fundado há sete anos.

Os arredores do próprio estádio, porém, já dizem tudo. A cidade, embora não seja paupérrima, tem carências evidentes e sérios problemas habitacionais. A gestão do prefeito Ruben Furlan (PMDB), no entanto, investe cerca de R$ 15 milhões por ano no clube, segundo Amir Sommogi, da Casual Auditores.

Com tanto investimento em estrutura e planejamentos, fica difícil não atingir objetivos. Assim, em sete anos, o Barueri conseguiu vencer a Copa São Paulo de Juniores – já em 2001 -, e atingiu consecutivos acessos estaduais, passando da extinta Série B-3 em 2002 para a A-1 em 2007. Em 2008, não chegou à semifinal, mas foi o simbólico “campeão do interior”.

Nacionalmente, o Barueri estreou na Série C em 2006, e foi imediatamente promovido. Após um ano na Série B, deve rapidamente chegar entre os primeiros do país dois anos depois.

Em 2008, a receita para o sucesso do Barueri não foi diferente da utilizada em muitos anos. Ao contrário do que sugere um clube emergente e com dinheiro para investir, a aposta não é em jovens jogadores com margem para uma transferência lucrativa, mas sim em nomes com quilometragem pelas divisões de cima e com passagens normalmente fracassadas por clubes grandes do país.

Com essa experiência à disposição, o Barueri se manteve na espreita do G-4 em boa parte da competição, mas disparou agora na reta final. Ainda que tenha tido diferentes treinadores, sugerindo uma falta de melhor organização, não teve seu desempenho abalado dentro de campo.

Reeleito prefeito de Barueri até 2012, Ruben Furlan irá celebrar quase 20 anos do mesmo grupo político na liderança da cidade. Os 68,68% obtidos na recente eleição municipal indicam certa aprovação ao seu trabalho. Sinal de que a maquiagem tem sido bem feita. E que os frutos continuarão sendo plantados por mais alguns anos.

Flamengo: ainda dá?

O otimismo, por incrível que pareça, tem sido o maior inimigo do Flamengo nos últimos tempos. Desde a improvável e catastrófica eliminação na Libertadores desse ano, o clube tem decepcionado, justamente, quando se sente mais forte.

Prova disso é que as maiores decepções vieram, justamente, após grandes resultados. Goleou o Figueirense por 5 a 0, perdeu em casa para o São Paulo; venceu o clássico contra o Vasco por 3 a 1, perdeu a invencibilidade para o Coritiba; bateu o Náutico nos Aflitos, levou de 3 do Atlético-MG no Maracanã; fez 5 na revanche contra o Coritiba, e empatou com Vitória e Portuguesa.

Por tudo isso, e pela forma com que se construiu a goleada sobre o Palmeiras, a visita ao Mineirão inspira cuidados. Márcio Braga e Kléber Leite, embora façam um trabalho mais sério que em outras ocasiões, seguem desferindo declarações infelizes aos microfones. E Caio Júnior, embora tenha suas virtudes, ainda demonstra insegurança no trato psicológico de um elenco profissional e isso se reflete em campo.

Caso traga três pontos do duelo com o Cruzeiro, o Flamengo pode pensar, efetivamente, em atrapalhar a vida do São Paulo. Para isso, porém, será necessário um tropeço do bicampeão em São Januário, pois uma distância de cinco pontos em dois jogos dificilmente irá se diluir.

Série C: tudo em aberto até o final

Cinco clubes na briga por três vagas. É esse o panorama da Série C que terá seus classificados definidos na noite do próximo domingo. Se o Atlético Goianiense já está dentro e Confiança e Rio Branco já não têm mais chances, Campinense, Guarani, Duque de Caxias, Águia de Marabá e Brasil de Pelotas ainda se acotovelam pelo acesso.

Matematicamente, a situação mais confortável é a do Campinense, que tem 20 pontos e está na segunda posição. A viagem até Goiânia para enfrentar o Atlético, porém, indica dificuldades, mas o Colorado, com 28 pontos, já está garantido com o título, inclusive.

Logo atrás do Campinense, vêm Guarani, Duque de Caxias e Águia de Marabá. Dono de melhor saldo de gols do trio, o Bugre receberá o Águia no Brinco de Ouro da Princesa, e sobe com uma vitória simples. No seu estádio, o alviverde de Campinas somou 13 de seus pontos, e é favorito. Com três pontos, porém, os paraenses deixam os paulistas para trás e se garantem na próxima Série B.

Atualmente na quarta posição, o Duque de Caxias é mais um que só precisa de suas forças para se qualificar. Viajará até o Sergipe, porém, para pegar o Confiança, que já não tem mais chances. Caso traga três pontos da viagem, automaticamente, os fluminenses atingem o acesso.

Com 17 pontos e chances um pouco menores, o Brasil de Pelotas viajará até o Acre para enfrentar o Rio Branco na Arena da Floresta. Embora o jogo não inspire dificuldades para os gaúchos – os acreanos são lanternas -, alguém precisará tropeçar para que o Rio Grande do Sul volte a colocar dois clubes na Série A.

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Equipe Trivela

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