Brasil

O Internacional não está feliz com o modo como jogadores de sua base têm sido aproveitados

Em entrevista exclusiva à Trivela, Felipe de Oliveira, diretor das categorias de base do Internacional, opina que baixo aproveitamento de jogadores formados no clube é culpa dos treinadores do profissional

Histórico celeiro de grandes jogadores — não à toa, autointitulado ‘Celeiro de Ases’ — o Internacional tem vivido momentos de baixa quanto à formação de atletas. Com excessão de Johnny, vendido ao Real Betis, da Espanha, o Colorado não teve, em 2023, jogadores egressos de suas categorias de base atuando regularmente, e com destaque, no time principal. Por consequência, com significativo potencial de venda.

Entretanto, isso não é culpa das categorias de base do Inter, de acordo com Felipe de Oliveira, diretor geral da base colorada. Em entrevista exclusiva à Trivela, ele comentou sobre o baixo aproveitamento de atletas formados no Celeiro de Ases no time profissional.

— Isso não é um trabalho da base. Eu acho que isso é uma leitura equivocada que a imprensa costuma fazer quando vai analisar trabalho de base. Trabalho de base vai até o menino sair da base para o profissional. O aproveitamento, como vai se dar essa entrada no profissional, isso é um trabalho da transição, isso se dá dentro do profissional. Um trabalho do profissional, do treinador. Então depende muito de como cada comissão técnica vai fazer o aproveitamento ou não dos jogadores — opinou.

Diretor da base cita Estevão como exemplo de mau aproveitamento no profissional do Inter

Felipe não se furtou de trazer exemplo recente do próprio Inter para justificar seu pensamento. Destaque na conquista do Campeonato Brasileiro Sub-20, em 2021, e na campanha da Copa São Paulo de Futebol Jr., em 2022, o meia Estevão recebeu algumas oportunidades com o técnico Mano Menezes, mas foi ‘arquivado’ após ser ‘queimado’ em momentos importantes do primeiro semestre de 2023.

Estevão perde oportunidade de gol na semifinal do Campeonato Gaúcho, contra o Caxias. Foto: Fernando Alves/IconSport

— Sem entrar em nenhuma crítica, nenhum treinador, mas quando o Estevão é lançado ele joga semifinal do Gauchão. Ele erra o pênalti na semifinal do Gauchão, e o próximo jogo que ele joga é na reta final contra o América-MG, em que o Inter precisava fazer mais um gol para se classificar na Copa do Brasil. Isso não tem nada a ver com o trabalho da base — comentou o dirigente.

Problema no aproveitamento dos jogadores da base não é exclusividade do Internacional

Mas Felipe entende que essa dificuldade na política de aproveitamento de jogadores das categorias de base não é exclusividade do Inter. E citou o Palmeiras, atualmente referência na formação de atletas no Brasil, com Endrick sendo o último, e principal expoente.

— O aproveitamento de jogadores da base está necessariamente vinculado a como o departamento de futebol profissional vai se posicionar ou se preocupar com esse tema. Que geralmente se dá por meio da comissão técnica. Teve uma entrevista do João Paulo [Sampaio, coordenador da base do Palmeiras] no Bola da Vez, da ESPN, em que ele disse que a melhor contratação do Palmeiras para a base foi o Vanderlei Luxemburgo. Porque o Palmeiras era um time que só contratava jogadores, e o Vanderlei entendeu que era um caso de aproveitar os meninos que estão sendo formados. E isso aí gerou uma sensação — contou.

Modelo de jogo pensando no treinador do profissional e na cultura do clube

Considerando essa dependência da comissão técnica profissional, Felipe reviu, durante os três anos em que está à frente da base do Inter, o pensamento que tinha sobre modelo de jogo. Anteriormente, não enxergava como positiva a unificação de uma maneira de jogar nas categorias inferiores. Agora, entende que não adianta, por exemplo, formar extremas se o treinador do time de cima não utiliza extremas. Mas além disso, prioriza a cultura do clube.

— Essa é uma posição que eu revi. Justamente por conta da transição e do aproveitamento dependerem diretamente da vontade da comissão técnica do profissional, vou ter que desenvolver atletas que tenham valências em que o treinador do profissional acredita. Mas indo além da questão do treinador profissional, valências que priorizem o jeito de jogar do Inter, que a torcida do Inter se identifique. Então é mais nesse sentido que a gente está desenvolvendo. No sentido de que seja um futebol mais ofensivo, um futebol mais no campo do adversário, um futebol que seja preponderante, dominante, no sentido de se impor no campo — explicou.

Internacional tem figura para fazer o elo entre base e profissional, mas distância dos CTs dificulta

O Inter conta, desde o início de 2021, com Julinho Camargo como gerente de transição, sendo responsável por fazer o elo entre base e profissional. Porém, Felipe revelou que o trabalho dele varia de acordo com a comissão técnica da equipe principal. Atualmente, está mais próximo ao Sub-20, na preparação para a Copa São Paulo de Futebol Jr. Durante a última temporada, tinha função de organizar e repassar os atletas que deveriam treinar durante a semana com o profissional, e descer para jogar na base.

Outra dificuldade apontada por Felipe é a distância entre o CT Morada dos Quero-Queros, das categorias de base, que é em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre, e do CT Parque Gigante, do profissional, que é ao lado do Beira-Rio. Isso afeta a integração entre os departamentos e inviabiliza que a comissão técnica do profissional observe mais de perto os potenciais talentos.

Foto de Nícolas Wagner

Nícolas Wagner

Gaúcho, formado em jornalismo pela PUC-RS e especializado em análise de desempenho e mercado pelo Futebol Interativo. Antes da Trivela, passou pela Rádio Grenal e pela RDC TV. Também é coordenador de conteúdo da Rádio Índio Capilé.
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