Brasil

Institucionalização da bagunça

Depois de muitas reclamações de torcedores e uma sensação grande de que havia uma marmelada no Campeonato Brasileiro de 2011, a CBF resolveu atender a pedidos para colocar clássicos nas últimas rodadas. Com isso, tenta minimizar a possibilidade das chamadas marmeladas.

A mudança, embora atenda a muitos pedidos de torcedores e mostre uma ação contra essa sensação de marmelada (ainda que, de fato, ela pouco tenha ocorrido), traz consequências para o campeonato, para os times e para os torcedores que merecem ser ponderadas.

Primeiro, o campeonato perderá com todos os clássicos concentrados apenas nas rodadas finais. Isso porque não teremos nenhum desses confrontos durante a competição, que são sempre motivos de esquentar a competição – sabemos que quando um time vence um clássico, sua motivação aumenta e pode embalar.

Segundo, temos um problema logístico. Sim, porque colocar clássicos de uma mesma cidade em um mesmo dia acarreta problema para os times. Ao menos em um dos jogos, o mandante terá que abrir mão de jogar em seu estádio para não criar confusão. Aliás, a própria CBF já fez uma nota na tabela dizendo que o local do jogo ainda terá que ser definido.

Na última rodada, temos simplesmente dois clássicos paulistas: Corinthians contra o Palmeiras, mando corintiano, e São Paulo e Santos, com mando são-paulino. Um dos dois times terá que abrir mão do seu mando e jogar no interior. Se um dos mandantes não estiver disputando o título, deve mandar o jogo no interior, tirando a chance da sua torcida de assistir um dos grandes jogos do campeonato, contra o rival. Prejuízo para a torcida.

Podemos imaginar um cenário ainda mais complicado. Imagine que tanto Corinthians quanto São Paulo disputem o título. Um deles terá a desvantagem de não ter o mando e ter que jogar “fora” uma partida decisiva. Ainda podemos imaginar que Santos e Palmeiras estejam disputando o título. Um deles seria beneficiado por jogar em um campo neutro contra um rival.

Outra desvantagem é que os jogos perdem um pouco do seu brilho. Isso porque os jogos da última rodada são no mesmo horário e, com isso, têm sua importância e diminuída, já que será menos visto. Clássicos como Flamengo e Fluminense são jogos que atraem não só os torcedores dos seus próprios times, mas todo mundo que gosta de futebol. O mesmo para Palmeiras e Corinthians, ou Cruzeiro e Atlético-MG. Com todos ao mesmo tempo, menos gente os assistirão.

Por fim, mas não menos importante, isso não mata a chance de uma marmelada. Uma hipótese: o Corinthians luta pelo título brasileiro e enfrenta o Palmeiras na última rodada. Um dos rivais é o São Paulo, que enfrenta o Santos. Como a rivalidade com o Corinthians é maior do que a com o São Paulo, é possível que alguém suponha que o time entregará para prejudicar o maior rival. Ou seja: diminui a possibilidade da sensação de marmelada na última rodada, mas não a elimina.

Outro problema é que essa sensação ficou nas últimas rodadas, não só na última. Considerando, por exemplo, que Internacional e Fluminense disputam o título, na 35ª rodada há os confrontos entre Fluminense e Grêmio e Internacional e Bahia. Seguindo a linha de quem acha que os times entregam, o Grêmio poderia facilitar o jogo para o Flu para prejudicar o Colorado. E esse é um exemplo, há muitos outros possíveis.

Uma forma de manter mais times brigando até a última rodada seria eliminar a aberração de classificar oito times para a Copa Sul-Americana. Ora, metade deles é eliminado logo na fase brasileira da competição. Então, poderíamos ter metade dos classificados, apenas do 5º ao 8º. Já traria mais disputa pela vaga, além da valorizar o torneio.

Colocar os clássicos na última rodada cria outros problemas e não resolve o problema da sensação de marmelada. Pior do que isso, ainda institucionaliza a bagunça, a desconfiança e reforça esse tipo de mentalidade de marmelada. Porque não são os clássicos na última rodada que mudarão uma mentalidade, não é?

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo