A imprensa ajuda a derrubar técnicos ao discutir insistentemente possíveis demissões?
Segunda-feira é um dia tradicional de debater o futebol, o que rolou na rodada do fim de semana. Golaços, vitórias, derrotas, triunfos, tropeços, falhas… E um dos assuntos é a pressão que os técnicos sofrem. Normal, é uma profissão que tem muita pressão, como tantas outras. A discussão aqui é outra: o quanto a imprensa ajuda a aumentar ainda mais a pressão e acabar contribuindo para a demissão dos técnicos?
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O mais recente caso é o de Dorival Júnior. O trabalho dele é questionado neste início de 2018, com resultados ruins em um campeonato tão fraco quanto o Paulista. O time perdeu jogadores fundamentais, como Lucas Pratto e Hernanes, e contratou sem parecer ter muito critério de necessidades do time, com Diego Souza, Nenê, Santiago Trellez e Valdívia. O técnico tem se complicado para fazer o time ser eficiente em campo e os resultados estão sofríveis. Uma parte da torcida pede sua saída, o que é comum. O ponto aqui é: o quanto de pressão a imprensa coloca para que o técnico saia?
Nas suas declarações após o empate contra a Ferroviária, neste domingo, Dorival Júnior foi questionado de forma muito veemente por repórteres sobre a sua demissão. Só que ele não foi demitido. Algumas perguntas foram até um pouco excessivas. Um dos repórteres fez um preâmbulo pedindo desculpas, dizendo que o futebol é assim e perguntou se ele ainda era o técnico do São Paulo. Foi só a primeira pergunta e boa parte dos que se propuseram a perguntar o fizeram rondando esse mesmo tema: a demissão que ainda não aconteceu.
A questão aqui não é individualizar o caso de Dorival Júnior, dizer se ele deveria ou não ser demitido. A questão é que a imprensa, como um todo, parece aumentar muito mais a pressão ao ficar perguntando sobre a sua demissão o tempo todo, ao discutir nos programas de rádio e TV sobre a demissão, os possíveis substitutos e trazendo informações de bastidores bastante questionáveis.
O próprio Dorival, acuado, foi bastante educado e questionou justamente isso, dizendo que o fato de ele não ter sido demitido parece incomodar. Como se o assunto da sua demissão rendesse um farto prato à imprensa. E ele tem razão. A ciranda de técnicos é algo que rende muito nos veículos, sejam impressos, de rádio, de TV ou internet. Há debate sobre a demissão e possíveis substitutos de Dorival há ao menos duas semanas. Aumentou mais quando uma parcela da torcida organizada pediu Vanderlei Luxemburgo.
No fim, a imprensa debate a demissão do técnico com tanta insistência e veemência que os torcedores acabam sendo expostos a isso o tempo todo. Boa parte da crítica esportiva defende que os técnicos têm pouco tempo para mostrar seu trabalho e as condições são ruins, como pré-temporada quase inexistente em um calendário que empilha jogos desde janeiro e não permite treinos e preparação. Nesse moedor de técnicos, o trabalho dos técnicos é de sobrevivência. Não que em outros lugares isso não aconteça, mas a junção de problemas que acontece no Brasil é realmente algo bastante difícil de lidar, mais que nas principais ligas do mundo, ao menos.
O que, então, a imprensa deveria fazer? O que parece claro é que as informações de bastidores se tornaram uma coqueluche perigosa, com muitas fofocas sendo divulgadas, a grande maioria que nunca se confirma, mas por uma ou outra ser verdadeira, continuam a serem divulgadas. Por isso, a responsabilidade da imprensa precisa ser redobrada. Informações sobre demissão são divulgadas por pessoas dentro dos clubes que querem que aconteça, mesmo que isso não esteja próximo de acontecer. Separar o joio do trigo é uma tarefa difícil, mas é fundamental. Alimentar o monstro de especulações desmedidas é um problema.
Há também a questão Tostines: a imprensa divulga esse tipo de informações de bastidores porque o público gosta de ler isso ou o público gosta de ler isso porque a imprensa publica? Difícil saber. De qualquer forma, o debate inócuo sobre demissão de treinadores quando há uma sequência de maus resultados acaba dando a impressão que há muitos urubus sobrevoando os animais moribundos, salivando à espera da sua morte.
A imprensa muitas vezes usa o “sentimento” do torcedor como argumento, de forma indireta. Aquela coisa de “não acho que deveria ser demitido, mas vai ser pressionado, a torcida vai pedir a cabeça dele”. O argumento é bastante comum: muita gente diz que não defende isso, que não concorda, mas que o futebol brasileiro é assim. O quanto esse “sentimento”, pouco apurado, não é influenciado pelas discussões incessantes da imprensa sobre técnicos no bico do corvo? Quando reforçamos as especulações ao discutir sobre elas, não contribuímos para que essa cultura de demissão de técnicos se mantenha?
É importante lembrar que o modelo de negócio da imprensa é a audiência: quanto mais audiência, mais receita (seja de patrocinadores e seus anúncios, seja venda direta ou assinatura, no caso de conteúdo fechado). Ou seja: quando se consome muito um tipo de notícia, esse tipo se torna mais lucrativo. Portanto, uma especulação, mesmo que seja apenas uma conversa de botequim, pode ser lucrativa nesse sentido. Porque uma conversa de botequim nada mais é do que isso mesmo, até que algum veículo a publica. Aí se torna outra coisa. Entra no debate público de forma muito mais forte.
Nesse sentido, talvez valha um pouco repensar do lado de quem produz as notícias, mas também do lado de quem consome. É uma roda viva, mas da qual a imprensa não pode se isentar. Um debate que deve envolver torcedores, consumidores de notícia e imprensa, em todos os seus meios. Essa busca desenfreada por informações de bastidores com índice de acerto tão baixo é o que queremos do jornalismo esportivo?
Ainda que não haja uma fórmula, é preciso estar aberto a debater, sempre. Porque o jornalismo, como qualquer outra profissão pública, tem implicações e consequências. Resta também ao leitor fazer esse filtro. E com as redes sociais, muita gente já demonstra seu descontentamento quando os textos ou programas se apoiam nas especulações.
Os veículos de imprensa também precisam repensar se é isso que querem. Será que o estrago na imagem causada por esse tipo de especulação vazia compensa o dinheiro que, eventualmente, pode entrar a mais? Ainda mais em um momento que a publicidade paga cada vez menos e, em muitos casos, nem pague as contas.
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