Apenas a idolatria justifica tanto investimento em Robinho
Basta apenas o anúncio oficial. Robinho voltará a ser um Menino da Vila, quatro anos depois de deixar o Brasil pela segunda vez para perseguir o sonho de ser o melhor jogador do mundo na Europa. Com bons e maus momentos, passou longe disso. Muito longe. Aos 30 anos, está em um patamar de jogador médio, tanto que um clube sem rumo como o Milan aceitou abrir mão de seus préstimos. O alto investimento que será feito pelo Santos não se justifica por nenhum argumento racional. É uma aposta muito mais relacionada ao passado que ao presente, motivada pela paixão.
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Robinho não é um ídolo comum, mas uma espécie de herói. Os torcedores creditam a ele o resgate dos tempos de Pelé, quando a mera menção do nome do Santos já impunha respeito. Reconhecem nele o motivo de terem saído do meio da tabela e retornado às primeiras posições. Muitos começaram a torcer pelo clube exclusivamente por causa daquelas pedaladas. Os mais jovens o reverenciam, com delírios malucos e típicos dos apaixonados.
Não tem problema nenhum amar alguém ou alguma coisa irracionalmente até que essa paixão comece a custar centenas de milhares de reais por mês. O investimento pode até valer a pena porque toda contratação funciona como o blefe em um jogo de pôquer. Pode ser extremamente calculada ou feita no impulso: é boa ou ruim dependendo do resultado. E Robinho pode dar retorno se novamente mudar o Santos de patamar, mas será que o jogador pode mesmo ser a diferença entre a sexta colocação atual e uma das quatro primeiras, que dão vaga na Libertadores? Entre brigar pelo título regional ou pelo continental?
Dificilmente. Robinho tem tudo para jogar bem no futebol brasileiro, por causa do baixo nível praticado por essas bandas, mas seus desempenhos mais recentes não indicam que possa ser tão decisivo. A primeira temporada no Milan foi excelente, com o título italiano, 14 gols e um papel importante de auxílio a Ibrahimovic. Só que foi minguando ano a ano, a ponto de na última temporada ter sido titular em menos da metade da Serie A: 15 jogos, três gols. Teve algumas lesões, mas jogou pouco principalmente por opção técnica. E a concorrência não era aquela coisa: o clube ficou fora das competições europeias pela primeira vez em 16 anos.
Em 2010, foi contratado com a principal missão de ser a referência de um grupo de jovens excepcionais que despontavam na Vila Belmiro. Os contextos, porém, são muito diferentes. Geuvânio não é Paulo Henrique Ganso, Gabriel não decide como fazia Neymar, e o próprio Robinho não é mais o mesmo. Naquela época, era o principal jogador da seleção brasileira de Dunga. Também tinha ao seu lado uma espinha dorsal de jogadores experientes e em grande forma, como Durval, Edu Dracena, Léo e Arouca.
O clima era de expectativa sobre o que aqueles talentos poderiam fazer. Atualmente, debaixo da sombra da derrota no Campeonato Paulista e críticas pela contratação milionária de Leandro Damião, é de incerteza. E mesmo Robinho chegou com outra autoridade em relação há quatro anos, quando era claro que o Santos precisava mais dele que vice-versa. Hoje, essa relação parece muito mais equilibrada e isso influencia na pressão que ele pode sofrer. Sem contar que, aos 30 anos, na parte final da carreira, a motivação é muito diferente. Ele não está mais prestes a disputar a Copa do Mundo.
Parece a repetição de uma fórmula para uma situação parecida, mas com nuances que colocam sua efetividade em xeque. Com salário alto, Robinho não vale a pena, a não ser que entregue resultados que parecem improváveis. Tem em seu contrato cláusulas de produtividade, como colocações no Campeonato Brasileiro e títulos e, se devolver o time à Libertadores e for campeão de alguma coisa, esses reais seriam desembolsados com gosto. Mas a avaliação fria de custos e benefícios parece ter sido deixada de lado. O retorno parece mais um ato de paixão. Só que os dirigentes não deveriam basear suas decisões nisso.
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