Brasil

Honra ao mérito

O título são-paulino de 2006 teve um pouco dos trabalhos de Emerson Leão e principalmente Paulo Autuori – e Rogério Ceni ainda repetiu a grandiosa temporada que fizera no ano anterior. Em 2007, os méritos da defesa intransponível, maior explicação para o bicampeonato, foram diluídos entre Ceni, sistema defensivo e Muricy.

Se agora em 2008 o São Paulo conseguir o primeiro tricampeonato de sua história, será difícil encontrar um vencedor maior que Muricy Ramalho, que igualaria os três títulos consecutivos de Rubens Minelli em 75/76/77 e ganharia ainda mais argumentos para cumprir seu contrato até o fim de 2009. Ou, ainda, deixar o Morumbi olhando todos de cima – hipótese a não ser descartada em razão do assédio do Internacional.

É verdade que cada semana tem reservado uma surpresa diferente no atual Campeonato Brasileiro. Cruzeiro e Grêmio, destacados por esta coluna em suas duas últimas edições, não param de oscilar, o que se repete na vida de Flamengo e Palmeiras nas semanas recentes. Caso a regularidade das rodadas do último mês se mantenha, o título fica no Morumbi pela terceira vez.

Se após uma série de quatro empates (Sport, Santos, Atlético-MG e Coritiba) em uma seqüência de cinco jogos, a impressão era de que o São Paulo havia perdido a ambição, Muricy Ramalho soube mostrar ao elenco que a chance de título estava viva e, dali por diante, somou seis vitórias em sete jogos, empatando apenas diante do Palmeiras, no maior jogo do ano no Brasil. As partidas descritas acima significam a maior trajetória invicta de um time no Brasileiro: 13 jogos. Assim, o São Paulo buscou uma distância para o então líder Grêmio que, na abertura do returno, era de 11 pontos.

O sucesso são-paulino neste returno passa pelo acerto da defesa. O setor só foi transposto em apenas dez oportunidades nos 14 jogos disputados e tem sido liderado por André Dias e Miranda, que têm jogado em altíssimo nível. Enquanto o primeiro é o melhor zagueiro do campeonato, o segundo voltou a ser chamado por Dunga na última segunda-feira.

A recuperação de dois jogadores também chama a atenção: Hugo e Dagoberto, duas das contratações mais referendadas em 2007, só agora têm surtido o efeito imaginado. Muricy, indiscutivelmente, tem parcela nisso e enxergou que, sem grandes recursos, precisava extrair o máximo desses dois atletas.

Dagoberto teve atuações destacadas, por exemplo, contra Flamengo, Palmeiras e Internacional, quando fez um golaço ao melhor estilo do Atlético Paranaense de 2004. Artilheiro tricolor no Campeonato Brasileiro, Hugo não brilha e não encanta, mas detém o espírito tático e brigador que agrada ao técnico, e entrando mais na área, como pede Muricy, tem tido ótima participação e soma 12 gols – melhor índice entre os meias da competição.

Outro reflexo do trabalho do treinador pode ser visto em Hernanes e Jean. Em seu segundo ano como titular, Hernanes se tornou referência dentro de campo, assumiu a liderança e tem jogado o melhor futebol do returno. Reverenciado por Luxemburgo, o meio-campista, de fato, é um multifuncional, e além de ambidestro, brilha como meia ou volante, em uma variação comum a Muricy. Teve atuações de gala contra Botafogo e Internacional, e ainda decidiu contra Vitória e Náutico, mostrando nítida evolução após os Jogos Olímpicos.

Aposta pessoal de Muricy, o jovem Jean é uma das maiores revelações da Série A. Pouco conhecido por sua passagem pela base são-paulina, o volante se fixou como titular e é um marcador discreto e eficiente atuando como primeiro meio-campista. Tem personalidade e sai para o jogo com muita qualidade, e apareceu em momentos importantes como no clássico contra o Palmeiras, sofrendo o pênalti de Léo Lima, ou no golaço contra o Botafogo.

Cabe dizer que não é também por acaso que o São Paulo disparou no returno. Em boa parte das partidas vencidas, Muricy Ramalho teve tempo à disposição para preparar a equipe, estudar os adversários de maneira mais profunda e armar seu time de acordo com as exigências dos confrontos. Seja abrindo dois meias, com Hugo e Hernanes, ou deixando Jean atrás de uma linha de quatro meio-campistas, ou ainda aproximando Jean e Hernanes como volantes e soltando Hugo, Muricy jogou cada duelo como uma decisão, e comprovou suas habilidades.

É comum enxergar méritos para treinadores em grandes conquistas ou campanhas. Muricy, por exemplo, teve importantes participações nos outros dois títulos são-paulinos. Mas em nenhum torneio recente, como o Campeonato Brasileiro de 2008, ele foi tão bem e colocou uma equipe de investimentos tão modestos na liderança a cinco rodadas do fim. Resta, agora, manter a ponta e isso será proporcionalmente difícil ao caminho percorrido até aqui.

Caso ocorra, o título de 2008 tem um responsável claro: Muricy Ramalho.

Análise da reta final

Mais do que nunca, é hora de fazer projeções analisando o que falta aos candidatos ao título nessas últimas cinco rodadas, e também para ver quem fica sem Libertadores em 2009. No último domingo, os resultados obtidos pelos primeiros colocados provocaram um lastro grande de cinco pontos entre São Paulo e Flamengo.

São Paulo – 62 pontos
Resta: Portuguesa (F), Figueirense (C), Vasco (F), Fluminense (C) e Goiás (F)

Somando a rápida visita ao Canindé, são três jogos em que o São Paulo, novo líder, atua na capital paulista. Além da Lusa, o bicampeão recebe Figueirense e Fluminense, candidatos para o rebaixamento. A ida ao Rio de Janeiro, contra o Vasco, inspira alguns cuidados, mas de São Januário, em 2007, os tricolores trouxeram boas lembranças. Por fim, o jogo definitivo no Serra Dourada, contra um Goiás certamente sem ambições, desenha um caminho sem maiores complicações para o atual ponteiro. Uma vantagem importante é o fato de ter, daqui até o fim, um jogo por semana, oferecendo mais tempo para a recuperação física entre as decisões e para Muricy treinar.

Palmeiras – 61 pontos
Resta:
Grêmio (C), Flamengo (F), Ipatinga (C), Vitória (F) e Botafogo (C)

Em casa, ninguém tem melhor aproveitamento de pontos que o Palmeiras. Por isso, ter três jogos no Parque Antártica significa uma boa chance de somar nove pontos. Luxemburgo, porém, precisa roubar pontos como visitante, e pode exterminar as chances do Flamengo, na 35ª rodada, no Maracanã. É jogo-chave para as aspirações palmeirenses que, a partir de agora, também dependem do desempenho do São Paulo.

Grêmio – 60 pontos
Resta: Palmeiras (F), Coritiba (C), Vitória (F), Ipatinga (F) e Atlético-MG (C)

Após 19 rodadas na primeira colocação, tendo sido apenas atrapalhado pela chegada do Palmeiras à mesma posição em duas jornadas, o Grêmio pagou caro pelo empate em casa contra o Figueirense e desceu dois degraus. Na visita ao Parque Antártica, domingo, só três pontos podem manter os gremistas com chances bastante reais de título. Mesmo assim, o tricolor precisará vencer fora de casa, como no turno: ainda sai para enfrentar Vitória e Ipatinga, em seqüência. Nesta reta final, em tese, não terá problemas contra Atlético-MG e Coritiba, jogando em casa com o apoio da segunda torcida mais presente da Série A.

Cruzeiro – 58 pontos
Resta: Fluminense (C), Náutico (F), Flamengo (C), Internacional (F) e Portuguesa (C)

Ninguém, entre os líderes do Brasileiro, perde tanto fora de casa quanto o Cruzeiro, que tem nove derrotas em 16 jogos longe de Belo Horizonte – classificando o clássico como campo neutro. Por isso, e por perder de Atlético-PR, Goiás e São Paulo nas últimas três saídas, a Raposa tem distância tão grande para o título. Somar pelo menos quatro pontos nos jogos contra Náutico e Internacional, e manter o ótimo desempenho em casa, é a esperança que resta para os celestes.

Flamengo – 57 pontos
Resta: Botafogo (F), Palmeiras (C), Cruzeiro (F), Goiás (C) e Atlético-PR (F)

Se o Maracanã foi o herói da reação flamenguista em 2007, não se pode dizer o mesmo neste ano. Considerado o maior trunfo para retomar a liderança na reta final, a presença do torcedor rubro-negro – o mais assíduo do país em 2008 – tem intimidado a equipe de Caio Júnior, que volta a sofrer do mesmo mal do ano passado com o Palmeiras. A diferença de cinco pontos propõe um desafio enorme para o Fla, que pode passar cruzeirenses e palmeirenses graças aos confrontos direitos, e ainda tem dois jogos no Rio de Janeiro para tentar fazer mais seis pontos e chegar à rodada final sonhando com título. Parece uma missão improvável.

O buraco negro e fundo do futebol brasileiro – parte 3

Após falar dos grandes clubes de Rio de Janeiro e São Paulo, a coluna fecha a série de resumos sobre as reportagens de Fernando Gavini na Espn Brasil, enfim, com Grêmio, Internacional, Cruzeiro e Atlético Mineiro.

A organização interna e uma trabalhosa negociação de dívidas têm feito o Grêmio se enrijecer novamente. A parceria firmada com a ISL levou o clube para a beira do abismo, formando uma dívida de R$ 130 milhões. O crescimento econômico gremista pode ser visto pela receita que, de 2006 para 2007, cresceu de R$ 40 para R$ 105 milhões, graças à campanha na Libertadores e às negociações de Lucas e Carlos Eduardo. As dívidas têm se diluído, mas o êxito na Batalha dos Aflitos é considerado fundamental para isso: dois anos na Série B acabariam com o Grêmio.

Atualmente, o Internacional é tido como uma das melhores gestões do país, economicamente falando. Com departamentos que trabalham com profissionais e metas a serem cumpridas, o Colorado investiu em categorias de base, não para de formar jogadores e, graças especialmente a alguns ótimos negócios, fechou 2007 com lucro de R$ 19 milhões de reais. Não parou de vender em 2008, e por isso não levou nenhum título expressivo, mas acumulou R$ 35 milhões com Fernandão, Renan, Wellington e Sidnei neste ano. Boa parte de suas dívidas, porém, são com a União: assim, torce fervorosamente pelo sucesso da Timemania.

Outro clube que vende muito para manter sua saúde financeira estável é o Cruzeiro. Negociando atletas e administrando seus gastos, a Raposa fechou 2005 e 2006 com lucro divulgado no balanço – e só não repetiu o feito em 2007 em razão de fracassos nas vendas de Wagner e Marcinho. Por isso, voltou a vender muito em 2008: foram cerca de R$ 30 milhões embolsados com atletas como Charles, Marcelo Moreno e outros.

É difícil encontrar entre os grandes brasileiros um clube tão castigado por más administrações quanto o Atlético Mineiro. Isso faz com que o Galo tenha um passivo trabalhista bem acima da média, não se endireite dentro de campo e, ainda, dependa excessivamente da Timemania. Caso a loteria não emplaque, o Atlético precisará de aproximadamente R$ 3,6 milhões por ano para quitar sua dívida com a União, ampliando um rombo orçamentário estimado em R$ 25 milhões por ano. Para piorar, o clube não vende: em 2008, só fez dinheiro, de verdade, com Danilinho, cedido ao futebol mexicano por pouco mais que R$ 3 milhões.

Avaí vai subir

Não é só o Corinthians que se impõe sobre os demais adversários da Série B. Longe da elite brasileira desde 1979, o Avaí tem boas chances de retornar para a edição de 2009, 30 anos depois. Há uma rara possibilidade matemática de o acesso ser confirmado no sábado, em Maceió, contra o lanterna CRB, mas os catarinenses dependem de derrotas de Barueri, Santo André, Bragantino e Juventude. O mais provável é que os avaianos confirmem a promoção na rodada seguinte, a 35, quando recebem o Brasiliense na Ressacada.
Atualmente, o Avaí tem 62 pontos, oito a mais que o Barueri, quinto colocado, e colhe os frutos pelo bom trabalho realizado ao longo do ano. Mesmo tendo ficado de fora da final estadual, o clube julgou que estava pronto para a Série B, pois tinha acumulado 46 pontos na soma dos dois turnos – contra 48 do Criciúma e 46 do campeão Figueirense. De fato, a avaliação estava correta.

Já no início da Série B, o Avaí enfileirou uma boa seqüência invicta de oito partidas e cimentou seu lugar dentro do grupo de acesso, de onde só saiu em uma rodada desde então. Mesmo com a importante perda de Vandinho – autor de 21 gols no estadual – para o Flamengo, o técnico Silas reorganizou a equipe no meio da competição, com Evando, ídolo avaiano recontratado, e não deixou a peteca cair.

Antes parelho com Santo André e Vila Nova, o Avaí disparou com sprint final nas últimas rodadas. Engatou duas goleadas, uma no clássico local contra o Criciúma e outra fora de casa contra o Gama, e venceu de maneira convincente, na Ressacada, os paulistas Marília e Ponte Preta. Assim, abriu vantagem na segunda posição.

Essa boa campanha do Avaí, que não dá alegrias para sua torcida desde o título da Série C de 1998, pode também ser explicada pelas parcerias firmadas com Traffic e, principalmente, LA Sports. Esta última, responsável pelo 7º lugar do Paraná em 2005 e pelo 5º em 2006, migrou suas atividades para a Ressacada e oferece bons jogadores ao elenco de Silas. Ambas, juntas, fornecem jogadores ao clube catarinense.

Com um elenco forte para os padrões da Série B, em especial esta mais frágil de 2008, o Avaí tem sobrado. Nomes experientes como Eduardo Martini, Batista, Marquinhos e Válber formam uma espinha dorsal interessante e bem liderada por Silas. E que, 30 anos depois, dará aos avaianos a chance de disputar uma temporada na elite nacional.

Série C: Duque de Caxias sonha

Desde que o futebol brasileiro deixou seus fantasmas para trás e instituiu pontos corridos, o único clube do Rio de Janeiro que conseguiu disputar a Série B foi o Botafogo, em 2003, mas rebaixado através da Série A. Esperando uma força do STJD, o Duque de Caxias faz seu papel em campo e, curiosamente, não perdeu desde que recebeu a punição que, em primeira instância, inviabilizou seu acesso.

No dia 24 de outubro, o tribunal suspendeu a equipe, técnico e jogadores em razão de um cai-cai contra o Rio Branco. Desde então, o Duque somou sete pontos em nove possíveis e, mesmo perdendo um outro ponto também em razão do episódio no Acre, se posiciona no grupo de acesso no octogonal final da Série C. Transcorridas nove rodadas das 14 que definem os classificados, o Duque de Caxias está ao lado do Guarani, na terceira posição, com 13 pontos.

Na próxima quinta-feira, o STJD volta a se reunir para definir uma punição final para o clube fluminense. Com três de seus últimos cinco jogos a serem realizados em casa, o Duque de Caxias sonha em recolocar o Rio de Janeiro na Série B. Precisa, antes, correr para o tribunal.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo