Brasil

“Heleno e Kaká”

Lapa, Rio de Janeiro, 26 de julho de 1943. A festança seguia regada a lança-perfume e, como não podia deixar de ser, Heleno de Freitas liderava o bacanal. Antes de entrar no quarto acompanhado de duas morenas estonteantes, um amigo o aborda e oferece um drink fumegante:

  • Bem sei que tu não és de falhar na hora H, mas com este drink tua festa só acabará na terça-feira.

Sem pestanejar, o craque aceitou a sugestão. Dentro do quarto, a festa ia de vento em popa, quando Heleno sentiu uma tontura repentina. Com o teto insistindo em girar, deitou-se no sofá da suíte e começou a dizer coisas sem nexo. Aos poucos a voz da mulherada começou a soar distante… distante… distante…

  • Opa, que lugar é este? Que calor dos infernos é este?
  • Se já sabe, por que pergunta?
  • Carnaval em julho? Que fantasia ridícula é essa, chifrudo? Qual é a do garfo?
  • Heleno, pelo amor de Lúcifer, respeite o Satanás. Acalme-se e escute o que tenho a lhe dizer. É pelo bem do futebol.
  • Hum…. Sujeitinho arrogante. Mas, se tem a ver com futebol, tenho interesse em ouvir.
  • Rapaz, algo terrível acontecerá com a nossa paixão e só você pode nos salvar. Dentro de meio século os jogadores de futebol estarão radicalmente transformados.
  • Em que sentido? Imagino que pra melhor, pra frente é que se anda.
  • Para pior, muito pior. Haverá uma maldição batizada de “politicamente correta”, praga de uma era conhecida como profissionalismo, e figuras como você entrarão em extinção.
  • Politicamente o quê?
  • Silêncio. O profissionalismo irá pasteurizar o futebol. Esqueça as brigas, olvide os porres homéricos, imagine o fim das algazarras.
  • Só de pensar me dá um calafrio.
  • Eu sei. Tenho refletido muito a respeito e acho que podemos alterar o curso da história.
  • Simpatia, com todo o respeito. No ritmo que eu ando, não agüento mais cinco anos. Que dizer cinqüenta…
  • Quieto, petulante. Leia as instruções que eu preparei e entre naquele caldeirão sem me questionar. Já perdi muito tempo com você, estou com a agenda cheia hoje.

Madri, 24 de agosto de 2009. Kaká estaciona seu carro na Cidade Desportiva, quinze minutos adiantado para o treino do Real.
– Ei, bela máquina. No meu tempo o salário não dava nem pro pneu.
Kaká encara o desconhecido e pergunta:
– Desculpe, eu lhe conheço?
– Ainda não, mas estou aqui pra te salvar. Tá vendo a loira e a morena no carro ali? Vamos bater uma bola com elas?
– Agradeço a gentileza, amigo, mas a bola que eu vou bater é lá dentro, o professor Pellegrini já deve estar chegando. Ademais, eu sou um homem casado.
– Que papo é este de casado? Vai dizer que casou virgem também? Para com essa bobagem de treino e vamos armar uma com aquelas gostosas. É só dizer que passou mal depois, você tem reputação.
– Não, obrigado. Nunca perdi um treinamento e não será hoje. Com licença, estou quase atrasado.
– Huuuum, o mariquinha vai perder o treininho.

Frustrado, Heleno bufou, entrou no carro com as gatas e dirigiu até o primeiro motel que encontrou no caminho.

Quinze dias se passaram e Kaká compareceu a um evento de moda em Madri convidado por um patrocinador. No banheiro, foi abordado pelo funcionário que fornece papel higiênico e vende balas:

  • Aceita lança-perfume?
  • Você, de novo? Senhor, minha esposa está me aguardando na mesa, peço que não me incomode mais.
  • Para de bobagem, até você chegar na mesa o barato já passou. Parece que nunca cheirou lança.
  • Não quero soar deselegante, mas se você insistir de novo terei que acionar a segurança.
  • Se chamar eu derrubo na porrada, rebateu Heleno, enquanto o craque merengue lhe deixava falando sozinho.

Nas semanas seguintes, Heleno de Freitas intensificou sua abordagem. Carnaval fora de época no Rio, rave com o Robinho em Manchester, cassino em Mônaco com o Jenson Button, despedida de solteiro com o Fenômeno, roda de samba com o Gaúcho. Nada surtia efeito com Kaká. O que ele falaria para o demônio quando voltasse fracassado e de mãos vazias? Foi então que pensou numa última tentativa.

Na semana seguinte o Real embarcaria para Marselha em rodada da fase de grupos da Champions. Kaká como sempre foi o primeiro a embarcar. Assim que entrou no avião do Real estranhou as saudações do piloto:

  • Boa tarde, senhores passageiros. Informo que antecipamos a decolagem e que alteramos nosso destino para a Ilha de Ibiza. Apertem os cintos.
  • Ei, mas só estou eu no avião, cadê o resto do time, perguntou Kaká.
  • Não tem resto do time, respondeu de bate-e-pronto o comissário de bordo, a esta altura um velho conhecido do camisa oito merengue. Vodka ou gim?

A aeronave estava tripulada pelas mulheres mais lindas da Europa, que bajularam o craque brasileiro desde a decolagem até o pouso em Ibiza.

Na chegada, uma festa privada aguardava o brasileiro na mansão alugada por Heleno de Freitas. Cercado de beldades, com um banquete repleto de iguarias, bebidas a perder de vista e trilha sonora perfeita, Kaká não resistiu àquela infinidade de tentações e pecou. Pecou sem dó.

No dia seguinte, ele acordou despertado pela ressaca, etílica e moral. Correu pra internet e viu no site do Ás: “Kaká perde vôo e preocupa comissão do Real. Caroline desconhece seu paradeiro”.

Completamente desorientado, o craque refletiu por quinze minutos e decidiu ligar para seu mentor à procura de uma palavra de sabedoria.

  • Leo, é o Kaká. Preciso da sua ajuda, toma um vôo pra cá assim que você puder.

Sem entender nada, Leonardo aterrissou em Ibiza e rumou pra tal mansão. Boquiaberto, ouviu a história de Kaká e prometeu tirá-lo dessa fria. Desenharam um plano, escolheram os jornalistas que procurariam e bolaram todas as justificativas. Neste meio tempo, o Ás já tinha trocado sua manchete: “Nem Robinho desapareceu por tanto tempo. Ainda bem que não compramos Kaká, afirma Sulaiman Al-Fahim”.

Leonardo e Kaká deixavam a casa quando Heleno voltou.

  • Os senhores estão de partida? Já vão, tão cedo?
  • Sim, o Kaká tem compromissos contratuais e é meu dever como mentor levá-lo de volta a Madri.
  • Kaká, meu chapa, vou ser bem sincero contigo. Tu és jovem, rico, talentoso e famoso. Se não curtir a vida agora, não vai ser com sessenta anos que vai aproveitar.
  • Kaká, não dê ouvidos a ele. É por causa desta mentalidade que nós brasileiros somos tão mal vistos na Europa. Mostre a eles que você é diferente.
  • Diferente? Romário, Ronaldo e Ronaldinho sabiam conciliar os golaços no campo com os outros marcados fora dele. Por que você não conseguiria?
  • Prazeres? Como você explicaria estes prazeres para a UNICEF e para as crianças da África que dependem de você? Pense nos contratos, nos patrocinadores. Pense na família.
  • OK, já entendi a lavagem cerebral do nosso amiguinho do Milan. Pode levá-lo. A única coisa que me parte o coração é que vocês perderão o campeonato aqui em casa hoje à tarde, terei que escalar o motorista e o mordomo.

Neste momento chega uma van abarrotada de modelos, que entram em polvorosa quando vêem que Leonardo também está na casa. O tumulto toma conta do lugar, a festa começa e é difícil descrever o que ocorre nas vinte horas que se seguem.

No dia seguinte, finalmente Leonardo e Kaká embarcam no jatinho. Abraçado ao craque e ao técnico, Heleno ordena ao piloto:

  • Escala rápida no Rio pra pegar o Adriano. O Berlusconi espera a gente hoje à noite na Sardenha e não podemos furar com o homem.
Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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