Brasil

Há muito a se fazer, mas o entusiasmo de Pia é um motivo a mais para acreditar nas mudanças

Uma nova era na seleção feminina começou oficialmente nesta semana. Anunciada como nova técnica do Brasil, Pia Sundhage participou de sua primeira coletiva de imprensa nesta terça-feira e também conheceu as instalações da CBF. O ânimo é evidente, diante do currículo e da história da sueca de 59 anos na modalidade. O futebol feminino brasileiro ganha uma mentora de peso para redefinir os seus rumos durante os próximos anos. E, ainda que Pia não deva ser vista como salvadora da pátria, em processo que precisa ser muito mais profundo, o próprio entusiasmo da veterana inspira a renovação nestes primeiros passos.

“Estou respirando futebol, é um grande passo para mim. Estou muito orgulhosa e feliz com o fato de olhar ao lado e ver gente muito solícita. Vou trabalhar muito, vou dar o meu melhor e para fazer isso, você precisa de um grande time. E o Brasil é um grande time. Na Copa, a diferença entre ter sucesso ou não é muito pequena. Estou muito animada”, apontou a nova técnica, durante uma apresentação armada com pompas.

Obviamente, é prudente manter um pé atrás com a CBF, no que também serve de escudo para si. Os principais funcionários da entidade estavam presentes na coletiva de Pia Sundhage, inclusive Tite, que deu um caloroso abraço na nova colega. Já o presidente Rogério Caboclo precisa demonstrar com atos que a aposta na renomada treinadora não é apenas um paliativo. Suas palavras no discurso de apresentação da sueca são contundentes. Mas, até aí, o cartola já coleciona suas promessas furadas ao futebol masculino em poucos meses de mandato. O otimismo só terá validade com atitudes concretas além da mera nomeação.

“A Pia vai fazer um trabalho de revolução no futebol feminino no Brasil. Ela vai ser responsável por renovar a Seleção, trazer opiniões e falar sobre as competições no Brasil”, declarou Caboclo. “A partir de hoje estaremos definindo o que será o futebol feminino nas próximas décadas. Se alguma vez houve a percepção de que o futebol feminino não era tão prestigiado, hoje não vai mais ter. Eu brinquei com a Pia que eu não sou o gênio da lâmpada, ela tem pedidos a fazer, mas não são limitados a três. Então a gente pode realizar dentro do bom senso e da consciência que ela tem tudo aquilo que de melhor a CBF pode propor”. Mas, por enquanto, o presidente não colocou o dedo em outras feridas e permanece com Marco Aurélio Cunha ocupando o papel de coordenador, assim como outras lacunas na estrutura interna.

De início, Pia Sundhage não deve saber muito bem quem são os seus patrões e como a troca de favores prevaleceu por tantas vezes no futebol feminino. Sua chegada é importante não apenas por aquilo que deve realizar à frente da equipe principal, mas também por ser uma voz representativa para orientar mudanças e mesmo apontar ao que ainda deve ser feito. Neste primeiro momento, mesmo sem conhecer totalmente a realidade da modalidade no país, a sueca reafirmou noções importantes que serão o esteio de seu trabalho. É o básico, mas um básico que nem sempre foi feito pela CBF.

“Eu tenho que lembrá-los que, se você quer melhorar alguma coisa, você tem que fazer a abordagem passo a passo. Estou aqui há dois dias e é importante que você priorize certas coisas. Meu primeiro passo é entender como as coisas funcionam. Eu trabalhei com jogadoras de 16 e 17 por um ano e meio, eu sei o que é necessário para o desenvolvimento”, destacou a nova técnica. “Se você quiser que a Seleção jogue um futebol de excelência, você precisa do sub-20 e sub-17 jogando muito bem também. Eu prometo a vocês que vai haver uma resposta, que será passo a passo. Temos que priorizar algumas coisas e garantir que no Brasil tenhamos as mais jovens jogando muito bem cedo ou tarde”.

“O maior desafio é: a seleção brasileira precisa mudar, mas eu não acho que tem que ser muito radical, porque se não perderemos a confiança. O Brasil jogou bem na Copa do Mundo. Também não pode ser uma mudança pequena. Chego aqui com uma experiência diferente para balancear essa transformação. É claro que já estudei muito os jogos e preciso ser muito respeitosa a respeito das forças da equipe e modificar os pontos fracos”, complementou.

Apenas a noção de realizar um processo integrado já é um ganho tremendo à seleção feminina. Tal ideia muitas vezes foi ignorada pela CBF e, pior, o time sub-20 chegou a sofrer nos últimos meses com a falta de um treinador. A renovação do elenco principal necessita disso, em mudança que está evidentemente defasada. Diante das lacunas e das dependências que a equipe exibiu na Copa do Mundo, a iniciativa proposta por Pia Sundhage poderá gerar frutos em médio e longo prazo. Isso, todavia, não pode perder a noção de que a CBF é responsável apenas por uma elite. É necessário também o incentivo a um trabalho mais ramificado nas categorias de base dos clubes e mesmo na criação de projetos exclusivos à formação de jogadoras.

Algumas das principais jogadoras da Seleção deram boas-vindas a Pia Sundhage através de um vídeo exibido pela CBF. A língua, de início, pode ser uma barreira. Apesar de algumas atletas dominarem o inglês e o sueco, a veterana prometeu se empenhar para aprender o português e transmitir sua mensagem de maneira mais clara. Enquanto isso, planeja o crescimento da equipe com muitos amistosos para se testar o nível e fazer ajustes, bem como uma preparação voltada mais à parte técnica e à leitura de jogo. Mais uma vez, é o mínimo, diante do que não se via acontecer na desorganizada equipe de Vadão.

De qualquer maneira, há uma diferença entre discurso e prática. Por isso é tão importante o que Pia respondeu às Dibradoras durante a coletiva: “Tem tanta energia agora, então por que não pegar essa energia e lembrar o que prometemos aqui, os desafios? Eu vou fazer o meu melhor. Se nós dissermos: isso é o que nós vamos fazer, vamos garantir que seja feito. Porque uma coisa que é muito perigosa é você dizer algo e não ter atitudes sobre isso. Então agora, quando você diz algo e há atitudes sobre isso, é algo que pode ser muito bom, não só para o futebol feminino no Brasil, mas para o futebol feminino no mundo todo. As coisas não vão acontecer facilmente, você precisa trabalhar duro pra isso”.

Fato é que, com todas as reticências ao redor da CBF, é praticamente impossível não receber as palavras de Pia Sundhage com o peito aberto. A empolgação da sueca é a força motriz nesse novo momento e a expectativa é de que reverbere além do trabalho focado na seleção principal. Que Marta, Cristiane e as outras craques sejam, afinal, o exemplo a um futebol que consiga absorver em suas estruturas outras meninas dispostas a se tornarem jogadoras, assim como a capacitação de profissionais abra os horizontes a uma modalidade que tem grandes margens de crescimento. A emoção de Pia ao conhecer a Granja Comary, mesmo que seja um instante de mero simbolismo, é um motivo a mais para fazer acreditar.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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