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Há dez anos, a cavadinha de Loco Abreu e o pênalti defendido por Jefferson transformavam a sina botafoguense em êxtase

O relógio no Maracanã apontava aos 27 minutos do segundo tempo. A bola, na marca da cal, deixava Loco Abreu a 11 metros da vitória parcial. Sobre suas costas, porém, não estava apenas a responsabilidade de cobrar um pênalti decisivo contra o maior rival na final do campeonato. Também estava toda a expectativa de uma torcida, maltratada nos anos anteriores, com três vices consecutivos. Estava a desilusão do botafoguense. O peso que poderia fazer qualquer jogador se curvar, tamanha a pressão, sublimou com Abreu. Aquelas toneladas de tensão foram dissipadas pela leveza de uma cavadinha, dos pés do uruguaio à bola – e da pelota flutuante, com um beijinho no travessão, para dentro do gol. O Botafogo ganhou o selo de campeão naquele lance, embora a vitória só tenha se confirmado também com o heroísmo de Jefferson. Há dez anos, a sina botafoguense se transformava em êxtase.

Os estaduais entraram em descrédito nas últimas décadas e a influência de muitos títulos se torna menor. Entretanto, há conquistas que resistem ao tempo por seu contexto, por suas histórias, por aquilo que representam aos torcedores. E, ao longo dos últimos anos, poucos troféus foram tão saboreados quanto o Carioca de 2010 ao Botafogo. Não é apenas o fim do calvário alvinegro, depois de três anos de gozação diante dos rubro-negros. São todas as cenas daquele filme, que geraram o final mais feliz aos botafoguenses – com uma clímax que entrou para a história do clube, na parábola irreverente do pênalti de Loco Abreu. A frase “há coisas que só acontecem com o Botafogo” perderia sua negatividade ali, para apresentar sua interpretação mais doce.

Aquele Campeonato Carioca seria de altos e baixos ao Botafogo. Durante a terceira rodada da Taça Guanabara, na estreia de Loco Abreu, o Vasco enfiou 6 a 0 sobre os rivais. O time, ao menos, se recuperou a tempo para dar a volta por cima ainda no primeiro turno. Não só eliminou o Flamengo nas semifinais, como deu o troco sobre o próprio Vasco na decisão da Taça Guanabara. Meio caminho para o título estava andado ali. Já na Taça Rio, os alvinegros também tiveram alguns tropeços, mas avançaram às semifinais, nas quais eliminaram o Fluminense. Até a nova decisão contra o Flamengo.

O Botafogo ainda tinha uma ficha no bolso, além da decisão da Taça Rio. Caso perdesse, haveria uma revanche na finalíssima do Campeonato Carioca. Mesmo assim, certamente todos os alvinegros queriam acabar com o seu pesadelo o quanto antes. O título antecipado, com triunfo nos dois turnos, seria inédito aos alvinegros. Além do mais, aquele Flamengo intimidava, e não só pelo tricampeonato consecutivo em cima dos botafoguenses, ou dos 19 anos de invencibilidade em finais contra os rivais. Campeão do Brasileirão quatro meses antes, os rubro-negros tinham Adriano, Petkovic, Vágner Love e uma escalação reforçada para a disputa da Libertadores naquele semestre.

No papel, o Botafogo possuía uma equipe inferior. De qualquer maneira, era um time que merecia respeito, entre jogadores reconhecidos por sua entrega e o brilho dos protagonistas. A escalação começava com Jefferson, que havia voltado recentemente ao clube, pronto a se afirmar verdadeiramente como ídolo. No miolo da zaga, nomes como Antônio Carlos e Fábio Ferreira. O meio contava com a combatividade de Leandro Guerreiro e Túlio Souza, bem como o desafogo de Alessandro e Marcelo Cordeiro nas alas – Somália seria improvisado na final. Renato Cajá e Lúcio Flávio eram os armadores à disposição, enquanto Edno e o novato Caio encorpavam as opções. Mais à frente, a célebre dupla entre Herrera e Abreu. El Loco chegara meses antes, disposto a mudar o sofrimento botafoguense. O tri vice, em vez de afastá-lo, foi justamente um dos fatores decisivos para fazê-lo querer assinar com o clube naquele período.

Já no banco de reservas, outro personagem folclórico: Joel Natalino Santana. O treinador experiente e multicampeão no Rio de Janeiro assumiu durante a Taça Guanabara, com a demissão de Estevam Soares após a goleada para o Vasco. Papai vinha de seu trabalho na África do Sul e reassumia um clube brasileiro após a própria despedida do Flamengo em 2008. Aquela campanha também representava uma grande chance ao veterano, após deixar os Bafana Bafana sem tanto prestígio. Moldou uma equipe aguerrida que apostava nas bolas longas e nos cruzamentos, mas com uma injeção de confiança tão costumeira nos trabalhos do técnico.

Na decisão da Taça Rio, os primeiros gols saíram durante a etapa inicial. Aos 23 minutos, pênalti para o Botafogo. Na época, Abreu e Herrera se revezavam nas cobranças. O argentino converteu. O Flamengo não deu muito tempo ao alívio dos alvinegros, empatando aos 45, em bola alçada dentro da área que permitiu a Vágner Love escorar. Não era um jogo de boa qualidade técnica e o nervosismo aumentava pela postura do árbitro, pronto a apitar qualquer lance – foram 17 cartões distribuídos ao longo do clássico. Assim, os alvinegros teriam outra penalidade a seu favor, em falta que rendeu também a expulsão do volante Maldonado. E, assim, se fez a história com Loco Abreu na marca da cal.

Aquele chute tem a sua própria poesia: a disparada de Loco Abreu, antes de diminuir a velocidade e bater com carinho por baixo da bola. As cavadinhas do centroavante não eram novidade, mas muita gente duvidava que ele pudesse fazer em uma ocasião de tamanha importância. Fez, não apenas para mudar os rumos do Botafogo naqueles anos, como também para treinar a uma partida ainda mais notável – as quartas de final da Copa, quando colocou o Uruguai de volta entre os quatro melhores do mundo após 40 anos.

“Na verdade, eu pensei em fazer a cavadinha porque todo mundo falava que o Bruno era o super pegador de pênaltis. Então eu pensei: ‘Ele não vai ficar parado, ele vai pular. Não tem outra, porque ele está com muito moral’. E graças a Deus deu certo. Eu bati de cavadinha, ainda pegou na trave. Dei um pulinho ainda pra ver, pipoquei um pouquinho, mas a bola entrou e foi uma loucura, foi uma felicidade impressionante”, comentou Loco Abreu recentemente,  em ótima edição especial do podcast GE Botafogo.

Todavia, a vitória só estaria completa quando o Botafogo também expurgasse seus traumas na outra marca da cal. Aos 34 minutos, o Flamengo ganhou seu pênalti. Para piorar, Herrera se descontrolou e foi expulso. Os traumas voltavam às mentes alvinegras. Adriano se preparou à cobrança e descarregaria sua força na bola, bem diferente do que fizera Loco Abreu. Jefferson se agigantou. O goleiro pulou no canto certo e espalmou a batida rasteira do Imperador. Aquele parecia mesmo o dia perfeito ao botafoguense desafogar seu peito. A vitória por 2 a 1 se confirmaria no fim, depois de mais uma boa defesa de Jefferson e uma bola salva quase em cima da linha por Somália. O choro, desta vez, misturava alegria e orgulho.

Por sua atuação, Jefferson recebeu a maior nota do jornal O Globo: 9,5. O periódico destacava o papel decisivo no pênalti e também na defesa final contra Vágner Love. Loco Abreu, como Fábio Ferreira, levou um 9. “Sua liderança foi fundamental para o título alvinegro, no jogo de hoje e em todo o campeonato”, destacava o periódico. Joel Santana, por sua vez, ia à forra com o sétimo título no Campeonato Carioca – ou oitavo, em suas contas, considerando também uma campanha em que saiu na metade para trabalhar no exterior.

Na saída de campo, Jefferson mantinha a humildade, apesar de seu papel fundamental para confirmar o resultado.”Falei antes que não podia me precipitar e foi o que aconteceu. Sabia que o Adriano bate nos dois lados. Não fui herói de nada. Não é com um ou dois que se ganha, mas com o grupo. Mostramos que somos grandes”, declarou, ao O Globo na época. Mal sabiam os botafoguenses que aquele lance serviria para erigir um dos maiores goleiros de sua história, camisa 1 pronto a disputar uma Copa do Mundo pela seleção brasileira.

Já Loco Abreu apontava outros significados àquele momento: “Esse time é uma mistura muito boa, que tem rebeldia e mentalidade ganhadora. No meu país, temos o Centenário, mas poder fazer um gol do título no Maracanã não tem nada igual, ainda mais pelo que o estádio significa a nós uruguaios. […] Contra o Flamengo, pensei muito na Copa de 1950 e a pressão era grande. Tinha que fazer o gol”. O centroavante afirmava ainda que a cavadinha “não é desrespeito, mas uma forma de bater o pênalti”. Uma forma, também, de garantir ao botafoguense o jeito mais lúdico de ir à desforra.

Anedoticamente, Abreu aproveitou a folga logo após o título igual a outros turistas do Prata que vão ao Rio: em Búzios, com cuia e garrafa térmica de mate nas mãos. E, naquele momento, não havia percebido o tamanho do que realizara: “Acho que ainda não consegui nada para ficar na história importante do clube, como Manga, Garrincha, que fizeram sucesso. Temos que desfrutar do momento, mas é preciso ganhar muito mais para ficar na lembrança do torcedor. Espero que o carinho continue”. O carinho continuou, mesmo aquele sendo o único título da passagem do uruguaio por General Severiano. E o que garante sua idolatria nem é só o brilho da taça, mas a maneira como entendeu o Botafogo e abraçou a identidade alvinegra. A cavadinha era tudo o que os botafoguenses precisavam para extravasar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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