Há 90 anos, um Brasil humilde destronava o multicampeão Uruguai em Montevidéu e vencia a Copa Rio Branco de 1932
Sob o brilho de Leônidas da Silva, a seleção brasileira conquistou uma de suas vitórias mais emblemáticas contra o Uruguai campeão do mundo no Centenário
Feito de grandiosidade destacada para o futebol do Brasil em suas primeiras décadas, a conquista da Copa Rio Branco de 1932 – batendo o Uruguai campeão mundial e bicampeão olímpico dentro do estádio Centenário – completou 90 anos no início deste mês. A seleção formada por atletas de pouca ou nenhuma experiência internacional (embora figurassem entre eles nomes como Domingos da Guia e Leônidas da Silva), muitos deles jogadores de clubes pequenos e suburbanos do Rio de Janeiro, superou os desfalques e o descrédito quase geral ao sair do país e surpreendeu a poderosa Celeste em Montevidéu, concretizando um triunfo épico.
O CONTEXTO DE DISPUTAS REGIONAIS
Embora criada em 1916, no mesmo contexto que levou à instituição de vários troféus a serem disputados entre seleções sul-americanas, a Copa Rio Branco só teria sua edição inaugural jogada 15 anos depois, em setembro de 1931, quando o Brasil bateu o Uruguai por 2 a 0 em Laranjeiras. Apesar de a Celeste ser na época não só a primeira campeã da Copa do Mundo, realizada no país no ano anterior, como também a bicampeã olímpica, ao levar o ouro em Paris-1924 e Amsterdã-1928, o feito brasileiro não chamou tanta atenção.
As poucas décadas de história do futebol por aqui já haviam evidenciado que, para os brasileiros, ganhar em casa não era problema, fosse de quem fosse – e os títulos dos Sul-Americanos de 1919 e 1922, ambos disputados no Rio de Janeiro, serviam de prova. Difícil e raro era triunfar além de suas fronteiras: contra os uruguaios, o Brasil havia jogado sete vezes no exterior (em Montevidéu ou em outros países do continente) e vencido apenas uma, num amistoso na capital uruguaia em julho de 1916, quando o adversário escalou reservas.
E seria em Montevidéu a disputa da segunda edição da Copa Rio Branco, prevista para 1932, já que o regulamento estabelecia o revezamento de sedes. Seria um ano tumultuado no esporte e no Brasil. Ao longo das primeiras décadas do século, as disputas entre Rio de Janeiro e São Paulo pelo controle do futebol brasileiro já haviam levado a vários pequenos conflitos, que desaguariam na grande cisma envolvendo a formação do elenco e da comissão técnica da seleção brasileira que viajaria ao Uruguai para a primeira Copa do Mundo.
Insatisfeita ao ter negada sua exigência de contar com um integrante de seus quadros no trio responsável por dirigir o time (liderado por Píndaro de Carvalho, paulistano de nascimento, mas de carreira feita no futebol carioca como jogador e dirigente), a Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea) decidiu retaliar e não liberou nenhum de seus 15 convocados pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), sediada no Rio, capital do país. Assim, a queda da seleção “carioca” no Mundial chegou a ser comemorada pelo público paulistano.
A disputa foi aparentemente remediada logo após o Mundial e os jogadores paulistas voltaram a integrar a seleção, inclusive na vitória sobre o Uruguai pela primeira Copa Rio Branco. Mas em 1932, São Paulo estava novamente envolvido em conflito, desta vez verdadeiramente bélico, contra o poder central – no caso, o governo do gaúcho Getúlio Vargas, que chegara à presidência do país no mesmo ano do Mundial uruguaio, em um contexto de crise política que acabou por demolir a chamada República Velha, ou “do Café com Leite”.
A chamada Revolução Constitucionalista, ocorrida entre julho e outubro de 1932, interrompeu o Campeonato Paulista, que acabou encerrado sem que fosse disputado o returno. Derrotados em seu levante contra o governo Vargas, os paulistas sequer cogitaram ceder jogadores para a nova seleção brasileira que viajaria ao Uruguai. Também pesou na decisão outra batalha – esta, em campo – entre cariocas e paulistas na decisão do Campeonato Brasileiro de Seleções, em julho daquele ano, e que azedou a relação entre as duas federações.
OS PERCALÇOS NA FORMAÇÃO DO TIME
Pressionada pela Associação Uruguaia de Futebol (AUF) para não se esquecer do compromisso assumido e marcar logo a data do jogo, a CBD agendou o confronto para 4 de dezembro e voltou-se à Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (Amea), que regia o futebol carioca, para formar sua seleção e iniciar os treinamentos. Entretanto, a menos de um mês da viagem, também encontrou problemas: para começar, alguns dos principais clubes da cidade haviam embarcado em excursões pelo país logo após o fim do certame local.
O Flamengo estava na Bahia, onde ficaria até o fim de novembro, enquanto America e Botafogo haviam descido ao Paraná e ao Rio Grande do Sul, respectivamente. Assim, inicialmente a CBD foi obrigada a recrutar apenas jogadores que estavam na cidade para os treinamentos, na esperança de que, a caminho de Montevidéu, pudesse incorporar ao grupo atletas alvinegros e americanos que sairiam de Porto Alegre e Curitiba. Então veio o segundo problema: a lista de convocados começou a sofrer seguidas baixas de nomes muito importantes.
De última hora, o atacante Preguinho, do Fluminense, alegou problemas familiares e decidiu não embarcar no navio “Duílio”, que levaria a delegação. Outro atacante que não apareceu foi Nilo, do Botafogo, que chegou a afirmar que iria depois, de avião, mas acabou desistindo. Enquanto isso, em Porto Alegre, um surto de tifo contagiou o elenco alvinegro que excursionava pela cidade e colocou em dúvida a presença dos atacantes Carvalho Leite e Russinho (emprestado pelo Vasco) no escrete. Os quatro eram astros do futebol do país na época.

A delegação deixou o Rio desacreditada e levando apenas dez jogadores. Outros cinco atletas do Botafogo seguiriam de Porto Alegre até a capital uruguaia, já que Carvalho Leite e Russinho não se recuperaram a tempo do tifo – que acabaria levando à morte o zagueiro alvinegro Rodrigues no início de janeiro. Apesar da goleada de 7 a 2 sobre o Andarahy do zagueiro Dondon no último jogo-treino antes do embarque, a perspectiva de enfrentar a fortíssima seleção do Uruguai em Montevidéu sem vários dos melhores jogadores cariocas fez o presidente da Amea, Rivadávia Corrêa Meyer, temer um vexame de grandes proporções.
O Jornal dos Sports também engrossava o coro dos que temiam pelo que poderia acontecer: “Sem dispor do necessário tempo para um preparo eficiente, o quadro da Amea terá que partir prematuramente para Montevidéu, a fim de representar o football brasileiro na disputa da Copa Rio Branco. Sem os imprescindíveis treinos de conjunto, sem poder contar com elementos cujas condições técnicas e físicas tenham sido devidamente analisadas, o quadro ameano apresta-se para embarcar já na segunda-feira próxima [28 de novembro]. É patente a exiguidade de tempo”, ressaltou o periódico cinco dias antes da viagem.
Quem acalmou Rivadávia foi, ironicamente, um uruguaio: o empresário Juan Manuel Caballero, ligado ao Bonsucesso, que fora o responsável por negociar toda a excursão e viajaria como tesoureiro da delegação. Também partira dele a ideia de levar um escrete de novatos e jogadores de clubes pequenos da cidade: era hora de mostrar o prolífico celeiro de craques que havia no subúrbio carioca e, de quebra, mostrar aos paulistas que era possível vencer sem os famosos craques do futebol bandeirante. A sugestão foi aceita pelo mandatário da Amea. Mas um nome em especial causou enorme celeuma às vésperas do embarque.
UM DIAMANTE CONTROVERTIDO
Revelado pelo pequeno Syrio e Libanez, o meia-esquerda Leônidas da Silva deixou o clube de colônia com sede na Tijuca assim que ele encerrou as atividades de seu departamento de futebol, ao fim da temporada 1930, e passou a defender o Bonsucesso levado pelo técnico Gentil Cardoso, o qual conhecera no Syrio. Gentil considerava o garoto de 17 anos uma pedra preciosa à espera de ser lapidada. Um diamante negro. E com ele em sua linha ofensiva, o rubro-anil da Leopoldina faria estragos no Carioca de 1931, marcando 58 gols em 20 jogos.
Ainda naquele ano, em setembro, Leônidas marcaria duas vezes na vitória dos cariocas por 3 a 0 sobre os paulistas no terceiro e decisivo confronto valendo o título do Campeonato Brasileiro de Seleções. Se o garoto do Bonsucesso havia ficado de fora do jogo entre brasileiros e uruguaios pela Copa Rio Branco, uma semana antes, parecia questão de tempo até ele ganhar uma chance no escrete. No meio do caminho, porém, haveria um incidente que colocaria nele um péssimo estigma, contra o qual Leônidas lutaria durante todo o ano de 1932.
Em janeiro, o Bonsucesso excursionou por São Paulo e colheu resultados respeitáveis: goleou a Portuguesa Santista por 6 a 0 e derrotou o Palestra Itália (que iniciaria naquela temporada um tri estadual) no Parque Antártica por 3 a 1. Em Santos, porém, Leônidas fora acusado de ter roubado um colar de uma mulher com quem se envolvera na cidade. Sem que nada fosse provado, o caso chegou ao Rio, e o jogador passou a ser hostilizado por torcedores em praticamente todos os campos que se apresentasse para atuar pelo Bonsucesso.

Como se não bastasse, ele se envolveria em outra polêmica quando, depois de ser assediado por semanas pelo America (campeão carioca de 1931), acabou assinando com o clube rubro apenas para desistir da transferência logo depois. Preferia ficar no Bonsucesso. E apesar dos incontáveis pedidos dos dirigentes rubroanis, os cartolas do clube tijucano se recusavam a rasgar a ficha de admissão assinada pelo jogador, como que para provar que Leônidas “não tinha palavra”. A fama controversa do atacante se alastrava e logo chegaria à CBD.
O gaúcho Renato Pacheco, que presidia a entidade desde dezembro de 1927, tinha horror à mera menção do nome de Leônidas. Chegara a prometer que enquanto ele fosse o mandatário da CBD o atacante nunca vestiria a camisa da seleção brasileira. Quando viu o nome do garoto rubroanil na lista, procurou dissuadir de todas as maneiras a comissão técnica. No dia do embarque, fez vigília no cais para tentar impedir o jogador de entrar no navio. Mas não adiantou: num descuido de Pacheco, o técnico Luiz Vinhaes colocou Leônidas para dentro.
Mesmo depois disso, Pacheco tentou dar ordens expressas para que o jogador não entrasse em campo no Uruguai. Vinhaes, porém, era defensor ardoroso de Leônidas (“Sem ele, ninguém sai do Brasil”, teria dito) e argumentou com o presidente da CBD na hora do embarque: “Doutor Renato, o ‘Duílio’ ainda não partiu, o senhor fale com o Doutor Rivadávia. Se o Doutor Rivadávia mandar o Leônidas ficar, eu não terei nada a dizer. Agora, Leônidas embarcando, Doutor Renato, é para jogar”, escreveu Mario Filho no livro “Copa Rio Branco, 32”.
No fim das contas, Renato Pacheco acabou encontrando um jeito mais fácil de cumprir sua promessa, pelo qual se decidiu: dois dias antes do confronto com os uruguaios, ele surpreendeu a todos ao se demitir da presidência da CBD, passando o comando da entidade ao major Ariovisto de Almeida Rego, que já havia ocupado o cargo na década anterior. Pacheco logo voltaria, reeleito, à presidência da confederação, ficando até setembro de 1933. Mas, com efeito, sob seu mandato, Leônidas nunca vestiu a camisa da seleção brasileira.
UMA SELEÇÃO SEM ASTROS
O Bonsucesso de Leônidas e de Gentil Cardoso também teria outro convocado: o centroavante Gradim, parceiro de ataque do Diamante Negro. No time suburbano que se tornara a sensação do futebol carioca, eles eram dois de sete titulares negros. E outras equipes pequenas também cederiam atletas. Do Carioca, clube operário ligado a uma fábrica têxtil do Jardim Botânico, vinha o rápido ponta-esquerda Jarbas. Do Sport Club Brasil, da Urca, vinham o goleiro Aymoré (o futuro técnico da seleção Aymoré Moreira) e o ponta-direita Válter.
Mesmo com as ausências de seus nomes mais badalados, como Nilo e Carvalho Leite, o Botafogo cedeu cinco jogadores: o goleiro Victor, o zagueiro Benedito, os médios Martim Silveira e Canalli e o meia-direita Paulinho. O São Cristóvão, que era então um clube muito respeitado (havia sido campeão carioca seis anos antes), teve no escrete o médio-direito Agrícola. Já o America forneceu ao elenco o centromédio Oscarino, um dos mais experientes, e que disputara a Copa do Mundo de 1930 quando ainda era atleta do Ypiranga, de Niterói.
O Fluminense, por sua vez, se não cedeu seu famoso atacante Preguinho, nome de destaque no Mundial uruguaio, mandou o médio Ivan Mariz, que também havia estado naquela Copa. Por fim, o Vasco contribuiu com dois zagueiros: o experiente Itália e o ascendente Domingos da Guia, que havia sido contratado do Bangu no começo daquele ano, mas vivera temporada de certa forma frustrante com os cruzmaltinos, ao ter de atuar pelos chamados “segundos quadros” (espécie de time B) devido à Lei do Estágio para atletas transferidos.

Domingos estreara no escrete no ano anterior, quando ainda era do Bangu, clube que o revelou. Seu primeiro jogo oficial foi exatamente o confronto com o Uruguai pela Copa Rio Branco em Laranjeiras, em 6 de setembro. Foi naquela partida que realizou uma jogada que entraria para seu folclore pessoal, ao desarmar de modo desconcertante o renomado atacante uruguaio Pablo Dorado (um dos campeões de 1930), que tomou sozinho o rumo das redes, mas sem a bola, já confiscada pelo beque brasileiro com um drible de corpo.
O zagueiro era um dos oito convocados para o jogo de 1931 que voltavam a figurar na lista para o novo confronto: Itália, Oscarino, Válter, Martim Silveira, Ivan Mariz, Paulinho e Leônidas eram os outros sete. Naquela ocasião, porém, só ele e Válter entraram em campo. Os quatro últimos da lista chegavam ao jogo de Montevidéu sem nunca terem atuado pelo escrete em jogos oficiais, ainda que Ivan Mariz tivesse integrado o elenco do Brasil na Copa de 1930. A maioria esmagadora dos jogadores era de debutantes na seleção brasileira.
“Lembro-me da nossa partida. Não havia ninguém que acreditasse em nós. Improvisara-se um ‘scratch’ e com um agravante: recrutara-se uma equipe de ‘brotos’. Não havia nele um só astro, um só cartaz. Tudo era gente que estava despontando. E quando embarcamos, a convicção aqui era a de que íamos apanhar de ‘banho’. Pois bem, chegamos a Montevidéu e houve o mesmo espanto ou a mesma incredulidade. Os jornais perguntaram: ‘Cadê Fulano? Cicrano? Beltrano?’. Os uruguaios pasmavam para os desconhecidos garotos que iam enfrentá-los”, contou Domingos ao escrever suas memórias para o jornal Última Hora, em 1957.
DO RIO A MONTEVIDÉU, SAMBA E UMBANDA
A viagem de navio durou três dias e rendeu muitas histórias. Nas primeiras horas após a partida, sob a chuva fina que caía, os jogadores procuraram espantar a saudade dos familiares e ganhar motivação para a vitória cantando o recém-lançado samba “Até Amanhã”, de Noel Rosa, feito para o Carnaval de 1933. Enquanto isso, treinavam sob a rígida disciplina imposta por Vinhaes, o técnico que, em 1926, levara o São Cristóvão ao título carioca sob o mesmo rigoroso esquema de preparação física que começava de manhã bem cedo.
A convivência com os outros passageiros – um grupo de padres, outro de freiras, mais um de turistas italianos – foi bastante agradável: Leônidas dançou samba com as italianas ao som dos discos trazidos pela delegação. Em 1964, ao também escrever memórias para a Última Hora, o atacante lembrou outro episódio marcante da viagem, já no Hotel Flórida, em Montevidéu, onde a delegação se hospedou, e também citado por Mario Filho em “Copa Rio Branco 32”: as sessões de descarrego feitas pelo jogador Oscarino, médium da umbanda.
Ao contrário de Mario, Leônidas acreditava tratar-se de sessões apenas simuladas: “Após o jantar nos reuníamos no saguão e surgiam as canções de nossa terra, após o que Oscarino concentrava-se e fazia uma simulada sessão espírita, dando passes e vaticinando o que faria o cidadão por ele ‘descarregado’. Isto aconteceu durante as três noites que precederam a nossa estreia. Tudo era feito com o sentido de aliviar a tensão nervosa de todos nós, fazendo-nos esquecer da responsabilidade que pesava sobre nossos ombros”, rememorou.

Porém, seguindo em seu relato, o atacante não deixaria de reconhecer que, de certa forma, a sessão traria resultados práticos: “Enquanto Oscarino se dizia tomado pelo seu caboclo, todos os demais cantavam pontos referentes à interpretação. Na verdade, muita coisa de que predisse Oscarino viria realmente a concretizar-se”, constatou Leônidas, um dos jogadores a ter a perna “descarregada” pelo companheiro de seleção. Um dos outros seria o ponteiro-esquerdo Jarbas, que também se destacaria contra os uruguaios, como veremos.
Diante de todo o ceticismo que envolvia a participação brasileira, apenas dois jornalistas foram mandados a Montevidéu para a cobertura. Um era Fernando Nogueira Pinto, representando o jornal O Globo e a Associação dos Cronistas Desportivos. O outro era Fausto Torrents, especialista em jornalismo esportivo telegráfico, que faria a cobertura para o diário Correio da Manhã numa experiência pioneira de transmissão direta, praticamente em tempo real, por meio de telegramas enviados pelo cabo submarino Italcable, mais resistente.
Os telegramas de Torrents eram transmitidos por uma linha telefônica para os alto-falantes da Avenida Rio Branco, esquina com a Rua do Ouvidor, no centro do Rio de Janeiro, e para o estúdio de duas emissoras de rádio cariocas: a Guanabara (por sua vez ligada diretamente por telefone com a Rádio Mineira) e a Sociedade. Vale lembrar que, embora o esporte tivesse começado uma incipiente relação com o rádio na década anterior, seria apenas naquele início de anos 1930 que as transmissões passariam a ganhar mais espaço e difusão.
O AMBIENTE ANTES DO JOGO
No dia do jogo, 4 de dezembro, o favoritismo e o clima de “já ganhou” dos uruguaios diante dos desconhecidos brasileiros aumentaram ainda mais quando a manhã de domingo nasceu cinzenta, fria e sob garoa fina em Montevidéu. À tarde, enquanto seguia de ônibus com os jogadores até o portentoso estádio Centenário, inaugurado apenas dois anos antes para a Copa do Mundo e o de maior capacidade da América do Sul, Luiz Vinhaes buscava alguma forma de motivar seus atletas. Até ver passar pela janela um rabisco feito a carvão num muro.
Vinhaes não titubeou: fez o motorista parar imediatamente o ônibus, desceu e levou os jogadores até a parede onde havia a inscrição: “Uruguaios cinco, brasileiros zero”. Era o bastante. Famoso desde os tempos do São Cristóvão por suas preleções, o treinador se esmerou no discurso para mexer com os brios dos jogadores antes da entrada em campo. O dia nublado, o frio, o gramado pesado, o tamanho do estádio, o cartaz dos jogadores uruguaios, nada disso serviria de desculpa para que o time se acanhasse. Desconhecidos sim, mas valentes.
Escalado no tradicional 2-3-5 da época, o time entrou em campo com Vitor no gol; Domingos e Itália fazendo a dupla de zaga; Agrícola, o capitão Martim e Ivan Mariz eram os médios; e Válter, Paulinho, Gradim, Leônidas e Jarbas formavam o ataque. Deitados à beira do campo ficariam o técnico Luiz Vinhaes e os quatro únicos reservas do elenco: o goleiro Aymoré, o zagueiro Benedito e os médios Oscarino e Canalli. As seguidas baixas no setor ofensivo acabariam deixando Vinhaes sem suplentes para as posições, tendo de recorrer a improvisações.

Num tempo em que as seleções não chamavam atletas atuando fora do país, o Uruguai não pôde contar com alguns de seus campeões, que haviam se transferido ao exterior – caso dos atacantes Héctor “Manco” Castro (Estudiantes), Pablo Dorado (River Plate), Héctor Scarone (Internazionale, depois Palermo) e Pedro Petrone (Fiorentina). Outras baixas eram de veteranos, que já haviam se retirado da Celeste, como o médio José Leandro Andrade e o ponta Santos Urdinarán. Mas ainda era possível formar um esquadrão respeitável.
Eram quatro os remanescentes da conquista de 1930 entre os titulares: a dupla de zaga formada pelo lendário capitão José Nasazzi e por Ernesto Mascheroni, o médio Álvaro Gestido e o atacante Pedro Cea. Nas demais posições, Héctor Macchiavello era a aposta no gol; Arsenio Fernández e Abraham Lobos compunham a linha média; e Braulio “El Pibe de Oro” Castro, Juan García, Pedro Duhart e Eduardo Ithurbide eram os demais da linha de frente – o primeiro, a grande revelação do Peñarol, e os dois últimos, jogadores do Nacional.
Embora o regulamento da Copa Rio Branco estipulasse que os árbitros deveriam ser da delegação visitante, os brasileiros permitiram que ele fosse local, retribuindo o gesto dos adversários no ano anterior ao aceitarem Gilberto de Almeida Rego como juiz do jogo de Laranjeiras. Desta vez, seria Aníbal Tejada, que apitara a estreia do Brasil na Copa do Mundo contra a Iugoslávia, a comandar o confronto no estádio Centenário. Também uruguaio seria o massagista da seleção brasileira, contratado de última hora pela delegação em Montevidéu.
Em seus telegramas, Fausto Torrents exaltou a magnitude do Centenário, mas lamentou o estado de conservação e a falta de acabamento do estádio, passados dois anos da realização do Mundial: o capim crescendo ao redor do campo, os restos de obras amontoados por baixo das tribunas e a passagem que levava ao gramado, a qual chamou de “uma verdadeira ‘pinguela’, bamboleante e estreita”. O campo de jogo também não apresentava boas condições, irregular e esburacado. Um dos jogadores brasileiros encontrou nele até um sapo seco.
A BOLA ROLA EM MONTEVIDÉU
Os atletas uruguaios, por outro lado, estavam em ótimo estado físico, após uma preparação que durou oito dias. Mas o que chamou a atenção dos jogadores e do público local desde o início foi a tenacidade na defesa e a rapidez no ataque do time brasileiro, que criou a primeira chance do jogo com Leônidas, aos 12 minutos, num chute defendido com tranquilidade por Macchiavello. Três minutos mais tarde, Vitor defendeu um chute de García e iniciou o contra-ataque ao repor a bola com Paulinho. Nascia o lance do primeiro gol brasileiro.
Paulinho esticou a bola para Válter, que cruzou para Gradim na área. O atacante do Bonsucesso ajeitou de cabeça, atraiu a marcação de Nasazzi e girou o corpo no ar ainda com a bola dominada, ficando de costas para o gol. Então ele passou a Leônidas, que entrou na corrida e chutou forte, à meia altura, fora do alcance do goleiro uruguaio. No fim do primeiro tempo, os brasileiros quase ampliaram quando Macchiavello espalmou fraco outro cruzamento de Válter, mas Mascheroni, de cabeça, salvou a finalização de bate-pronto de Gradim.

Muito disputado, o jogo se tornou brusco em alguns momentos: perto dos 30 minutos, Agrícola se lesionou e teve de ser substituído por Canalli. Mais tarde, Leônidas foi duramente atingido por Fernández, e a partida ficou interrompida por alguns minutos. Pouco antes do intervalo, Nasazzi teve de deixar o campo para ser atendido após um choque de cabeça com Gradim. O capitão uruguaio acabaria não voltando para o segundo tempo, dando lugar a Pedro Aguirre. Outra troca seria no ataque: Conduelo Piriz entraria no lugar de Ithurbide.
Na etapa final, a pressão dos comandados de Alberto Suppicci, o treinador campeão mundial em 1930, se intensificou, mas esbarrou na atuação impecável da defesa brasileira. Até que, aos 19 minutos, Leônidas iniciou mais um contra-ataque com uma bicicleta que fez a bola chegar a Válter do outro lado do campo, na ponta direita. O atacante desceu rápido e Leônidas o acompanhou por dentro, numa velocidade espantosa para os uruguaios. O centro veio, e o Diamante emendou um chute forte, na corrida, sem chance para Macchiavello.
Três minutos depois, os anfitriões reagiram: Castro cobrou escanteio e Cea diminuiu na pequena área. Mas o Brasil ainda daria mais um susto quando Duhart perdeu a bola e Jarbas arrancou em velocidade, sozinho, até a área. O chute, no entanto, saiu por cima do gol. Aos 33 minutos, outra vez caçado, Leônidas teve de deixar o campo. Saía, porém, com a missão cumprida: na primeira falta dura que recebera, ainda na etapa inicial, disse que só sairia depois de marcar o segundo gol. Prometeu e assim o fez, mesmo de tornozelo inchado.

Em seu lugar entrou o zagueiro Benedito, improvisado no ataque. Acabou se tornando mais um a ajudar a conter a incessante pressão uruguaia, que, no fim das contas, não foi suficiente para o empate. Às 19h em ponto, Aníbal Tejada apitava pela última vez. Dentro do imponente estádio Centenário, os jovens e desconhecidos brasileiros, muitos deles de times pequenos e suburbanos do Rio de Janeiro e que haviam partido desacreditados da capital do país, derrotavam a poderosa Celeste por 2 a 1 e eram os campeões da Copa Rio Branco.
“Não creio que tenha havido, jamais, um suor tão brioso, como aquele que derramamos em 1932 na capital uruguaia”, comentou Domingos da Guia em suas memórias à Última Hora. “Os próprios uruguaios não sabiam explicar como jovens desconhecidos, verdadeiros adolescentes, lutavam com tanta gana e tanta autoridade”. Leônidas, que se tornaria um novo ídolo nacional naquele jogo, também se referiu a aquela seleção como “um time de fibra e entusiasmo” que conquistou para o futebol brasileiro “uma vitória consagradora”.
DEPOIS DO GRANDE TRIUNFO

Aquela, no entanto, não seria a única partida da excursão. A delegação ainda permaneceria em Montevidéu para mais dois jogos, porém trocando a camisa branca da CBD pela azul da Amea, representando a seleção carioca contra Peñarol e Nacional. Leônidas, porém, estaria fora de ação, recuperando-se da lesão sofrida contra a Celeste, levando os cartolas a chamarem, em caráter emergencial, o meia-esquerda Nelson, do Flamengo, que embarcou em avião da Panair à capital uruguaia no dia 9, a tempo de participar do terceiro e último duelo.
Contra o Peñarol, porém, não foi possível evitar a improvisação num elenco curto: o zagueiro Benedito entrou na ponta-direita e o centromédio Oscarino foi adiantado para a meia-esquerda. Os aurinegros, que viriam a levantar o título de 1932, eram tidos como os oponentes mais fortes, mas o placar ficou em branco até a dois minutos do fim. Até que os cariocas – que já haviam acertado a trave com Benedito e Jarbas – marcaram: Jarbas foi lançado na esquerda por Martim, driblou três uruguaios e anotou um golaço, decretando o 1 a 0.
Na despedida, contra o Nacional, o recém-recrutado Nelson entrou na meia-esquerda enquanto Walter voltou à ponta-direita. E seria este o autor do primeiro gol do jogo aos 22 minutos. Na etapa final, os uruguaios empataram aos 20 minutos quando Fernández completou cruzamento de Urdinarán. Mas seis minutos depois Gradim desviou de cabeça um chute forte de Itália e deu a vitória aos cariocas por 2 a 1. Com qualquer camisa que fosse, aqueles jogadores haviam vencido todas as três partidas em solo uruguaio naquele fim de 1932.

Na volta ao Rio de Janeiro, a delegação foi recebida no cais da Praça Mauá por uma multidão, que assistiu aos jogadores descerem do navio “L’Atlantique” carregando a taça Rio Branco e as outras duas conquistadas nas vitórias sobre Peñarol e Nacional. Em seguida começou, em meio a um mar de gente na Avenida Rio Branco, o desfile em carro aberto, que passou por vários pontos do centro e da Zona Sul (incluindo o Palácio do Catete, onde os homenageados saudaram o presidente Getúlio Vargas), terminando na sede do Botafogo.
Homenageado com uma medalha pelo Havanesa, o clube amador da Ponte dos Marinheiros, em São Cristóvão, onde dera seus primeiros passos no futebol, Leônidas comentou com ironia a polêmica que envolveu sua convocação e escalação para enfrentar o Uruguai: “Só soube do caso em Montevidéu. Respondi como pude, tendo feito os dois gols conquistados pela representação nacional. Não sei quem mais trabalhou pela representação do Brasil: se eu, fazendo dois gols, garantindo a vitória, ou se os que ficaram aqui discutindo”.
Domingos, por sua vez, entre elogios ao árbitro e aos jogadores uruguaios (“São verdadeiros mestres da pelota”), confessou que havia recebido propostas de clubes platinos, como o Nacional e o Boca Juniors, mas que elas não o interessaram. Na verdade, conforme noticiado pelo Jornal dos Sports no dia 8 de dezembro, os jogadores da seleção brasileira haviam firmado durante a viagem um pacto com os dirigentes de não aceitarem convites vindos do futebol profissional argentino ou uruguaio, por mais vantajosas que fossem as ofertas.

A adoção do profissionalismo, regime que começara a vigorar no Uruguai naquele mesmo ano de 1932, estava, aliás, em pleno e avançado debate no futebol brasileiro. O próprio Jornal dos Sports, na primeira página de sua edição do dia 7, trazia como destaque (juntamente com a prévia do jogo com o Peñarol e o embarque de Nelson a Montevidéu) uma chamada em que anunciava estar perto de ser concluída a regulamentação do regime – que acabaria instituído no início do ano seguinte, mas rompendo com a Amea e formando uma nova liga.
Ironicamente, no mesmo momento em que a adoção do regime profissional avançava de modo definitivo no Brasil, dois de seus principais jogadores na conquista da Copa Rio Branco tomavam o rumo do futebol uruguaio: Domingos para o Nacional e Leônidas para o Peñarol. Se o zagueiro viveria uma temporada até hoje lembrada e reverenciada no país, o atacante teria passagem mais turbulenta. Os dois se reencontrariam rapidamente no Vasco em 1934 e depois no Flamengo a partir de 1936 – juntando-se a Jarbas, que chegara ao clube em 1933.

O ponta-esquerda, que ganharia no Flamengo o apelido de “Flecha Negra” e teria longeva carreira no clube, seria um dos muitos campeões a seguirem para equipes maiores do Rio após o título: o goleiro Aymoré e o médio Agrícola foram contratados pelo America para a temporada 1933. O ponteiro-direito Válter trocaria o Sport Club Brasil (que se afastaria das competições oficiais em 1935 e logo seria extinto) pelo Fluminense. E Gradim disputaria alguns amistosos pelo Flamengo como convidado, antes de ser contratado em definitivo pelo Vasco.
Por fim, a Copa Rio Branco voltaria a ser disputada outras oito vezes entre 1940 e 1976 (quando foi realizada em paralelo à Taça do Atlântico), sofrendo algumas mudanças no formato: passou a ser jogada em duas partidas, eventualmente três em caso de desempate, e sempre num mesmo país – exceto em 1976, em que houve um jogo em Montevidéu e outro no Rio de Janeiro. O Brasil ficou com o troféu em 1947, 1950 (pouco antes da Copa do Mundo), 1968 e 1976. Já os uruguaios ganharam em 1940, 1946 e 1948. Em 1967, o título ficou dividido.




