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Há 80 anos, o Grêmio eternizava seu imortal: Lara, o melhor goleiro que a Seleção não teve

Dizia-se que o vencedor do campeonato porto-alegrense de 1935 se eternizaria pelos próximos 100 anos. Afinal, aquele torneio citadino tinha um valor especial: consagraria o campeão em meio aos festejos pelo centenário da Revolução Farroupilha, evento que parara o Rio Grande do Sul. E a final trazia justamente um Gre-Nal de proporções enormes. Um clássico para ser contado e recontado por décadas. Dono da melhor campanha, o Inter tinha a vantagem do empate. O que fez o principal craque gremista cometer uma loucura. Aos 38 anos, o goleiro Eurico Lara sofria com tuberculose e insuficiência cardíaca. Mesmo vetado pelos médicos, disputou a decisão.

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Lara não aguentou em campo além do intervalo, deixando o campo com fortes dores no peito. Mesmo assim, segurou o empate por 0 a 0 no primeiro tempo, apesar da pressão colorada. E foi fundamental para a conquista do Grêmio. Na etapa complementar, Foguinho e Lacy fizeram os gols na vitória por 2 a 0, que deu aos tricolores o título de campeão farroupilha. Para, assim como já se tornara praxe nos anos anteriores, Lara ser carregado nos braços por sua torcida fanática. A última glória de um goleiro lendário.

Em 6 de novembro de 1935, menos de dois meses depois, Eurico Lara faleceu. A decisão do Campeonato Farroupilha serviu como o emblemático último ato de uma carreira gloriosa no Grêmio, com o qual conquistou 16 títulos a partir de 1920. Seu enterro reuniu mais de 30 mil pessoas nas ruas de Porto Alegre, com tributos prestados por tricolores e também colorados. Seu nome acabaria eternizado para sempre pela genialidade de Lupicínio Rodrigues, que versou sobre o “goleiro imortal” no hino gremista.

Ver o talento Lara foi um privilégio quase que exclusivo dos gaúchos. Goleiro arrojado, fazia defesas incomuns para os seus pares da época, acumulando milagres. O Grêmio o descobriu em Uruguaiana, em um time que “nunca perdia quando titular estava em campo”. Comprovou a fama e resolveu contratar Lara, que, a princípio, não queria deixar sua cidade natal. Entretanto, por meio de um influente militar gremista, o jovem foi transferido para um quartel de Porto Alegre. Na capital, não recusaria o Tricolor outra vez. E, conciliando a farda com as chuteiras, se tornou um dos maiores ídolos da história do Grêmio. Mais do que isso, uma referência do futebol no Rio Grande do Sul.

Até a sua morte, em 1935, Lara era o único jogador a ter disputado todas as partidas da seleção gaúcha. Era reconhecido em outros cantos do país desde 1922, graças a um duelo contra os paulistas no Parque Antarctica. Apesar da derrota por 4 a 2, o goleiro fechou a meta e operou 20 defesas, diante da fome de gols de Friedenreich. Voltou para casa como herói, mas nunca teve o gosto de defender a seleção brasileira. Em tempos nos quais as convocações eram fechadas apenas entre Rio de Janeiro e São Paulo, diante das limitações de transporte, o Rio Grande do Sul atravessou 17 anos sem ter um jogador em campo pela equipe nacional – de Alvarizza, em 1920, a Cardeal, em 1937. Justamente ao longo do auge de Lara no Grêmio.

Não é a ausência da Seleção, porém, que tira a importância de Lara. Os colorados sabem respeitar o adversário duríssimo que tiveram ao longo de uma década e meia. E os gremistas veneram aquele que poucos ainda vivos viram, mas que a maioria considera como o maior goleiro que já defendeu o clube. Lara se manteve fiel às raízes e às tradições, entregou-se de corpo e alma na batalha. O título farroupilha de 1935 não poderia ter maior símbolo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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