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Guerrero não merecia o que estava pedindo, mas merecia mais respeito do Corinthians

Em parte de um dos muros do CT Joaquim Grava, uma representação do gol de Guerrero contra o Chelsea, que garantiu ao Corinthians o título do Mundial de Clubes de 2012, ainda é parte do cenário do dia a dia do elenco. O herói daquela conquista, no entanto,  não treinará mais relembrando o capítulo que escreveu na história do clube. Após o fracasso nas negociações pela renovação de contrato, o alvinegro anunciou nesta quarta-feira que o contrato do peruano estava encerrado, mesmo com 49 dias restantes no acordo. Pior: de maneira completamente insossa, em uma nota de apenas dois parágrafos, sem agradecimento por serviço prestado ou qualquer uma dessas frases protocolares. Em vez disso, dando a entender que um atleta que manteve alto nível mesmo enquanto seus vencimentos estavam atrasados não estaria compromissado o bastante para seguir atuando.

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No ano passado, Guerrero foi considerado de maneira quase unânime o melhor centroavante do futebol brasileiro. Em uma temporada em que o Corinthians teve pouco a comemorar no aspecto técnico, o atacante foi um dos poucos pontos altos. Decidiu partidas que o trabalho coletivo corintiano não era capaz de decidir. Consciente do status que alcançara no Brasil, com um contrato apenas até julho de 2015 e pensando em firmar seu último acordo, já que estava com idade relativamente avançada, tentou lucrar em cima da necessidade que o time tinha de mantê-lo. A pedida foi muito alta. Além de um salário de R$ 500 mil mensais, pedia o pagamento de R$ 18 milhões em luvas. Era como se o Corinthians tivesse que contratar novamente um jogador que já era seu.

A exigência do jogador foi exagerada, pelo valor em si, mas também pelo fato de que, a essa altura de sua carreira, não tinha mercado no exterior suficiente que pudesse pagar o que pedia. No início do ano, o Corinthians tentou um meio-termo, ofereceu R$ 12 milhões, mas a equipe que cuidava da parte do peruano na negociação não cedeu. Mais recentemente, o estafe do jogador aceitou o valor, mas aí era o clube que, com dificuldades financeiras crescentes, não podia mais bancar essa cifra.

Oficialmente, a postura do alvinegro era de que seguia tentando a negociação, mas isso mudou a partir da eliminação do clube da Copa Libertadores, para o Guaraní, do Paraguai. O fracasso esportivo desencadeou uma espécie de desmanche no planejamento corintiano. Não havia mais um motivo para justificar os gastos, e a bolha dos salários elevados de atletas como Sheik, Cristian e Vágner Love estourou.

Guerrero sempre demonstrou sua vontade de continuar no Corinthians, mas não a qualquer custo. Precisava também pensar em sua situação pessoal. A maneira como o clube decidiu lidar com a situação diante da impossibilidade do acerto foi o jeito encontrado de tentar preservar ao máximo sua imagem com o torcedor médio. De alguma forma, coloca parte da torcida contra o atleta, como se ele fosse o único responsável pelo acordo não ter dado certo.

A irresponsabilidade financeira em suas contratações, que teve o caso mais emblemático nos R$ 40 milhões gastos por Alexandre Pato, é um dos motivos pelos quais não foi possível para o clube manter Guerrero. Dentro dos corredores do Parque São Jorge, já deveria estar claro que não seria possível atender às demandas do jogador. Diante disso, o mais correto a se fazer, considerando a representação do peruano para o clube, seria comunicar a torcida da impossibilidade da renovação e dar a Guerrero uma despedida digna de sua trajetória na equipe.

Com 55 gols, o atacante é o maior artilheiro estrangeiro da história do clube. Foi o protagonista de uma das maiores conquistas alcançada pelo alvinegro. Durante maior parte do tempo em que esteve no Corinthians, foi um atleta com quem a torcida conseguia se identificar. De raça, entrega, que não se escondia e até se expunha demais em declarações na imprensa, provocando rivais e estreitando o relacionamento com o corintiano. Não merecia ter seu contrato suspenso na semana do clássico contra o maior rival. Quer palco mais importante para um adeus do que um Corinthians x Palmeiras, em Itaquera? Se tudo o que o centroavante fez enquanto esteve na equipe não valeu para que pelo menos tivesse essa chance, a maneira como o clube trata a imagem de seus ídolos e a expõe a seus torcedores precisa ser revista.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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