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“Guerreiros não desistem”: Richarlison relembrou episódios que moldaram seu caráter numa belíssima carta ao The Players’ Tribune

Richarlison é um personagem querido do futebol não apenas por sua qualidade dentro de campo. O atacante ganha destaque também por sua postura e por sua consciência, sobretudo por encabeçar ações sociais em Nova Venécia, a cidade onde cresceu. O astro do Everton passou por dificuldades na infância e na adolescência, até realmente deslanchar nas categorias de base do América Mineiro. E, nesta semana, Richarlison relembrou um pouco esse passado, ao assinar uma carta no site The Players’ Tribune. O atacante reconstrói alguns episódios pouco conhecidos que moldaram seu caráter, além de fazer um apelo sobre o Pantanal.

Abaixo, destacamos a primeira metade da carta. O texto na íntegra pode ser conferido através deste link, em português.

*****

Richarlison, do Everton, comemora (Getty Images)

Quero te contar uma história de pescaria.

Quando eu tinha 17 anos e morava no Brasil, fui visitar o meu pai no fim de semana com os meus dois irmãos e primos. O meu pai, Antônio, estava passando por um momento difícil. Ele estava separado da minha mãe, Vera Lucia, há 10 anos, e vivia sozinho na fazenda. Mas o pior é que estava sofrendo de depressão.

Cresci ligado a ele, muito porque ele sempre acreditou no meu sonho de que eu me tornaria jogador de futebol. Meu pai me acompanhava em todos os lugares para me assistir jogar.

Mas naquela época eu já acumulava algumas frustrações.

Para falar a verdade, eu estava correndo contra o tempo para conseguir a minha grande oportunidade. Eu estava na base do América-MG e o objetivo era ter um contrato assinado logo, porque já estava passando da idade para continuar na base.

Então eu sabia que aquela era a minha última chance.

Richarlison, do Brasil (Foto: Getty Images)

De qualquer forma, naquele fim de semana tivemos folga. Como eu morava com a minha mãe, fui passar alguns dias com o meu pai. Enquanto estávamos lá, meus primos e eu pegamos nossas varas de pescar e fomos às três represas próximas da casa. Acho que elas estavam no mesmo terreno, porque o dono tinha dito que só podíamos pescar em duas delas. Na terceira era proibido.

Passamos o dia inteiro tentando pescar algo nas duas represas, mas, claro, não pegamos nada.

Sinceramente, não estávamos nem aí. Só queríamos curtir o dia juntos. Mas no caminho de volta para casa, passamos pela represa proibida. Olhamos um para o outro. Olhamos para a represa. Ninguém parecia estar por perto. Ainda tínhamos isca no anzol…

Joguei o anzol na água, não sei o que me deu.

Dois segundos depois…

PAH!

Um peixe mordeu a isca!

Até hoje não sei explicar por que eu fiz aquilo. Em todo caso, o dono do terreno me viu fazendo o que não podia. Ele ficou bravo, gritou e humilhou o meu pai na frente de todo mundo, dizendo que poderia expulsá-lo da casa a hora que ele quisesse.

Era a última coisa que o meu pai precisava. Ele se sentiu completamente humilhado.

Naquele momento, algo passou pela minha cabeça. Lembro de falar para o meu tio Elton “Vou fazer de tudo para conseguir um contrato no América-MG. Preciso tirar o meu pai dessa situação.”

Antes daquilo, ajudar a minha família por meio do futebol era uma ideia.

Depois, virou obsessão.

Richarlison, do Brasil (Foto: Getty Images)

Olhando para trás, acho que a minha ligação com o meu pai vem desde quando eu era bem pequeno, e ele me deu várias bolas de futebol como presentes de aniversário. Qual criança brasileira não fica feliz ao ganhar isso? Na época, a minha família morava em uma casa de madeira em um vilarejo em Todos os Santos, no Espírito Santo. Tinha um campo de terra perto de casa e era ali que eu jogava bola com os meus amigos. Quando eu não estava lá, era para assistir ao meu pai jogar pelo time da cidade. Aonde o meu pai ia — fosse jogar baralho ou encontrar os amigos na pracinha — ele me levava junto.

Aos sete anos, os meus pais se separaram. O meu pai se mudou para Minas Gerais para trabalhar, e o restante da família — minha mãe, meus dois irmãos, minhas duas irmãs e eu — fomos para Nova Venécia.

Foi nesse período que o meu sonho começou de verdade, porque comecei na escolinha. No meu primeiro dia eu estava muito ansioso. Eu tinha uma camisa do Brasil e já me imaginava jogando pela Seleção. Eu acompanhava tudo: Eliminatórias, Copa do Mundo. O meu maior sonho era poder vestir a Amarelinha de verdade.

Naquela manhã, como jogaríamos no campo de terra, eu estava com uma tornozeleira para não me machucar. O meu primeiro dia foi sensacional, e o treinador gostou de mim. Treinei cada vez com mais dedicação nos meses seguintes. Percebi que o futebol poderia ser não só a minha carreira. Seria uma maneira de eu conseguir ajudar a minha família. Morávamos cinco pessoas em uma casa de dois cômodos, e a minha mãe trabalhava o dia inteiro para colocar comida na mesa. Ela foi muito guerreira, mas não dava conta de fazer tudo sozinha. Então, logo precisou da nossa ajuda.

Por isso, aos 11 anos eu comecei a vender picolé.

Pois é, sei que pode parecer aleatório, mas para mim era um caminho natural. O meu bisavô era bastante conhecido na cidade por vender picolé. Ele passou anos na pracinha com o carrinho de sorvete. Então, nas férias da escola fui trabalhar com ele. Acordava às 6h, pegava o carrinho no centro e passava o dia gritando pelas ruas. “Olha o picolé! Olha o picolé!”

Eu sabia em quais casas tinha bastante criança, então eu sempre passava nos mesmos lugares. Qual criança não gosta de picolé? Eu vendia muitos, mas ganhava pouco. Por isso, tive de trabalhar em outros lugares para ajudar a minha mãe.

Vendi bombons caseiros feitos pela minha tia. Teve também o lava-rápido.

Cara, o lava-rápido…

Olha, pensei que seria um trabalho fácil de se fazer. Por que seria difícil, né? Pois é, acabou sendo cruel. Passava o dia inteiro ensaboando pneus cheios de lama e para-brisas sujos. No fim do dia o meu corpo doía inteiro. As minhas costas estavam me matando!

O meu chefe queria assinar a minha carteira de trabalho, mas eu falei “Isso não dá para mim!”. Nunca mais voltei lá.

Também ajudei o meu avô na roça. Ficávamos o dia inteiro colhendo café debaixo do Sol. Parecia 50 graus de tão quente! Eu costumava trabalhar e suar tanto que quase chorava. Mas quando eu olhava para o meu avô, ele estava numa felicidade gigante. Eu pensava “Caraca, não é possível!”.

Mas eu admirava muito a dedicação dele. Muito inspirador. Outro guerreiro da família.

Richarlison, do Watford (Foto: Getty Images)

Ele me ensinou muitas coisas. Só que às vezes eu tinha de me esconder dele, porque ele não gostava de me ver andando com certos moleques. É… vamos dizer que eram o tipo errado de pessoas. Tinha muito crime e muita droga no meu bairro, e alguns dos meus amigos estavam envolvidos.

Em Nova Venécia, a minha mãe tinha de sair de casa para trabalhar, então eu e meu irmão íamos para a rua, onde encontrávamos a realidade: armas, malote de dinheiro… víamos de tudo. Graças a Deus, nunca nada daquilo me interessou. Mas uma vez aquele mundo veio atrás de mim.

Isto aconteceu quando eu tinha 14 anos. Estava voltando para casa com um amigo após o futebol. Era umas oito da noite, então estava escuro. Do nada vieram dois malucos apontando armas para nós.

Foi um momento muito, muito tenso mesmo. Vai que um dos caras aperta o gatilho sem querer… eu não estaria aqui escrevendo esta carta.

Eles falaram que não nos queriam vendendo coisas no ponto deles, mas explicamos que éramos moradores e que só jogávamos o nosso futebol mesmo e estávamos no caminho de casa. Até mostramos a bola para provar. Talvez eles tenham nos confundido com alguém. Ainda bem que depois de todo aquele medo eles nos liberaram.

A nossa reação após tudo aquilo foi um zoar o outro. “Mano, você ficou cagando de medo do cara”. Como éramos moleques, tirávamos sarro de tudo.

Passados todos aqueles episódios em Nova Venécia, a minha convicção só aumentou. Não tinha interesse algum em drogas. A roça não era para mim. Vender picolé também não. E de jeito nenhum eu voltaria ao lava-rápido.

Acima de tudo, não me via fazendo algo que não fosse jogar futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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