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Grêmio fez uma exibição memorável para devorar o Galo em pleno Mineirão

Os 15 anos de espera se reduziram a 90 minutos. O Grêmio viveu uma noite para lavar a alma nesta quarta-feira. Uma atuação imponente como raras vezes os tricolores desfrutaram nos últimos anos. Em primeiro nível, talvez a maior justamente desde aquela final da Copa do Brasil de 2001, que marca o hiato de títulos expressivos ao clube. A partida do time de Renato Gaúcho foi tão grandiosa que conseguiu até mesmo silenciar a massa em transe nas arquibancadas do Mineirão. Não houve multidão que intimidasse os gremistas, centrados em sua proposta de jogo e fulminantes. A seriedade e a objetividade foram fundamentais para o sucesso, com a vitória por 3 a 1 sobre o Atlético Mineiro. Resultado que aumenta a confiança dos gaúchos e já deixa a festa preparada na Arena.

O Grêmio funcionou à beira da perfeição no primeiro confronto decisivo. O coletivo muito bem encaixado segurou as virtudes do Galo. E isso permitiu que as individualidades se sobressaíssem. Quando se falar sobre esta final, o nome de Pedro Rocha será indissociável. O jovem marcou dois belos gols, frutos de sua habilidade e também do senso de responsabilidade que demonstrou em um momento tão importante. Aos 22 anos, o ponta trazido do Juventus cresceu em Porto Alegre. Transformou-se no herói de sangue quente para romper a defesa atleticana da forma como fez, mas também de frieza para definir. No segundo tempo, as lágrimas pelo segundo amarelo marcaram, ao mesmo tempo, a decepção de deixar o seu time na mão e a gana de seguir ajudando. De qualquer maneira, sua missão já tinha sido cumprida.

Porém, é injusto destacar apenas Pedro Rocha na final. Nos lances dos gols, outros tantos méritos individuais se ressaltaram. Maicon deu um senhor passe para o primeiro tento, em noite na qual dominou o meio de campo – e, tirando a capacidade de definição do autor de dois gols, foi o melhor na noite. Geromel se tornou ainda mais ídolo dos tricolores pela contribuição no lance que matou o jogo, arrancando energias sabe-se lá de onde para disparar pelo campo inteiro nos instantes finais e servir Everton como um ponta. Atrás, mesmo Marcelo Grohe merece os devidos elogios, com um milagre para evitar o empate que será visto e revisto muitas vezes.

Independente das grandes atuações de vários jogadores, elas só se sobressaíram pela maneira como o time gremista se portou. O Tricolor estava à espreita de abocanhar o Galo nesta noite. E fundamental foi a maneira como os visitantes conseguiram ter total controle do meio de campo no Mineirão. Por mais que os atleticanos exercessem sua pressão, ela vinha com base em um jogo de ligações diretas. A pressa era exacerbada quando precisava se pensar um pouco mais com a bola nos pés. De fato, não falta talento no time alvinegro. Mas não dá para esperar que tudo se crie apenas a partir dos valores que há na frente. O latifúndio até que a bola chegasse a eles era imenso.

Leandro Donizete e Júnior Urso apareciam extramente sobrecarregados, em desvantagem numérica na maioria dos embates. Barrados pela proteção feita por Maicon e Wallace, também com o apoio de Pedro Rocha e Ramiro. Expostos a cada subida tricolor. Douglas, um jogador bem mais abnegado sem a bola do que em outros tempos, auxiliava na marcação e ditava o ritmo de seu ataque. Além disso, a inteligência tática de Luan também foi essencial. O cara capaz de recuar e de abrir espaços. De ajudar a criar alguns rombos na linha de zaga com a sua movimentação. Mesmo sem aparecer diretamente nos principais lances, ajudou a desequilibrar. Supremacia no xadrez evidente em cada gol, além das várias defesas de Victor e de outros cortes do último homem atleticano.

Não quer dizer que o Atlético não teve os seus momentos, pelo contrário. Diante da proposta ofensiva que tinha, era natural que também incomodasse o Grêmio. O equilíbrio do jogo foi grande no primeiro tempo, especialmente na meia hora inicial. Contudo, enquanto o Galo encontrava resistência ao redor da área gremista, deixava as suas costas desguarnecidas. No fim das contas, o número de chances claras dos visitantes acabavam sendo maiores por essa falta de consistência. Já no segundo tempo, a pressão inicial se esfriou com o segundo gol dos gaúchos. Voltou a aumentar incessantemente quando Pedro Rocha foi expulso, também com as entradas de Hyuri e Marcos Rocha. Mas, apesar da crença do empate, o gol de Gabriel, em um chutaço após escanteio cobrado por Fábio Santos, acabou sendo pouco. A falta de pontaria nas finalizações também atrapalhou. E, de qualquer maneira, o desespero entregou de bandeja a jugular atleticana. Basta notar a avenida a Pedro Geromel em sua arrancada.

As deficiências de Marcelo Oliveira na organização de seu time oneraram, principalmente, a torcida que fez uma festa incrível no Mineirão. A entrada em campo foi simplesmente espetacular, com mosaico e fogos de artifício. O barulho foi grande durante a maior parte dos 90 minutos. E, quando saiu o gol de Gabriel, encostando no placar, o “eu acredito” ecoou mais alto novamente. Só que não tem fé que resista para o milagre quando se falta tanta solidez tática. O terceiro gol, aos 46 do segundo tempo, foi um banho de água congelante nas pretensões dos mineiros. Obviamente, nada está perdido e restam 90 minutos em Porto Alegre. Qualidade há para vencer. Mas, para reverter a situação, desta vez longe de sua massa, o Galo não pode depender apenas das capacidades individuais de seus jogadores. É correr risco à toa outra vez, contra um adversário extremamente objetivo. E, para erguer a taça em sua nova casa, o Grêmio precisa fazer menos do que já fez nesta quarta memorável de futebol no Mineirão.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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