Brasil

Governo vai tirar o nome de Senna do autódromo de Goiânia, e lembramos como o futebol sofre com isso

Um crime ao esporte. A ideia do governador Marconi Perillo, de Goiás, de rebatizar o autódromo Ayrton Senna, de Goiânia, tem de ser definida assim. É um crime à memória esportiva, um crime aos atletas, os verdadeiros protagonistas do espetáculo. Afinal, o novo nome não será o de algum grande piloto goiano (o que até seria mais justo do que o nome de Senna), mas o do ex-governador Ary Valadão. Sim, mais um político recebendo homenagens.

ESPECIAL: O futebol e os 20 anos da morte de Ayrton Senna

A questão não é se Ary Valadão foi um bom ou um mau governador, se ele merece ser eternizado como nome de local público, se há ou não problema em saudar pessoas ligadas à ditadura militar. A questão é que o torcedor sai de casa, enfrenta filas e coloca o traseiro em uma arquibancada normalmente desconfortável por horas para ver os grandes nomes da modalidade, não para admirar o trabalho de dirigentes ou políticos. Ele vai ver Senna, Piquet, Zico, Rivellino, Tostão, Reinaldo, Oscar, Hortência, Paula, Giba, Gustavo Kuerten…

Mas isso é automobilismo, deveria ser assunto do Grande Prêmio ou do Flat Out, certo? Certo, mas o futebol vive nesse mesmísismo contexto. Poucos estádios com nomes de craques, muitas arenas com nomes de políticos ou cartolas. A conexão emocional do torcedor com esses nomes é mínima, e aí dá para entender onde surgiu a cultura de chamar os estádios pelos nomes dos bairros em que estão (ou pegar o nome da cidade e colocar um “ão” no final).

Atualização às 18h20 – O governo de Goiás negou que mudará o nome do autódromo, contradizendo carta assinada por Perillo que foi publicada no jornal Diário da Manhã. O motivo da mudança de postura: Ary Valadão está vivo e é proibido dar nome de locais públicos a pessoas ainda vivas

Há duas semanas, o Botafogo havia anunciado que o estádio Olímpico João Havelange – vulgo Engenhão – mudaria de nome fantasia (ou seja, o nome oficial não mudou, até porque haveria dificuldades burocráticas para isso) para estádio Nilton Santos. Para aplaudir a iniciativa alvinegra, fizemos uma matéria mostrando como seria legal se os grandes estádios do Brasil tivessem nome dos jogadores que fizeram história naquela cidade ou naquele clube. Se o caro governador goiano estiver lendo esse texto, poderia conferir abaixo e talvez perceber o tamanho da bobagem que está fazendo.

Imaginamos como seria mais legal se os estádios tivessem os nomes dos verdadeiros ídolos

Engenhão

por Leandro Stein

Parecia o óbvio. Mas, na maioria das vezes, o óbvio não passa pela cabeça dos dirigentes e das autoridades que regem o futebol brasileiro. Nesta semana, a prefeitura do Rio de Janeiro aprovou a mudança do nome oficial do Engenhão. O estádio deixará de se chamar João Havelange, que passou os últimos anos lidando com as denúncias de corrupção na Fifa, e homenageará Nilton Santos, um dos maiores ídolos da história do Botafogo. Nada mais justo, diante de tudo o que a Enciclopédia representa para os donos da casa. E também da memória daqueles que realmente fazem o futebol dentro de campo.

ESPECIAL: Cinco perguntas que permanecem no ar com as novas arenas

Nilton Santos se junta a um grupo de seletos. Entre os principais estádios do Brasil, apenas ele e Garrincha receberam os tributos – sendo que Mané só passou a batizar o Estádio Nacional de Brasília após sua morte. Enquanto isso, dezenas de políticos e cartolas emprestam os seus nomes aos palcos. Com todo respeito a Mário Filho, Paulo Machado de Carvalho e outros, alguns deles até merecem os aplausos por suas contribuições na trajetória dos clubes. No mais, é muita bajulação. Muito puxa-saquismo a governadores, prefeitos, deputados. E, depois do que fizeram com o Enciclopédia, fica até aquele gostinho: seria mais legal se os clubes e o poder público preservassem a memória das lendas através dos estádios. Como Nilton Santos, lembrado por todos a cada visita no Engenhão.

Nem precisa ser tão exigente e pedir que um Pacaembu ou um São Januário da vida percam as alcunhas pelas quais são chamados há décadas. Mas ao menos os nomes oficiais poderiam tornar essas homenagens mais comuns. Já pensou se os mandantes dos estádios resgatassem a idolatria a algum grande craque do passado? Ou, em estádios públicos, se as autoridades prestassem o culto aos jogadores fundamentais para o engrandecimento do futebol local? O Botafogo surge como o primeiro ótimo exemplo.

ESPECIAL: Cinco coisas que você precisa saber sobre os novos estádios brasileiros

A partir desta ideia, resolvemos imaginar o cenário hipotético, em meio a nomenclaturas de personagens que realmente importam. Rebatizamos 25 estádios brasileiros, dando algumas opções entre jogadores ou treinadores com alguma ligação ao local – e, de preferência, em homenagens póstumas. Confira as ideias e deixe também suas sugestões nos comentários:

Foto de Ubiratan Leal

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo