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Gigante como a Fonte Nova, incontestável: O Bahia doutrina e conquista o Nordestão

Inigualável. O Bahia viveu, vive e viverá por mais algum tempo uma noite inigualável. Uma decisão única da Copa do Nordeste, nos mais diferentes aspectos: pela festa na Fonte Nova abarrotada, pelo show que se preparou muito além da bola rolando e pelos 90 minutos vividos intensamente, em uma partida na qual mal se pôde piscar os olhos. O Tricolor de Aço foi o senhor das finais da Lampions League. Saiu da Ilha do Retiro com a sensação que poderia ter ido além do empate e simplesmente doutrinou o Sport no reencontro em Salvador. Porém, os baianos perderam diversas chances e viram um gigante chamado Magrão se colocar em seu caminho. Ainda assim, o gol de placa de Edigar Junio e o 1 a 0 no marcador já eram suficientes. E nele os tricolores confiaram até os últimos instantes, prendendo o ar até os segundos derradeiros, para soltá-lo com o grito de êxtase. A decisão do Nordestão 2017 precisa se transformar num patrimônio histórico e cultural do Bahia. A noite inigualável de um campeão que nenhum rival passou perto de igualar.

A exibição no jogo de ida elevou a confiança do Bahia para a finalíssima na Fonte Nova. Os tricolores foram superiores durante a maior parte do tempo em Pernambuco, e saíram na bronca com a arbitragem pelo empate por 1 a 1. Desta vez, não seria um apito que abafaria o som da multidão nas arquibancadas do gigante de concreto. Os baianos lotaram sua casa e a pintaram em três cores, transbordando euforia. Partida que começou com uma animada cerimônia de abertura, com direito a show de luzes, apresentação musical e mosaico. Era carnaval em Salvador. O trio elétrico tricolor atropelaria.

Bola rolando, a atmosfera eletrizante certamente contagiou os jogadores. As duas equipes tentavam encontrar espaços no ataque, deixando as defesas em xeque. Mas logo a proposta de jogo do Bahia se sobressairia. Guto Ferreira apostou em uma linha de frente bastante leve, o pesadelo da escalação do Sport, com Ney Franco botando três zagueiros para tentar proteger sua área. Em vão. Aos 12 minutos, o Tricolor abriria o placar com uma verdadeira pintura. Excelente lançamento de Armero para Edigar Junio. O atacante dominou no peito e deu um drible fabuloso no giro, deixando Durval para trás. Saiu na cara de Magrão, dando um leve toque por cobertura para vencer o ídolo rubro-negro.

A vantagem no placar soltou o Bahia. A equipe se defendia muito bem, fechando os espaços do Sport, que não se encontrava. Além disso, a movimentação de seu ataque atormentava os pernambucanos. Régis quase ampliou, acertando a rede pelo lado de fora, enquanto Edigar Junio esbarrou na trave, após cruzamento de Allione. E se a situação era favorável aos anfitriões, se tornou ainda mais aos 32 minutos. Rogério tentou cavar pênalti do outro lado e o juiz avaliou o mergulho dentro da área como atitude antidesportiva. Como o rubro-negro já tinha cartão amarelo, acabou expulso. A brecha para os baianos controlarem o jogo e anularem a força ofensiva dos visitantes, especialmente por sua marcação adiantada.

Para o segundo tempo, o Sport tentou recobrar o prejuízo e partir para o ataque, com a entrada de Marquinhos. O que se viu, entretanto, foi um massacre do Bahia. Atacando com muita velocidade e botando a defesa pernambucana na roda, o Tricolor criava chance atrás de chance e teve até um gol anulado por impedimento. Régis e Edigar Junio voavam, jogando demais. Esbarravam em Magrão, goleiraço que consegue crescer mais nos momentos decisivos. O veterano colecionava milagres sob as traves. Foram três grandes defesas até os 20 minutos e, quando já estava batido, contou com a ajuda de Matheus Ferraz para evitar o segundo na pequena área. O bombardeio baiano se manteve até os 30 minutos, quando Guto Ferreira optou por se resguardar um pouco mais.

O recuo do Bahia dava mais espaço para o Sport se postar no campo de ataque. De qualquer forma, faltava criatividade aos rubro-negros, mal fazendo o goleiro Jean trabalhar. Só que o desespero também expunha o Leão aos contragolpes tricolores. Que só não foram letais pelos erros do time da casa, assim como pelas boas saídas de Magrão. Em algumas oportunidades o Bahia avançou em vantagem numérica, mas não concluiu as jogadas por passes errados ou impedimentos. Do outro lado, os pernambucanos rezavam por um cruzamento que desse certo, uma bola que respingasse. Afinal, um gol já seria suficiente. Sorte que não veio. Com todos os méritos, o Bahia enfim pôde correr para o abraço com o apito final.

A partir de então, o que se viu foi uma verdadeira apoteose na Fonte Nova. Os mais de 40 mil presentes nas arquibancadas comemoravam enlouquecidos. Em campo, a celebração dos jogadores tinha direito até a provocação ao rival Vitória. E, erguida a belíssima taça da Lampions League, o carnaval se rompeu de vez no estádio. A banda Psirico começou a tocar em palco montado atrás de um dos gols. Festa completa, para que a apaixonada massa tricolor sentisse o gosto pelo seu terceiro título no Nordestão, que não vinha desde 2002.

A campanha do Bahia no torneio precisa receber os devidos elogios. Os tricolores passaram como tratores pela fase de grupos e também pelas quartas de final, diante do Sergipe. Reverteram a derrota na ida contra o Vitória com uma partida gigante para se assegurar na decisão. E então abocanharam o Sport, em diferença no placar agregado que ficou pequena por toda a superioridade dos baianos. Reverberando a boa gestão do clube, Guto Ferreira faz um excelente trabalho em Salvador e sabe tirar o melhor do seu elenco. Montou uma defesa que não sofreu um gol sequer em casa e um ataque intenso, que superou a perda de Hernane Brocador, lesionado. A conquista premia aquele que, de fato, foi o melhor time do torneio. A enorme festa é plenamente compreensível, e vai varar a madrugada. Tende a culminar também numa campanha digna no Campeonato Brasileiro, por aquilo que o Tricolor vem apresentando. Mas agora é hora de carnaval, merecidamente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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