Brasil

Gaúcho à mineira

“Odeio quando vêm com uns papos de ‘Imortal Tricolor’. Sempre que falam nisso, é porque o Grêmio está ferrado”. A frase é de um amigo gaúcho e gremista, manifestando seu cansaço com certos clichês da imprensa local. Faz sentido, pois só se fala na imortalidade tricolor nas vezes em que há uma surpreendente virada. Mas, quando ela não ocorre, tudo é tratado como se fosse normal.

Bem, é possível que tais referências a um Grêmio-Highlander voltem a aparecer. O time parecia destinado a um campeonato monótono no meio da tabela, mas engrenou e já se aproxima da zona de classificação para a Libertadores. Com os líderes teimando em tropeçar, é factível uma entrada na disputa pelo título.

E um campeonato com tanto perde-ganha, fazer pontos que normalmente não são feitos pelos outros é fundamental para ganhar terreno. No caso, são os pontos fora de casa. Depois de um primeiro turno quase 100% no Olímpico e quase 0% longe dele, os gremistas precisavam estancar a sangria como visitantes, para ajudar as vitórias em Porto Alegre.

Foi o que ocorreu. Nas duas últimas partidas fora de casa, o Grêmio fez quatro pontos. Como continuou impecável em seu estádio, o salto na classificação foi rápido.

Ao final do primeiro turno, esta coluna já havia alertado: “Um eventual sucesso gremista no torneio está diretamente ligado à criação de um sistema mais confiável para o ataque funcionar” (a íntegra do comentário está aqui). A constatação se baseava no fato de que as derrotas do Tricolor fora de casa estarem ligadas à ineficiência ofensiva.

Nas dez primeiras partidas como visitante, o Grêmio marcou apenas cinco gols, sendo que, no período, não fez mais de um gol na mesma partida fora de casa. Com esse desempenho, qualquer gol sofrido (naturalíssimo quando se joga no estádio adversário) minava as possibilidades tricolores. O comportamento mudou: nas duas últimas partidas longe do Olímpico, foram cinco gols (3 a 3 com o Botafogo e 2 a 0 no Náutico). Com o ataque funcionando, a defesa nem precisou ser impecável para o time somar pontos.

Para se ter uma ideia da diferença desses cinco gols fora de casa, basta perceber que eles já deixaram o Grêmio com o melhor ataque do Brasileirão (48 gols, um a mais que o Inter e dois à frente de Goiás e Barueri). Além disso, sem os três pontos que eles asseguraram – supondo que, com ataque ineficiente, o Tricolor perderia do Botafogo e ficaria no 0 a 0 com o Náutico –, os gaúchos estariam nono lugar.

Já é um cenário diferente. O ataque gremista ganha confiança, Jonas se consolida como um fazedor de gols (o que ninguém esperaria) e a defesa continua boa. Paulo Autuori consegue dar um padrão ao time e pôde dispensar jogadores que faziam número no elenco – mas eram usados enquanto a equipe estava em “fase de experiências”.

No momento, a briga pelo título é vista como uma corrida aberta, mas com três claros favoritos: Palmeiras, São Paulo e Internacional. Mas, se o Grêmio mantiver a solidez desse início de returno, entrará nessa briga antes que muitos percebam. Mineiramente.

Detalhes

Pegaram no pé de Carlos Alberto Parreira quando ele teria dito que, “no futebol, gol é um detalhe”. Na verdade, houve um certo exagero. O que o técnico, então no comando da Seleção na preparação para as Eliminatórias para a Copa de 1994, quis dizer é que, naquele momento do trabalho, mais importante era o time estar ganhando um padrão de jogo. Fazer o gol ou não era menos importante.

Para as circunstâncias, ele não estava errado. É fácil comentar futebol com base em resultados. Então, vamos fazer um exercício: esqueçamos os resultados e vamos analisar o futebol jogado. No caso, o do São Paulo nas duas últimas partidas fora de casa, contra Cruzeiro e Santo André.

Em Belo Horizonte, o Tricolor venceu por 2 a 1 com gols no final. Uma vitória saudada como sinal de “time de chegada” e “equipe que sabe vencer na hora certa”. Em Ribeirão Preto, os são-paulinos ficaram no 1 a 1 contra o Santo André e imprensa e torcida reclamaram da falta de futebol apresentado. Dois comentários baseados no placar final, mas que não são completamente acertados. Afinal, o placar final dessas duas partidas foi resultado de sorte ou azar. Ou, para quem não acredita no acaso, de detalhes imprevisíveis.

Contra o Cruzeiro, o São Paulo fez uma partida terrível. Foi sufocado durante boa parte do encontro (ser sufocado é diferente de jogar estrategicamente na defesa, como o Tricolor fez nos títulos de 2007 e 2008), mal passando do meio-campo. Em falhas incomuns do ataque e da defesa cruzeirenses, os paulistas conseguiram virar. Mas não podiam encarar aquele desempenho como algo positivo. Os três pontos vieram por detalhes que não eram previstos por ninguém. No futebol jogado, o time foi mal.

No último domingo, o cenário foi mais ou menos o inverso. O São Paulo abriu o marcador no início da partida e controlou o Santo André. Se forçasse mais, poderia fazer o segundo gol. Mas preferiu administrar a vantagem para se poupar (até porque o jogo seguinte é contra o Corinthians). Os ramalhinos não deram muitos motivos para preocupação, mas, em uma jogada isolada, conseguiram o empate. Um placar ruim. Mas o futebol foi adequado para as circunstâncias.

Em um torneio de pontos corridos, essas sortes e azares (ou detalhes a favor e contra) se equilibram. Por isso, o importante é analisar o futebol que os times estão apresentando. Quão consistentes são as equipes e de que modo elas usam seus estilos de jogo para conquistar pontos. Nesse aspecto, a atuação tricolor contra o Santo André não deveria motivar calafrios em torcedores. Mas aquela partida contra o Cruzeiro…

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Equipe Trivela

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