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Ganso voa?

Ney Franco definiu Ganso como titular no jogo contra o Santos. É o tipo de jogo que todo craque espera. Enfrentar o seu ex-clube na casa onde sempre brilhou. Mas, Ganso ainda é craque? Mais uma vez, o jogo na Vila se mostra como ideal para uma grande partida que tire muitas dúvidas sobre o futuro do jogador, que ainda não conseguiu ser titular do São Paulo.

Quando a transação – a mais cara do futebol brasileiro – se concretizou, não havia dúvidas. Foi o que mostramos na Revista ESPN e que trazemos de volta aqui no blog.

POR LUÍS AUGUSTO SÍMON
FOTOS Bruno Miranda/Na Lata

Paulo Henrique Chagas de Lima, o Ganso, não teve dificuldade alguma em vestir a camisa de seu novo time, no domingo 23 de setembro, duas horas antes da partida contra o Cruzeiro, no Morumbi. A mesma camisa que Kaká, seu ídolo, vestiu por 123 jogos e fez 48 gols. PH Ganso, nome e apelido unidos ao número 8.

A imagem do jogador, na sala de imprensa, aparecia em tempo real, através de dois telões, para os 40.547 pagantes presentes no Morumbi, número 144% maior que os 16.603 que eram, até então, a média de público do São Paulo como mandante. Todos em êxtase com a nova contratação, que deu a volta olímpica em um carrinho de golfe.

Cardeais sorriam sem nenhuma precaução. Para eles, estava ali uma contratação comparável à de Gerson, em 1970. Um craque caro, pronto a mudar o patamar técnico do time. Outros, também otimistas, sonhavam com a redenção daquele Ganso que encantou o País em 2009 e 2010. Um Ganso com atuações ainda capazes de sustentar a dúvida sobre qual seria o próximo grande jogador do Brasil, ele ou Neymar.

Fora dali, havia outro tipo de são-paulino, que precisa ainda ser conquistado. Para ele, o medo é que o craque fracasse. E a comparação é com o bem articulado e bom de bola Ricardinho, que o clube tirou do Corinthians em 2002 e que fracassou, sucumbindo a intrigas comandadas por “companheiros”, que boicotavam o “Trezentinho”, apelido conquistado pelo alto salário que o meia recebia.

box_jogosOs desconfiados ficariam ainda mais receosos se soubessem do teor da conversa do jogador com Luís Rosan, fisioterapeuta responsável pelo Reffis, um dia antes da apresentação: “Fui muito franco com ele. Disse que sua lesão muscular era severa, de grau três na coxa esquerda, e que também faríamos um trabalho de fortalecimento na perna direita. Ele precisa de muita fisioterapia para apressar a recuperação. Deixei claro que precisa trabalhar oito horas por dia e que não admito falta no trabalho nem liberdade para ficar dando entrevista na hora da fisioterapia. Expliquei que, se faltasse, o prejudicado seria ele e não eu”. Depois da conversa, Ganso cancelou participação em um evento promocional de um de seus patrocinadores, que ocorreria na segunda-feira. Foi para a fisioterapia. As fotos desta matéria foram feitas às 17 horas, depois do trabalho com Rosan.

No Morumbi, havia também um pouco menos entusiasmado são-paulino. Médico ortopedista, vereador e pré-candidato a presidente do clube em 2014, Marco Aurélio Cunha tem dúvidas sobre a contratação: “Eu o traria como um negócio de oportunidade e não pelo preço de um jogador de ponta. Ele tem um potencial enorme, é talentoso, mas tem dificuldades táticas que o impedem de ter sucesso na Europa. Não marca e não ocupa espaços. É como o Sócrates, que era um gênio, mas teria dificuldades para jogar hoje. Ele é talentoso, mas o talento sem força física não se mantém.”

E aí entra outro motivo para a desconfiança do médico e torcedor: “Ganso tem disposição para fazer trabalhos físicos que o coloquem em forma? Tem o empenho do Ceni, que comparecia ao Reffis três vezes ao dia? Ou o espírito guerreiro do Wellington, que teve duas lesões graves? Jogador contundido precisa ter uma certa vocação para o sofrimento, que não vejo nele.”

Se Ganso se dedicar, Marco Aurélio não vê motivos para preocupação. Diz, inclusive, não acreditar em boatos que falam de uma artrose não divulgada no jogador: “Não acredito que um segredo desses se mantivesse. Se existisse, vazaria. E já vi gente com artrose jogar muito bem. Hoje em dia a medicina esportiva resolve tudo. O que precisa ver é se ele conseguiria se recuperar com dedicação. E se aceitaria mudar seu estilo de jogo.”

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As desconfianças de Marco Aurélio não encontram eco em José Ricardo Pécora, médico que operou o jogador em 2010: “O Ganso é um menino muito concentrado e que leva sua carreira a sério. Sempre se dedicou à fisioterapia. Ele está totalmente recuperado e pronto para continuar sua carreira. Não tem impeditivo. A operação foi benfeita e não creio que sua vida útil como atleta seja prejudicada. Quem faz artroscopia pode ter problemas depois de parar de jogar, mas antes não.”

Qual o Ganso que chega ao São Paulo com contrato de cinco anos, em troca de R$ 16,3 milhões que dão ao clube 100% dos direitos federativos, mas apenas 32% dos direitos econômicos? Vai valer a pena ter apostado em seguidas reuniões que envolveram intrigas, ameaças e serviram para diminuir o bom relacionamento entre os dois clubes, além de explicitar a relação de quase ódio entre a DIS, empresa que era dona de 55% dos direitos do jogador, e o Santos?

Ganso acredita que todo o esforço valeu a pena: “Não tenho certeza de que vou recuperar meu melhor futebol, voltar à Seleção e mostrar que o que esperam de mim vai se concretizar. Mas eu garanto que vou me recuperar 100% fisicamente e jogar muita bola. Eu tenho talento e vou colocá-lo no São Paulo. O Santos é passado.”

Ele disse a assessores que sua ida para o time da capital significa o fim de um casamento esgarçado há mais de um ano e meio – quando se falou em sua ida para o Corinthians – para iniciar uma relação de paz. Acredita que estará em uma cidade maior, longe da pressão da torcida santista, que, em uma cidade pequena, tudo vê e tudo sabe – onde o jogador mora, que restaurante frequenta, em que balada procura companhia. Tanta proximidade dá direito a uma cobrança muito grande, o que incomodava o jogador.

A mágoa do meia com a diretoria santista é grande. E tem, segundo o jogador, muitos motivos. O mais recente é, segundo ele, o modo como foi tratado em sua última artroscopia. Voltou a jogar apenas 11 dias após o procedimento cirúrgico, algo inusitado, um recorde mundial. Na época, como todo jogador, aceitou voltar. Queria enfrentar o Corinthians para tornar possível a concretização do bicampeonato da Libertadores. “Hoje, sei que voltar daquele jeito acabou comigo. Perdi a chance de jogar bem na Olimpíada por causa disso”, disse.

A certeza de ter feito a opção correta não é abalada nem quando ficou sabendo que sua imagem nos muros da Vila Belmiro havia sido pichada: “Não me incomodo. O que sei é que marquei meu nome no clube e estou na história do Santos.”

A relação com o Santos começou a ficar ruim em 2010, quando Ganso pedia aumento e passou por uma cirurgia. Ele acredita que foi desprezado pelo clube que, em vez de melhorar seu salário, lhe ofereceu um plano de carreira. As cláusulas previam que o clube seria responsável pela gestão de seus contratos publicitários. Ganso recusou, o que surpreendeu – e muito – o presidente Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro.

Houve outras reclamações e outras ofertas do Santos, nunca abrindo mão de gerenciar a carreira do atleta. Ganso não aceitava porque recebia mais assim do que com o salário. E porque gostaria de evitar o crescimento da multa para o mercado nacional. Como nada se resolveu, ele, o segundo principal nome do elenco, passou a ter apenas o oitavo salário do grupo. Era superado, por exemplo, pelo atacante Diogo, que pouco jogou.

O São Paulo procurou Luís Álvaro em julho, propondo um empréstimo de Ganso, numa troca com Casemiro. O presidente do Santos recusou e o São Paulo começou a tentar a compra. “Nosso plano era gastar no máximo R$ 12 milhões e fizemos a primeira oferta, de R$ 10,7 milhões, pela parte que pertencia ao Santos”, diz Adalberto Batista, diretor de futebol do clube.

Quando as negociações evoluíram, diante da firmeza demonstrada pela diretoria santista, o São Paulo resolveu gastar R$ 16,3 milhões e recebeu auxílio da DIS para chegar aos R$ 23,94 milhões exigidos pelo Santos. São Paulo e DIS começaram a discutir então como o clube pagaria o aporte colocado pela empresa. “Eles queriam uma parcela de jogadores como Rodrigo Caio e Ademílson, mas achamos melhor ficar com uma parte menor do Ganso”, diz Adalberto.Quando a proposta vazou, o Santos, que havia recusado a primeira oferta, começou a negociar mais duramente. Como possuía 100% dos direitos federativos, apesar de não ter mais que 45% dos direitos econômicos, exigia o depósito integral do dinheiro, o que ultrapassava R$ 50 milhões. O São Paulo aumentou a oferta, o Santos falou em aliciamento. Na época, Paulo Henrique Ganso disse que seria uma honra jogar no Tricolor, o que gerou nova nota do Santos, criticando o São Paulo e, agora, o jogador. Ganso decepcionou-se e muito com Luís Álvaro, a quem deixou de cumprimentar.

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Foi então, com tudo praticamente acertado, que o São Paulo sofreu um grande abalo em sua confiança, no dia 15 de setembro. “Era de noite e o Adalberto me ligou. Disse que o negócio não sairia. O Grêmio havia conseguido dinheiro com a [construtora] OAS e havia se acertado com o Santos. E o Luxemburgo, o Elano e o Zé Roberto estavam fazendo campanha para ele ir para lá”, diz Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo.

Os assessores de Ganso e os representantes da DIS estranharam como o acerto entre Santos e Grêmio havia sido rápido. Quando todos estavam desanimados, Juvenal ligou para Ganso. “Nunca havia conversado com o jogador. Disse que gostaria de saber se era verdade que ele tinha simpatia pelo nosso clube. Ele falou que sim. Então, eu falei para ele conversar com o [ex-jogador] Pita, que é amigo dele, para receber informações sobre o São Paulo. E, se gostasse do que iria ouvir, que deixasse claro a sua preferência. Que explicasse ao Luís Álvaro que só aceitaria vir para cá”.

Ganso explicitou seu desejo, e o Grêmio saiu da parada. Tudo certo? Não. O Santos fez novas exigências. E Juvenal conversou diretamente com Luís Álvaro: “Falei para ele deixar essa história de comitê gestor para lá e resolver a situação. Deveria assumir uma direção vertical, como fazemos no São Paulo. Foi quando ele pediu uma porcentagem no lucro de uma futura venda. Trocamos uns papéis e tudo deu certo”.

Quando se definiu que o Santos teria direito a 5% do lucro de uma futura venda do jogador, novamente o acerto foi adiado, por conta de uma antiga briga do clube com a DIS, de 2010. Da época em que o jogador vendeu 10% dos direitos econômicos a que tinha direito à empresa, que passou a ter 55%, contra 45% do Santos. Uma relação que o clube contestava na Justiça, pois Luís Álvaro considerava que Marcelo Teixeira, antigo presidente, havia vendido porcentagens de Ganso, Wesley e outros jogadores por um preço considerado ridículo.

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Foi à Justiça e perdeu. A DIS passou a ter direito ao embargo de parte da renda dos jogos da equipe. Desta vez, durante a negociação, o clube pediu R$ 4 milhões como compensação. E tudo se acertou quando a empresa aceitou trocar o embargo de renda pela penhora do CT Meninos da Vila. “A direção do Santos se comportou como torcedores apaixonados. Chegou a ameaçar o jogador”, diz Roberto Moreno, diretor da DIS.

 

Agora, sim, no dia 20 de setembro, o negócio estava fechado. Ganso foi até o Morumbi e tirou fotos com a camisa do São Paulo.

Faltava assinar o distrato. Já era perto da meia-noite quando Ganso chegou à Vila para resolver o negócio. Assinou tudo, sem cumprimentar nenhum diretor do clube e recusou sair pelos fundos: “Entrei nesse clube pela porta da frente e vou sair por ela.”

Depois do contrato assinado e da apresentação, o Santos, por meio de Pedro Conceição, membro do comitê gestor, reclamou que Ganso tirou fotos antes de haver assinado contrato com o São Paulo: “Faltou ética e foi desrespeitoso”. E Luís Álvaro trocou a fantasia de dirigente moderno que tanto lhe apetece para assumir a cara de torcedor passional.

Disse ao repórter Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo, que Ganso teria uma lesão incurável. No dia seguinte, ameaçado de processo por parte do jogador e da DIS, desmentiu a frase. E deixou no ar duas perguntas: se é verdade, por que lutou tanto para manter o jogador? E por que no prontuário enviado pelo departamento médico do Santos ao São Paulo não há nada sobre a tal lesão incurável?

Agora, Ganso está pronto para tirar as dúvidas sobre seu futebol. Alguém que se considera um grande jogador, mas deixa de lado a definição de artista, conforme depoimento à ESPN em março de 2011: “Nada disso. Não sou artista porque eu jogo simples, meu negócio é fazer o time andar”. Um artista sem exageros. “Nunca quero dar mais do que dois toques na bola. É uma coisa que me imponho. Não sou de dar caneta, chapéu, elástico quando não precisa. Só faço isso quando é necessário para facilitar meu jogo. O que interessa é o atacante receber a bola.”

O Ganso versão 2012 não vê a hora de reviver o Ganso de 2009. Ou de ser como Kaká, seu ídolo de infância. Ou Gérson, que nunca viu jogar. Ricardinho? Não, obrigado.

LINHA DO TEMPO

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1989
NASCIMENTO
Em Ananindeua, no Pará, nasce Paulo Henrique Chagas de Lima. [12/out]

1995
FUTSAL
Aos seis anos, é convidado para jogar futsal na Tuna Luso. Com ele, a equipe é nove vezes campeã – Paulo Henrique, que tinha o apelido de Petrobras, empresa na qual seu pai trabalhava, foi artilheiro em todas as ocasiões.

2002
CAMPO
Ainda atuando no salão, passa para a equipe de campo da Tuna Luso.

2004
MUDANÇA
Irritada com o treinador, sua mãe o leva para o Paysandu.

2005
SANTOS
Paulo Henrique chega ao clube pelas mãos de Giovanni, ídolo santista. O Paysandu recebe R$ 900 mil pela cessão. [ABR]

2007
PRIMEIRA CIRURGIA
Reconstrói o ligamento cruzado anterior do joelho direito e repara o menisco lateral.

FINAL
Disputa e vence a final do Campeonato Paulista Sub-20 contra o XV de Piracicaba. [16/dez]

2008
COPINHA
Na Copa São Paulo o time do Santos, superfavorito, é eliminado pelo Internacional nas quartas de final. [19/jan]

CONTRATO
Assina seu primeiro contrato como profissional e passa a ser chamado de Ganso. [23/jan]

ESTREIA
Faz seu primeiro jogo como profissional contra o Rio Preto, pelo Campeonato Paulista. Com poucas chances, atua apenas quatro vezes pela equipe. [17/fev]

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GOLAÇO
Marca o primeiro gol como profissional, contra o Guarani, selando a vitória por 3 a 1. O técnico Serginho Chulapa lhe
dá mais chances do que os antecessores. [15/fev]

VICE-CAMPEÃO
No Mundial Sub-20, Brasil empata com Gana por 0 a 0 e perde a decisão nos pênaltis. [16/out]

RENOVAÇÃO
Santos, impressionado com suas boas atuações, faz novo contrato por cinco anos e estipula a multa em R$137 milhões. [jun]

BALANÇO
Indicado pela CBF ao prêmio de revelação do ano, perde para Fernandinho, na época no Grêmio Barueri. Termina o ano com 49 jogos e 10 gols. [DEZ]

2010
CAMPEÃO
Santos perde para o Santo André por 3 a 2, mas é campeão paulista. Ganso se recusa a ser substituído e comanda o time na final. Em 20 jogos, anotou 11 gols. [2/mai]

DECEPÇÃO
Dunga anuncia a lista de convocados para a Copa do Mundo. Ganso e Neymar ficam fora. [11/mai]

SEGUNDA CIRURGIA
Passa por uma artroscopia no joelho direito. [17/jun]

SELEÇÃO
É convocado pela primeira vez por Mano Menezes. [26/jul]

ESTREIA
Atua os 90 minutos na vitória por 2 a 0 sobre os Estados Unidos. [20/AGO]

JOELHO
Sofre grave lesão no joelho esquerdo em partida contra o Grêmio, no Olímpico. [25/AGO]

TERCEIRA CIRURGIA
Reconstrói o ligamento cruzado anterior do joelho e repara o menisco lateral. [28/ago]

2011
RETORNO
Volta a jogar depois de sete meses, contra o Botafogo de Ribeirão Preto. [12/MAR]

LIBERTADORES
Primeiro jogo em uma Copa Libertadores. Derrota para o Colo Colo, 3 a 2. [6/abr]

LESÃO
Tem problema no músculo reto adutor da coxa direita, na primeira partida da decisão do Campeonato Paulista, 0 a 0 contra o Corinthians. [8/mai]

BICAMPEÃO
Fora de campo, vê a equipe derrotar o rival por 2 a 1 e conquistar o título do Paulistão. Fez dois gols em nove jogos. [15/mai]

GOL
Faz seu primeiro gol na Copa Libetadores, com um chute de fora da área, na vitória por 1 a 0 sobre o América do México. [27/ABR]

REI DA AMÉRICA
Disputa a final da Libertadores, na qual o Santos vence o Peñarol e conquista o título após 48 anos. Termina a competição com sete jogos e um gol. [22/jun]

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