Futebol paranaense agoniza

Há a sensação geral de que o futebol paranaense é um dos mais emergentes do Brasil. De fato, é por exemplo, ao lado do Rio de Janeiro, o único estado que colocou três clubes na Libertadores ao longo da década vigente, excetuando São Paulo. A aura de instituição moderna construída pelo Atlético Paranaense também tem impacto para esse sentimento. Enxergar o outro lado da moeda, porém, é algo mais que emergente.
No próximo dia 18, o futebol paranaense definirá seu rumo para os próximos anos. Em jogo, a presidência da Federação e o que virá após 22 anos da calamitosa e corrupta direção de Onaireves Moura.
Dias antes do pleito acontecer, porém, a chapa da situação, liderada por Hélio Cury, vem inventando mil problemas para atrapalhar as candidaturas de Rafael Iatauro e Moacir Peralta. Até o fechamento dessa coluna, apenas Rafael, chefe da Casa Civil do Paraná, havia registrado a candidatura. Segundo alega o assessor jurídico da FPF, Juliano Tetto, faltava um documento original para legalizar a candidatura de Moacir Peralta, ex-CBF.
No Paraná, o clima é de desânimo. Livrar-se de Onaireves Moura criou a idéia de que o futebol paranaense entraria em uma nova era. As situações que envolveram as eleições nos últimos dias, porém, deixam claro que o sonho das pessoas sérias – e de quem vive o esporte com intensidade – está longe de acontecer.
Campeonato esdrúxulo
Dos 16 clubes que restam na Copa do Brasil, apenas um é paranaense. O sobrevivente é o Paraná Clube e a última semana viu as eliminações do Coritiba e do Paranavaí, respectivamente diante de São Caetano e do Corinthians de Alagoas, o mesmo que havia surrado o Atlético Paranaense na Baixada. A situação das equipes locais em um cenário nacional é ilustrativa.
O nível das equipes menores do Paraná é assustadoramente fraco. Daí, a tendência em se olhar torto para a seqüência de 12 vitórias do Atlético Paranaense. Para se ter uma idéia, na primeira fase do torneio, foram 13 jogos com diferença superior a quatro gols. O nível de competição, evidentemente, inexiste.
A lanterna Portuguesa teve 13% de aproveitamento, enquanto o Iguaçu, rebaixado, e o Rio Branco, que escapou, somaram somente 20% da pontuação possível. Por conseqüência, esses pontos precisavam ficar com alguma equipe. Não à toa, Atlético Paranaense e Coritiba terminaram a primeira fase lá em cima.
Com uma aura de moderno, com iniciativas como o estádio ecologicamente correto do J.Malucelli, o futebol paranaense é pano de fundo para o estabelecimento de pessoas com claro e único interesse no lucro rápido. Não há razões para fazer um time forte, desenvolver algum projeto social com ênfase no esporte ou criar algo duradouro e sustentável. Basta um negócio aqui e outro ali para, de maneira meteórica, multiplicar investimentos de médio porte. É mais ou menos dessa forma que tem girado o interior do estado.
Assim, cria-se a estrutura propícia para o desenvolvimento de pessoas como Aurélio Almeida. Hoje à frente do Real Brasil, o empresário já teve passagens esquecíveis por Império, Prudentópolis, Toledo e Grêmio Maringá – todos à míngua. Aurélio, que já teve mandado de prisão emitido há poucos meses, é figura emblemática da situação do futebol paranaense.
Problemas dos grandes
No Brasil, tornou-se comum enxergar o Atlético Paranaense como modelo de gestão e de clube que se antecipou às modernidades. O ponto marcante desse estágio emergente é a construção da então Arena da Baixada e toda a estrutura de treinamento do CT do Caju. Ações de marketing agressivas e três boas campanhas – Brasileiros de 2001 e 2004, Libertadores de 2005 – reforçaram essa tendência, se é que pode se chamar assim.
Em 2008, quase dez anos após a inauguração da Arena em 1999, o clube não conseguiu transformar toda essa estrutura em status. A obsessão é tão grande que as boas equipes formadas são desmanchadas de maneira inescrupulosa. Em contrapartida, ações como a brilhante (!) idéia de cobrar direitos de imagem para a transmissão de jogos por rádio se tornam cada dia mais freqüentes.
A imagem e a tal estrutura estão sempre à frente do futebol. Isso atingiu tal ponto que o Atlético, tentando se desvincular de suas raízes regionais, tentou eleger Vasco e São Paulo como rivais. O tema, aliás, foi tratado pela Revista Trivela deste mês.
De maneira tímida e lenta, o Paraná ainda tenta se reorganizar após fazer um ótimo Brasileiro em 2006 e jogar a Libertadores do ano seguinte. Na verdade, descobriu-se que a decantada presidência de José Carlos Miranda, era um grande esquema de empresários. Thiago Neves, embora tenha tido alguma incompetência, pagou pela gestão corrupta do cartola, que entregou o tricolor na mão de agentes.
Em transição política e nitidamente sem condições – ou mesmo anseio – de segurar seus principais jogadores, o Coritiba retorna para a primeira divisão sem a menor pinta de que se preocupa em permanecer também para a edição de 2009. Embora tenha buscado um treinador jovem e competente, o Coxa, de cara, viu Renê Simões, um dos heróis do acesso, deixar o Couto Pereira. Grandes revelações, Henrique já foi para o Parque Antártica e Keirrison deve seguir seus passos.
Infelizmente, o tema tem de ser tratado em linhas gerais. Haveria muito mais a ser dito e, embora tenha atingido alguns bons resultados em nível nacional, o futebol paranaense precisa muito de gente séria em sua gestão e nos clubes. Não que isso haja aos montes por aqui, mas a situação, do ponto de vista ético e até mesmo esportivo, é preocupante e lamacenta.
Link
Leia resumos dos quatro clássicos de Rio e São Paulo no blog:
http://dassler.blogspot.com



