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Por que você está olhando as estatísticas do futebol de maneira errada

Os números estão cada vez mais presentes em programas de TV, conversas e análises. Mas até onde eles podem explicar o jogo?

O telão de um dos programas esportivos mais assistidos do Brasil apresenta uma comparação estatística entre dois jogadores. A cena é comum no cotidiano do torcedor brasileiro, mas traz, em muitos casos, os repetidos problemas com o uso de dados no futebol. 

Nem todas as estatísticas são úteis, interessantes ou até mesmo esclarecedoras. Padrões que não são realmente padrões, comparações desconexas, correlações perigosas e, claro, a falta de contexto poluem um melhor e mais preciso entendimento dos números. 

O crescimento das estatísticas e seus “perigos”

Uso de dados facilitam análise estatística no futebol Foto: (Imago)
Uso de dados facilitam análise estatística no futebol. Foto: (Imago)

As estatísticas são, há muito tempo, usadas para embasar uma opinião porque é considerado um ótimo meio de trazer evidências, seja qual for o tema, do esporte à política. Logo, são ferramentas que ganharam importância em debates para analisar de forma objetiva um esporte tão subjetivo e complexo.

Só que os desafios para o bom uso dos dados são muitos.

Exemplo: o número de roubadas de bolas de um time em uma partida pode ser diferente dependendo de qual plataforma de estatísticas você está vendo. Empresas de coleta de dados esportivos reúnem estatísticas diferentes, logo podemos (e devemos) ter dados distintos.

“O xG (sigla em inglês para “Expected Goals”, gols esperados, em tradução livre), por exemplo, é super popular. Todo ano, as empresas estão publicando como elas estão medindo, porque é uma receita de várias métricas”, afirma Filipe Calmon, fundador da “FutScan”, empresa de análise de desempenho, em entrevista à Trivela.

As próprias definições das métricas contribuem para isso. Definir o que é um passe errado pode significar uma coisa para uma empresa e outra para a sua concorrente. Os dados, considerados objetivos, são quase todos coletados manualmente por pessoas, logo estão sujeitos à subjetividade e parcialidade.

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Contexto: o melhor amigo da análise

Comissão técnica do Portsmouth analisa estatísticas durante jogo Foto: (Imago)
Comissão técnica do Portsmouth, da Inglaterra, analisa estatísticas durante jogo. Foto: (Imago)

Outro problema muito mencionado por especialistas da área é a falta de contexto. Dados “frios” e isolados podem atrapalhar o melhor entendimento. Para Rafael Marques, analista e fundador da empresa de consultoria esportiva “Performa Sports”, muitas vezes essa descontextualização se dá para beneficiar um clube ou jogador.

— Esse para mim é o principal problema: quando você tenta defender o trabalho ou o desempenho de alguém a partir dos números. Agora, isso significa dizer que todas as vezes que isso é feito é um equívoco? Não. Eu acho que é necessário identificar quais são os indicadores de desempenho que estão sendo analisados — diz o especialista, em contato com a Trivela.

Se um goleiro leva poucos gols, isso significa que ele é muito bom? Não necessariamente. Um jogador com mais desarmes que outro é sinal de superioridade nesse quesito? Também não dá para ter certeza. 

Exemplo: se o seu time costuma ter menos posse de bola que o adversário, seus jogadores estão mais vezes em situação para ter números defensivos, como desarmes, rebatidas ou interceptações. Logo, mais ações defensivas não significam necessariamente um defensor melhor.

— E uma coisa meio disfarçada, que pouca gente percebe, é número de fim de jogo: percentual de posse de bola, finalização, etc., para justificar se a equipe jogou bem ou mal. O time pode ter 30 finalizações, mas se todas foram longe de zona perigosa, para fora ou bloqueadas, não diz que jogou bem — explica Rafael.

O índice de acerto de passes é outra métrica muito utilizada, mas ignora contextos e confunde o público. Acertar mais passes não significa diretamente ser um melhor passador.

Podemos ter a clássica comparação entre um jogador A, que dá muitos passes para o lado e longe do gol adversário, e o atleta B, que está em uma posição de campo de maior pressão e busca por passes mais difíceis. 

Pega um meia ofensivo que joga vertical. O jogo hoje tem menos espaço para passe em profundidade; se ele tentar cinco e acertar dois, talvez coloque o time em vantagem para assistência ou pré-assistência. A numeralização do jogo tira o subjetivo, que é a grande graça. O futebol é 90% subjetividade — revela um observador técnico de um clube do Campeonato Brasileiro, que pediu anonimato.

O número sozinho pode criar falsas simetrias

Estatísticas de um jogador de futebol Foto: (Imago)
Estatísticas de um jogador de futebol. Foto: (Imago)

Em discussões sobre qual jogador foi melhor, principalmente aqueles de épocas diferentes, a moda é afunilar a conversa para quantas participações diretas em gols cada um tem. Entretanto, essa métrica limita à análise sem levar em consideração o estilo individual e tarefas dentro de campo — entre outros fatores.

Portanto, dois meio-campistas de criação, por exemplo, não podem ser resumidos ao objetivo final do jogo. Se o atleta A tem mais liberdade ofensiva para criar jogadas para os companheiros ou até mesmo finalizar e o jogador B é responsável por iniciar a transição entre defesa e ataque, o número de gols (quase) sempre será desigual.

Tem jogador profissional que nunca fez gol ou deu assistência. Ele não serve pra ser jogador profissional? Qual a influência dele no placar dos jogos? Começa a ficar complicado de mensurar isso de forma objetiva — argumenta Filipe.

E como usar os dados da forma correta?

O futebol não é ciência exata, porém isso não significa que os dados não podem ajudar a entendê-lo. A análise estatística é uma ferramenta para compreender o jogo, mas é crucial lembrar que muito do que acontece dentro de campo é subjetivo.

Nada substitui o olho. Entender emoção, comportamento, linguagem corporal é importante. Além de questões técnicas de biomecânica, qualidade da ação que o jogador faz — argumenta o observador técnico.

No basquete, vôlei, beisebol, futebol americano — e tantas outras modalidades –, as tarefas e as dinâmicas dos atletas são bem mais definidas do que no futebol. Um time ataca, outro defende. Cada um fica de um lado da quadra. Tem tempo ou movimentos máximos para progredir.

Tudo isso facilita o uso de dados para explicar o que está acontecendo. No esporte bretão, não é assim. Apesar disso, as estatísticas são um braço no entendimento do jogo e devem ser incentivados — mas não ser a única régua. Por isso, assistir às partidas faz a diferença para interpretar os números.

— A estatística é uma fotografia. A análise qualitativa é o vídeo: eu vou identificar o comportamento dos atletas, vou identificar porque ele tomou aquela decisão, eu vou ver o contexto — finaliza Marques.

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Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.
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Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.
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Pedro RamosCoordenador de conteúdo

Coordenador da Trivela. Ex-editor do site da Premier League Brasil. Passagens por Estadão e TNT Sports. Formado em Jornalismo e Sociologia. Ex-pesquisador do GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa).

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