Brasil

‘Esquecem que são crianças em campo’: A luta para acabar com clima tóxico na base

FPF e Ferj tomaram medidas duras em partidas de base como forma de conscientização para pais e responsáveis

Ofensas, ameaças e arremesso de objetos passaram a ser episódios tristes do futebol de base no Brasil. Crianças e adolescentes têm sido alvos de comportamento agressivo de adultos nas arquibancadas dos jogos, o que obrigou as federações de Rio e São Paulo a tomarem medidas duras.

A Trivela ouviu responsáveis pelos jovens atletas, membros das federações e psicólogos para entender como o ambiente tóxico tem sido um problema na base do futebol brasileiro.

Na última semana, a Ferj adotou o “Protocolo de Ação contra a Violência Verbal”, que prevê a paralisação ou encerramento do jogo em caso de ofensas vindas das arquibancadas. A novidade foi divulgada na primeira Reunião de Comportamento dos Pais em Competições de Base, realizada na sede da federação.

A medida determina que, ao ser constatada uma ofensa ou agressão por parte da torcida, o árbitro deve informar imediatamente o delegado da partida, que comunicará as comissões técnicas para advertir o infrator. Caso a ocorrência siga, a partida será interrompida por até dez minutos, podendo ser encerrada posteriormente.

— Infelizmente, tivemos episódios recorrentes de mau comportamento de pais e torcedores em jogos de base. Esses fatos têm nos preocupado bastante, principalmente com a segurança de todos que estão participando dos eventos, além da formação desses atletas — diz Marcelo Vianna, vice-presidente de Competições da Ferj.

Antes da Ferj, FPF foi pelo mesmo caminho

Em agosto, a Federação Paulista já tinha decidido proibir a presença de pais e responsáveis nas arquibancadas em dois jogos do Paulistão sub-11 e sub-12, com o objetivo de zelar pelo ambiente dos jovens jogadores. Os portões das competições ficaram fechados no início de setembro.

Ao todo, segundo a Federação Paulista, foram 46 ocorrências desde que o Paulistão começou em junho deste ano. Em 2024, durante toda a competição, 34 notificações foram registradas, deixando claro o aumento significativo de violência nas arquibancadas. Os casos incluem ofensas a crianças — sendo crimes de injúria racial e homofobia — brigas, ameaças e outros atos de violência e hostilidade, a maioria realizada por pais e responsáveis pelas crianças.

— Essa é uma medida educativa, que reforça nosso compromisso em colocar a integridade e a formação das crianças acima de qualquer outro interesse. O futebol nessa faixa etária deve ser sinônimo de aprendizado, convivência, diversão e alegria, e é esse padrão de arquibancada que trabalharemos para garantir — afirma Fábio Moraes, diretor-executivo de Competições da FPF em nota.

Atleta Henrique Andrade, do Guarani
Henrique Andrade é goleiro do Guarani. Foto: Arquivo Pessoal

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Pais relatam situações de mau comportamento nas arquibancadas

A atitude da FPF foi bem vista por pais das crianças ouvidos pela reportagem. Em contato com a Trivela, responsáveis por jovens que disputam o Paulistão sub-11 e sub-12 por diferentes times relataram presenciar atitudes graves em direção aos atletas e também contra arbitragem e organizadores.

— Percebemos muito exagero dos pais ao torcerem, eles cobram muito seus filhos como se eles não pudessem errar. Quanto aos meninos das outras equipes, eles xingam, estimulam a violência pedindo para a criança derrubar, “bater”, demonstrando desrespeito com a outra equipe. Achei extremamente correto (fecharem os portões), pois a falta de respeito estava demais. Esquecem que ali são crianças em campo — conta Cleuton Andrade, pai de Henrique Andrade, goleiro do Guarani, de Campinas.

A fala é compartilhada por Renan Valente, pai de Olavo Valente, do Cosmopolitano, time da cidade de Cosmópolis, no interior de São Paulo.

— Já presenciei pais agredirem verbalmente a arbitragem e também atletas do time oposto. Acho que foi uma medida interessante e pertinente, visto que são crianças em formação esportiva e principalmente formação de caráter. Então devemos coibir ações que fogem desse princípio de formação — aprova.

Olavo Valente do Cosmopolitano
Olavo Valente em atuação pelo Cosmopolitano. Foto: Arquivo Pessoal.

Após a proibição, atletas do Esporte Clube Meia Noite, de Patrocínio Paulista, fizeram uma ação de conscientização. No jogo contra o Catanduva, os jogadores entraram segurando cartazes, pedindo respeito, menos ódio e que os pais sejam exemplos.

— Não acho que vai resolver, eu acredito que a federação deveria exigir que cada clube tivesse programas de educação para os pais e, caso haja algum incidente, o clube deveria perder pontos no campeonato. Assim, um pai cuidaria do outro para não deixar o clube de seu filho ser prejudicado na pontuação do campeonato — opina Juliana Zanitti, mãe de Henry Zanitti, também do Cosmopolitano.

Apesar de concordarem com a medida tomada pela FPF, alguns pais acreditam que as atitudes violentas poderiam ser minimizadas com algumas atitudes da federação, como um melhor treinamento de arbitragem, por exemplo.

— Por um lado achei justo, mas por outro não achei, porque muitos pais não xingam e acabaram ficando fora dos jogos dos filhos por irresponsabilidades alheias. A federação precisa escutar os pais também, muitos árbitros e juízes estavam péssimos. No time que meu filho joga, até gol com impedimento teve, faltas que não marcaram, muita falta de atenção — relata Amanda Francielly, mãe de um atleta do ECUS, da cidade de Suzano.

Psicóloga explica danos que essas atitudes podem causar nas crianças

Um espaço que deveria ser de diversão e competição saudável passou a ser de preocupação para crianças, adultos e profissionais da área de saúde mental. A psicóloga infantil Emanuella Ferreira da Silva reprova o clima tóxico na base e explica como um comportamento agressivo prejudica na formação dos jovens.

Essa situação impacta muito na autoestima e na motivação das crianças, porque de certa forma, a gente sabe que o futebol e qualquer outro esporte possui uma cobrança muito grande. Tem toda uma questão também de resultado e desempenho, e esse tipo de comportamento acaba gerando ansiedade e o medo absurdo de errar — explica.

— Além disso, também tem a questão da modelagem de comportamento agressivo. As crianças estão ali se desenvolvendo e elas vão aprendendo com que elas observam. Então assim, ela aprende que se xingar ela consegue o que quer, elas aprendem muito pelo exemplo. Quando elas veem o pai, o adulto ou alguém agindo com agressividade, a tendência é ela reproduzir esse comportamento — afirma Emanuella.

O ex-atacante Vinícius Pacheco é pai de adolescentes de 11 e 14 anos que são atletas e foi um dos convidados a palestrar no evento da Ferj para melhorar o ambiente na base. O jogador formado no Flamengo e com passagens por vários clubes importantes do futebol brasileiro

— Os pais ou torcedores têm de entender que as crianças ou jovens ainda não tem maturidade para certas atitudes. Por isso, o exemplo tem de vir de casa. O problema é que os pais cobram dos filhos como se cobra de um jogador profissional. Hostilizam as crianças e isso prejudica muito até mesmo no desenvolvimento como pessoa. (…) Os pais têm de ser parceiros dos filhos. Nem sempre ele vai vencer. Mesmo nas derrotas, tem que dar forca para que se sintam seguros. A cobrança excessiva do pai, como xingar, não vai agregar nada ao filho. Todo mau comportamento vai respingar no filho. Categoria de base é um processo — conta.

Lucas José, da base do Corinthians
Lucas José é atleta da base do Corinthians. Foto: Arquivo Pessoal
Foto de Gabriella Brizotti

Gabriella BrizottiRedatora de esportes

Formada em jornalismo pela Unesp, sou uma apaixonada pelo esporte em geral, principalmente o futebol. Dentre as minhas paixões, está o futebol argentino e suas 'hinchadas'.

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