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FPF tenta obrigar clubes a gostarem de um Paulistão longo e desinteressante

Muitas rodadas em pouco tempo, desgaste físico elevado, partidas de nível técnico ruim e vários estádios às moscas. Tudo isso por um troféu que nem é mais tão valorizado. Essa é a realidade do Campeonato Paulista e de outros estaduais ao redor do Brasil. Mesmo entre os apaixonados pelos regionais, é difícil encontrar algum defensor fervoroso da atual fórmula. Mas ao invés de revê-la, deixá-la mais atraente e sedutora, a Federação Paulista, liderada pelo futuro presidente da CBF, preferiu tentar obrigar os clubes a gostarem dela.

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A principal mudança no regulamento do torneio para 2015 impõe um máximo de 28 atletas inscritos por elenco, sendo 25 jogadores de linha e três goleiros. A motivação por trás dessa medida, embora não tenha sido externada, foi muito clara: impedir que o torneio, principalmente as primeiras rodadas, seja disputado por equipes reservas ou recheadas de garotos das categorias de base.

A história não é nova. Os campeonatos estaduais passaram a ser cada vez mais criticados à medida em que começaram a atrapalhar interesses maiores (nacionais e continentais). Nos últimos anos, o Paulistão passou de 19 datas, quando era disputado por pontos corridos, para 23, e agora voltou a 19, mas com uma fórmula maluca, na qual os times não enfrentam os seus colegas de grupo.

Entre 2013 e 2014, o Atlético chutou o balde. Deu folga prolongada para os titulares, fez uma preparação mais longa e escalou apenas os jovens no estadual. Os clubes cariocas cada vez mais colocam seus reservas e garotos, principalmente nas rodadas iniciais, ou depois de vencerem a Taça Guanabara. A Ferj chegou a falar em desrespeito ao torneio e planeja um código de conduta.

Muricy Ramalho, discípulo de Telê Santana, que criticava o Paulistão antes de virar moda, bate mensalmente no calendário do futebol brasileiro. No último estadual, escalou um time completamente reserva na rodada final da primeira fase contra o Botafogo-SP, quando o São Paulo já estava classificado. Pelo discurso, esboçava intensificar essa prática no torneio do ano que vem.

Isso explica por que a única voz dissonante dos 20 clubes da primeira divisão do estadual paulista foi o presidente tricolor Carlos Miguel Aidar. Ele afirmou que “faltou sensibilidade” à Federação e propôs que ao menos os jogadores das categorias de base fossem liberados à vontade, porque tinha o objetivo de usar o torneio para desenvolver seus jovens talentos, mas não conseguiu apoio dos seus colegas.

O agravante é que o Paulistão de 2015 será realizado em um período mais curto em relação ao deste ano, que durou exatamente entre 19 de janeiro e 19 de maio. Para atender à exigência do Bom Senso, que pediu um período de pré-temporada maior, a primeira rodada será realizada em 1º de fevereiro e a decisão está marcada para 3 de maio. A mesma fórmula de disputa condensada em três meses e com um elenco mais reduzido à disposição dos técnicos. Uma máquina de triturar atletas.

E sabe o pior? A decisão foi praticamente unânime entre as diretorias dos 20 clubes da Série A do Paulistão. Foram 19 votos a favor e apenas um contra, o de Aidar, para aprovar uma medida autoritária, que não resolve nenhum dos problemas do calendário brasileiro e, ao contrário, apenas os intensifica. Ninguém se revolta de verdade, nem mesmo o presidente do São Paulo, que depois da vitória sobre o Criciúma, no último domingo, afirmou à rádio Jovem Pan que Marco Polo Del Nero, mandatário da CBF a partir do ano que vem, fará uma “grande gestão”.

Diante dessa situação, a única solução seria inscrever apenas reservas ou jovens e às favas com o Paulistão, mas os clubes não podem mostrar um desinteresse tão deliberado em relação à competição porque recebem altas quantias pelos direitos de transmissão e, no fundo, ninguém quer se indispor com o futuro chefe do futebol brasileiro.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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