Brasil

Fórmulas da confusão

Os campeonatos estaduais têm uma importância histórica e é parte importante do calendário de futebol brasileiro. Os confrontos regionais, em um país tão grande como o Brasil, são importantes. Porém, com fórmulas confusas, excesso de participantes e de jogos, os regionais perdem importância a cada ano nos principais centros do país.

Com menos datas do que o Campeonato Brasileiro e não mais um semestre inteiro de disputa para os estaduais a partir de 2003, algumas federações de futebol espalhadas pelo país resolveram criar fórmulas de disputa “diferentes”. Um dos exemplos mais impressionantes é o Campeonato Paranaense.

O estadual têm 14 participantes, que se enfrentam em turno único. Os três últimos são rebaixados para a segunda divisão e os oito primeiros se classificam para a fase final. Em um campeonato onde metade dos participantes continua na competição já parece estranho, a fase final ainda traz mais elementos bizarros. Os oito times se enfrentam em turno único, com o mando sempre da equipe de melhor campanha. Isso significa que o primeiro colocado jogará as sete partidas em casa, enquanto o oitavo jogará todas fora de casa. Além disso, o primeiro colocado entra com dois pontos de vantagem e o segundo entra com um ponto. O melhor colocado dessa fase é o campeão.

Não bastasse o caráter bizarro da fórmula, ela ainda consegue piorar a situação dos já problemáticos times pequenos. Ainda que o time consiga classificar em 8º lugar irá enfrentar todos os adversários na fase final fora de casa e com desvantagem em pontos para os dois primeiros, uma fórmula que cria muitos privilégios para os times grandes no estado, que ficam “protegidos” de possíveis zebras. A vantagem para os times melhores classificados ficam abusivos.

No Campeonato Mineiro, a primeira fase é quase que apenas para cumprir tabela. Os times se enfrentam em turno únicoo. Dos 12 participantes, oito estarão na próxima fase, quartas de final, e dois são rebaixados. São 11 jogos para cada time para tentar não ficar nas duas posições que nem classificam, nem caem para a segunda divisão estadual. Com isso, a primeira fase se torna entediante, um estorvo para os times que disputam outras competições e um fracasso para os times pequenos – que têm jogos demais contra outros pequenos sem que o duelo seja decisivo e, portanto, pouco atrativo para os torcedores. É só nas quartas de final, com duelos eliminatórios de ida e volta, que o campeonato se torna atraente. Os times melhores classificados têm a vantagem de decidir em casa e de avançar em caso de empate em número de pontos e saldo de gols – o que se mantém nas fases semifinal e final.

O Campeonato Paulista é outro recheado de confrontos pouco interessantes. São 20 clubes participantes, um número que se mostra excessivo mesmo para o estado mais rico da federação. Todos os times se enfrentam em turno único na primeira fase, o que significa que são 19 arrastados jogos na fase de classificação, uma vez que quatro times irão avançar às semifinais. Por ser um torneio regional, muitos dos times têm pouco apelo de torcida, especialmente por serem jogos que pouco ou nada irão decidir em relação ao final do campeonato. O excessivo número de times também cria uma diferença técnica muito grande entre os melhores e os piores times da competição. Somente nas semifinais os jogos se tornam decisivos e atrativos para os clubes do interior e da capital.

Entre os campeonatos com fórmula melhores estão o Campeonato Gaúcho e o Campeonato Carioca. O Gaúcho divide os 16 clubes em dois grupos de oito, onde no primeiro turno os times de um grupo enfrentam os do outro, enquanto no segundo os confrontos são dentro do grupo. Em cada um dos turno, classificam-se os quatro primeiros colocados. O 1º de um grupo enfrenta o 4º de outro, e o 2º de um enfrenta o 3º do outro. Os jogos acontecem em partida única nas quartas de final, semifinal e final. Em caso de empate, o jogo vai para os pênaltis. Os dois vencedores dos turnos se enfrentam na final, em dois jogos. Em caso de empate em número de pontos e saldo de gols, vale o gol fora de casa e, em último caso, pênaltis.

O Campeonato Carioca tem algumas semelhanças. Os 16 times se dividem em dois grupos e no primeiro turno jogam contra os times do outro grupo, enquanto no segundo jogam dentro do grupo. Classificam-se os dois primeiros de cada grupo para as semifinais e finais do turno, com 1º de um grupo contra 2º de outro. Os vencedores se enfrentam na final do turno. Em caso de empates, o jogo vai para os pênaltis. Os vencedores dos dois turnos jogam a final em dois jogos, com decisão nos pênaltis em caso de empate em pontos e saldo de gols.

Nos dois casos, as fórmulas criam disputas que tornam o campeonato um pouco mais interessante, com mais fases decisivas e, portanto, fases de classificação mais curtas em que cada jogo vale um pouco mais.Ainda assim, ambos pecam pelo mesmo motivo que todos os outros citados: excesso de times. É preciso um número menor – no caso do Gaúcho e Carioca, diria que oito times está de bom tamanho. Os jogos seriam mais decisivos e mais atraentes.

Um dos problemas que os estaduais desses centros estão mostrando é a ausência de público. As médias estão baixas, as rendas, consequentemente, idem. Não é à toa. Os torcedores não querem ver jogos desinteressantes. Em um país onde os estádios são ruins, os horários ruins, há pouca segurança e os preços não são atraentes, o que leva o torcedor ao estádio é a paixão. E com o número excessivo de jogos desinteressantes e pouco atrativos, é difícil chamar público ao estádio.

Os estaduais não precisam ter fórmula de pontos corridos para ser interessante. Essa fórmula é mais interessante no Campeonato Brasileiro, que é a principal competição do país. Os estaduais, que têm datas demais no calendário brasileiro, precisam ser mais enxutos e mais atraentes. Pode haver uma disputa regionalizada durante todo o ano entre 20 clubes, sem os times grandes. Depois, com os melhores times classificados, entram os grandes em jogos decisivos.

Como defende Rodrigo Bueno, colunista da Folha e comentarista da ESPN Brasil, os estaduais seriam mais interessantes com a fórmula da Copa da Inglaterra: jogos eliminatórios com diversos times participantes em fases iniciais e os grandes entrando apenas nas fases mais agudas. Essa é uma proposta, mas há muitas outras. A questão é que é preciso haver mudança, especialmente no número excessivo de datas e de times. Em alguns casos, também de fórmulas, para que os estaduais não percam o seu charme e morram, como parece estar a caminho de acontecer.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo