Brasil

Flu de Diniz, contra a mesmice, foi um barato. Querem mais o quê?

Fernando Diniz é uma cabeça dogmática, pouco afeito a mudanças de rotas se pego no contrapé, não importa se numa final de campeonato por um time mínimo da Grande São Paulo ou se numa semifinal de Libertadores no Beira-Rio.

Isso é seu drama e sua delícia, o que lhe aproxima de resultados improváveis e lhe afasta de controles óbvios, uma atração e tanto para quem gosta de futebol num nível que me custa a topar que ele possa remeter à tanta bronca de quem vê jogo quarta e domingo, quarta e domingo.

Porque não há nada mais aterrorizante para o esporte e para as artes em geral – pensemos a música, o cinema – que a pasteurização das intenções e das reações, uma padronização completa dos comportamentos e das liberdades.

Quantos times passam pela nossa vida ganhando jogos enormes mas sem nos oferecer um mísero arrepio, em movimentos ordinários e programados a serem executados numa longa tabela de pontos corridos, organizados de forma apenas voltada a encurtar caminhos para competir. 

Então me parece óbvio que o Fluminense de Fernando Diniz foi uma ótima brisa contra um futebol empobrecido pelo êxodo de talentos e pragmático pela pressão do resultado efêmero.

Quando a gente vive um jogo em que meio que sabe o que vai acontecer e que o excesso de compromissos baixa a qualidade das partidas, pronto, surgiu um campeão diferente, um Fla-Flu histórico no Estadual, cinco no River Plate, um time que se fez competitivo e levantou a América porque se recusou à mesmice e teve a autoestima de viver a própria onda até o gol de um atacante reserva que meses atrás vinha jogando em Araraquara.

E aí me pega bastante a coleção de lugares-comuns em tempo de demissão, essa justa e inevitável, atrasada até. Não adianta jogar à mesa os clichês sobre o futebol brasileiro, que não há paciência com as fases ruins (houve).

O trabalho do Diniz se esgotou pelo mesmo motivo que tocou o céu, porque só o faz no limite, com a firmeza teimosa de quem ergue a taça e vai à lanterna acreditando que a travessia convicta valerá a pena no crepúsculo.

A seleção brasileira foi à síntese: numa passagem curta, se recusou a topar o que o jogo pedia. Com Diniz não há a urgência da luta contra o rebaixamento (nem ao estar fora de zona de classificação para uma Copa do Mundo defendendo o Brasil!) e isso não está na conta da pressa dos cartolas. Nessa situação, não tem jeito, é rua.

Fernando Diniz em Barranquilla
O técnico Fernando Diniz não fez um bom trabalho na Seleção Brasileira (Foto: Flickr/CBF)

Acho curioso também esse argumento que diz: ah, você gosta do Diniz porque não é no seu time! Eu continuo acreditando que pessoas adultas, ainda mais a gente que assiste trocentas peladas por semana e fala de bola o dia inteiro, pode ter seus gostos, preferências e prazeres assistindo o esporte independentemente do time que por algum motivo não intencional, lá na infância, você calhou de ser torcedor sabe-se lá direito o porquê. Por favor, né. 

O Campeonato Brasileiro perde um pouco a graça sem seu técnico idealista-controverso e, ainda que a troca tricolor seja corretíssima porque não havia nenhuma pista de novo auge (podia ter sido já depois da fase de grupos da Libertadores), nós, os otimistas, sempre achamos que as grandes histórias podem acabar de um jeito mais bonito que uma nota oficial numa segunda pós-clássico.

Diniz não irá atender ao fetiche dos trabalhos longuíssimos, muito menos irá adequar seu onze para durar três ou quatro anos num vestiário, mas o futebol é o que é, durou quanto tinha que durar, e o campo nos deixa memórias.

O Fluminense campeão da Copa Libertadores é o Fluminense de Fernando Diniz, sem tirar uma vírgula, de reconhecer de longe a assinatura com firma reconhecida, e ainda imprimiu marca própria, chacoalhou o debate, divertiu quem vê futebol, alcançou vitórias incríveis e ganhou o jogo pelo qual tanto se espera. Querem mais o quê? Esteve ótimo, foi um barato.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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