BrasilBrasileirão Série A

Como Tite deu confiança ao Flamengo e trouxe solidez aos três estágios fundamentais

Parte técnica, física e mental do Flamengo melhora muito com a chegada de Tite, que pode conquistar seu primeiro título com dois meses de clube

O Flamengo é outro time desde que Tite assumiu o comando técnico, em outubro. Sob a batuta do ex-Corinthians e Seleção Brasileira, os resultados vieram, a equipe se arrumou e, acima de tudo, ganhou confiança para uma reta final acirradíssima no Campeonato Brasileiro. Tudo isso dentro dos três estágios principais dentro das partidas, citados pelo próprio treinador.

Quando chegou ao Flamengo, Tite confirmou que queria um time sólido na defesa, seguro nas bolas aéreas e eficiente no ataque. Esses três pontos fundamentais passam pelo trabalho do comandante diariamente e, ao longo de mais de 40 dias à frente da equipe, o treinador conseguiu ter avanços importantes nas três frentes. Esse novo Rubro-Negro, confiante e postulante ao título, anima bastante.

Solidez defensiva é inegável

O recorte de jogos é pequeno, sem dúvida, mas já é possível perceber que a defesa do Flamengo está muito mais tranquila. Tite encontrou em Rossi uma solução para o gol e, aos poucos, foi moldando o sistema em volta de Fabrício Bruno e Léo Pereira, disparados os zagueiros mais aptos a se manterem em alto nível na reta final. A lateral até ganhou homens de confiança, mas o revezamento foi mantido. Matheuzinho e Wesley na direita, Ayrton Lucas e Filipe Luís na esquerda.

Os resultados, sem dúvida, impressionam. Dos nove jogos disputados por Tite pelo Flamengo, a equipe sofreu seis gols e não foi vazada em seis desses compromissos. Nos últimos cinco, inclusive, o Rubro-Negro viu a torcida adversária comemorar apenas uma vez, no clássico diante do Fluminense. Fortaleza, Palmeiras, Red Bull Bragantino e América Mineiro não conseguiram o feito.

A defesa do Flamengo passou de peneira à fortaleza com a chegada de Tite (Foto: Jorge Rodrigues/AGIF/Sipa USA)

Os números mais avançados também mostram um Flamengo mais sólido. Os adversários precisam de quase 15 chutes para vazar a meta defendida por Rossi, e a média de gols sofridos é de 0,66 por partida, bem diferente de outros trabalhos. Com Sampaoli, por exemplo, o Rubro-Negro sofria mais de um tento por jogo. O elenco é o mesmo e, segundo o próprio Tite, precisava de mais confiança.

Bola aérea vai da água para o vinho

O jogo aéreo do Flamengo, que também era um problema com Sampaoli, teve mudança drástica para melhor, tanto na defesa quanto no ataque. Olhando para o sistema defensivo, dos seis gols sofridos pelo Rubro-Negro na Era Tite, nenhum veio em cabeçada. Apesar disso, dois tiveram origem direta em jogadas pelo alto, ou seja, ainda há margem para melhora, e os exercícios do quesito são comandados pelo filho de Adenor, Matheus Bachi.

Contra o Santos, em Brasília, a defesa errou no posicionamento — o próprio Tite confirmou em entrevista coletiva — e a bola acabou sobrando para Nonato vencer Rossi e empatar o duelo que seria vencido pelo Peixe. Depois, diante do Fluminense, Filipe Luís não marcou Jhon Árias após cruzamento da direita, Rossi ficou indeciso na hora de sair e Yony González balançou as redes, no único tropeço do Flamengo no período.

Pensando na parte ofensiva, o Flamengo produziu seis dos 16 gols vindos de jogadas aéreas, sendo três de cabeça: Luiz Araújo contra o Grêmio, Arrascaeta contra o Palmeiras e, no último domingo (26), Cebolinha diante do América Mineiro. Os outros tentos vieram em jogadas que envolveram cruzamentos buscando o homem desmarcado.

Cebolinha e Ayrton Lucas celebram o gol que abriu o placar contra o América Mineiro (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Ayrton Lucas diante do Cruzeiro, por exemplo, ficou com a sobra após tentativa de cruzamento de Bruno Henrique para marcar de direita. Pedro balançou as redes contra o Santos em cobrança de escanteio que contou com desvio na primeira trave e complemento na segunda. O terceiro gol do Flamengo contra o Palmeiras também foi do camisa 9, depois de linda troca de passes e ajeitada de cabeça de Gerson, no segundo poste.

Ataque retoma confiança

A retomada do setor ofensivo é a cereja do bolo para comprovar o tamanho do avanço do time de Tite. 16 gols em nove jogos é média de quase dois por partida, algo que é um tapa na cara para aqueles que chamavam o treinador de “retranqueiro” por priorizar o estilo de solidez defensiva. O ataque, curiosamente, pela qualidade das peças, era quem mais precisava da confiança vinda de Adenor.

Pedro era reserva e vinha em baixa com Sampaoli, desde o episódio de agressão do ex-preparador físico, Pablo Fernandez. Atualmente, ele é o artilheiro do Flamengo na Era Tite, com seis gols. Arrascaeta voltou a jogar bem e a demonstrar bom preparo físico. Luiz Araújo ganhou minutos e cresceu, assim como Bruno Henrique, tanto na esquerda quanto na direita.

Pedro comemora seu gol contra o América Mineiro, o sexto desde que Tite assumiu as rédeas do clube (Foto: Gilvan de Souza/Flamengo)

Apesar dos exemplos, o grande símbolo dessa mudança no ataque do Flamengo é Éverton Cebolinha. Contratado por quase R$ 90 milhões, o extremo ainda não havia justificado o investimento, mas tem sido fundamental nessa reta final de Brasileirão. Titular em seis dos nove jogos com Tite, o atacante acumula quatro participações em gol e grandes atuações.

— Não personalizem a evolução de um atleta em cima de um técnico. Não é assim. Isso hiper dimensiona o trabalho de um técnico e isso não é a realidade. O Cebolinha está jogando porque ele é bom. Ele passou por um período de adaptação. Oscila, assim é todo mundo. Nós procuramos dar confiança e trabalhar todos os atletas, essa é a nossa função. Tanto nas relações pessoais quanto profissionais. Isso é a qualidade do atleta — disse o treinador, durante a coletiva após a vitória sobre o América Mineiro.

Toda essa evolução passa por trabalho, trabalho e mais trabalho. Tite teve dois períodos de Data Fifa para treinar e, ao contrário de passagens anteriores, soube aproveitar o tempo para extrair o melhor do time. Como o próprio comandante frisou, todos tem sua parcela, embora sua chegada tenha sido crucial para aliviar a tensão que pairava no Ninho do Urubu. Se não conquistar o Brasileirão em 2023, o cenário para 2024 é animador.

Foto de Guilherme Xavier

Guilherme Xavier

É repórter na cobertura do Flamengo há três anos, com passagens por Lance e Coluna do Fla. Fã de Charlie Brown Jr e enxadrista. Viver pra ser melhor também é um jeito de levar a vida!
Botão Voltar ao topo