Brasil

Tim Vickery: Por que o calendário atrapalha a possibilidade de uma final brasileira na Libertadores

Há muitos jogos, jogos em excesso. Alguns exercem influência nas partidas seguintes

Bem, o calendário local do futebol no Brasil é um esforço permanente de colocar três litros numa garrafa onde só confortavelmente cabem dois. E nem isso conseguiu impedir o domínio recente dos clubes brasileiros na Libertadoresseis vitórias consecutivas, quatro delas com outro brasileiro na final.

No ano passado, o Botafogo conseguiu lutar em duas frentes, ganhando o campeonato local e a taça continental. Então, não se pode explicar a mudança — ou melhor, a possibilidade de uma mudança — com algo que é constante.

Mas é possível que este ano exista um fator diferente.

O peso de um Flamengo x Palmeiras antes da semifinal da Libertadores

Há muitos jogos, jogos em excesso. A maioria passa sem grandes repercussões, mas alguns deixam uma sombra, não são fáceis de esquecer e exercem influência nas partidas seguintes. Um jogo assim foi Flamengo x Palmeiras, no domingo antes dos confrontos de ida das semifinais da Libertadores.

Com os dois times brigando pelo título nacional, não deu para poupar nada. Foi um jogo para valer, em termos táticos, técnicos e psicológicos. E, obviamente, gerou desgaste físico. Não é a maneira ideal de se preparar para uma semifinal da Libertadores — nem mesmo para o vencedor.

Na insignificância da minha opinião, tenho a impressão de que os dois técnicos dos clubes brasileiros erraram em suas escalações no meio da semana. No caso do Palmeiras isso parece bem óbvio — a gente chega lá logo. Mas, de dentro do estádio na quarta-feira passada, fiquei com a sensação de que Filipe Luís poderia ter escalado melhor.

Filipe Luís, técnico do Flamengo (Foto: Imago)
Filipe Luís, técnico do Flamengo (Foto: Imago)

A vitória sobre o Palmeiras foi o momento definitivo da recuperação de Pulgar. O técnico nunca escondeu o seu apreço pelo volante chileno. Filipe Luís enxerga Pulgar como uma extensão dele mesmo em campo. Deu certo contra o Palmeiras. Mas o Racing era um adversário bem diferente.

Defende com uma linha de cinco, o que apresentou ao Flamengo dificuldades. Filipe Luís adora envolver a defesa rival e virar a bola para a segunda trave. Nas quartas de final, estava massacrando o Estudiantes assim até que o adversário colocou um homem para bloquear as subidas de Varela — e o confronto mudou.

O Racing estava preparado para fazer o mesmo. O Flamengo precisou elaborar seu jogo pelo meio. A presença de Saúl seria importante, para costurar os volantes junto com os meias e atacantes. Mas, depois do domingo anterior, Filipe Luís não resistiu ao desejo de colocar Pulgar em campo, e faltou fluidez ao jogo de seu time.

Pelo menos o Flamengo venceu e fica na esperança de repetir a qualidade do desempenho nas oitavas, fora de casa contra o Internacional, quando foi ao Sul defendendo uma vantagem de um gol e controlou o jogo em grande estilo.

O Palmeiras, entretanto, está precisando de um pouco mais. Caiu feio em Quito na semana passada, consequência de algo que nunca imaginei escrever: Abel Ferreira colocou em campo um time absurdamente ofensivo.

Há um toque disso no renascimento inesperado de Abel depois do Mundial de Clubes. Perdeu Estevão. Como fazer Vitor Roque funcionar? O jogador vinha tendo dificuldades para justificar sua contratação. Abel entendeu que Vitor Roque não é um centroavante de verdade. Não gosta de atuar enfiado entre os zagueiros; precisa de espaço.

Então, Abel passou a utilizá-lo atacando a partir do lado esquerdo, abrindo vaga para Flaco López — e a dupla da frente vem funcionando muito bem. Ter dois na frente, claro, reforça a necessidade de marcação no meio-campo. Mas Abel foi para Quito com um meio-campo muito aberto e sem seu lateral-direito que melhor defende.

O técnico conhece as condições de Quito e as dificuldades de jogar na altitude: a necessidade de manter-se compacto, correr o mínimo possível e aguardar o momento certo para atacar. Mesmo assim, escalou um time inadequado para o desafio.

Abel Ferreira, técnico do Palmeiras (Foto: Gazeta Press)
Abel Ferreira, técnico do Palmeiras (Foto: Gazeta Press)

Por que? Imagino que a derrota para o Flamengo tenha sido dolorosa, e o técnico chegou à conclusão de que o caminho certo era dar um voto de confiança ao time. Trocou alguns jogadores, mas a ideia básica permaneceu a mesma. Estava passando uma mensagem — perdemos um jogo importante, mas isso não abala nossa fé no caminho. Teria feito o mesmo com um resultado melhor contra o Flamengo? Duvido. Errou, e a LDU aproveitou.

O segredo dos pontos corridos é como o time reage depois de uma derrota. Mata-mata é mais cruel: uma derrota pode acabar com o sonho. O Palmeiras vai a campo na quinta-feira precisando marcar pelo menos três vezes contra um adversário que não leva gol no torneio desde os 13 segundos do primeiro jogo das oitavas de final, contra o Botafogo. Desde lá, cinco partidas, todas contra brasileiros, e nenhum gol sofrido.

Difícil? Claro. Impossível? De jeito nenhum. A LDU é um time com média de idade avançada. Contra a pressão de um Palmeiras agora obrigado a ser ofensivo, vai aguentar os 90 minutos? Na semana passada, ficou feliz em administrar a vantagem conquistada no primeiro tempo. Não saiu para matar o confronto. Agora, terá de defender ainda melhor do que fez contra Botafogo e São Paulo.

Uma final brasileira na Libertadores, então, continua sendo uma possibilidade. Daqui a um mês, poderemos estar prevendo uma decisão entre Flamengo e Palmeiras — um confronto que, como bem sabe Andreas Pereira, deixa uma sombra maior do que a do jogo recente no Maracanã.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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