Paulo Jr: Flamengo do totó de Porto Alegre é favorito na Libertadores – do caos em BH também
Agressão a Pedro pode criar turbulência, mas dificilmente tira o Flamengo do posto de favorito na Libertadores pelo que o time produz em campo
Corria a metade do segundo tempo na Arena do Grêmio (que falta fazem os nomes de estádio) quando o Flamengo, vencendo por 2 a 0, desperdiçando um pênalti e com um jogador a mais, levou a campo Allan, Everton Cebolinha e Pedro, evento historicamente trivial, substituições num jogo de futebol, nada de notável, só um registro de ficha técnica, mas que firmou a superioridade do time visitante na noite de quarta-feira, um 2 a 0 de jogo de ida que, se em tese é reversível, pareceu definitivo.
Sintomática a repercussão da mexida tripla. Falou-se dos gols flamenguistas, da resposta num jogo de grande exigência fora de casa, da sinceridade de Renato Gaúcho ao admitir, pelo lado derrotado, que a eliminatória praticamente foi para o brejo. Mas contar a história da vitória rubro-negra é também citar que nenhum time hoje no continente, e talvez pouquíssimos em toda a história, tiveram tantas opções de primeiro nível no elenco.
Do remédio ao veneno
Acontece que, conta o ditado, a diferença entre o remédio e o veneno está na dose, e o banco cheio no Flamengo é, gotas para cá ou para lá, seu maior trunfo e seu grande estorvo. Três dias depois, aquela mesma possibilidade de ter um atacante mundialista no banco de reservas, luxo de Porto Alegre, se rompeu em incômodo e terminou numa absurda agressão de um membro da comissão técnica, um soco do preparador físico Pablo Fernández em Pedro após outra grande vitória, a virada sobre o Atlético-MG em Belo Horizonte no sábado.
Não é preciso se alongar sobre a reação descabida do parceiro do técnico Jorge Sampaoli, já desligado do clube – não tem cabimento um jogador levar um soco de alguém do próprio clube no vestiário. Também entra na conta que Pedro demonstra alguma dificuldade em lidar com a falta de protagonismo no time ao se recusar a ir para o aquecimento no fim de semana e escancarar sua bronca depois de ser titular nas conquistas do ano passado e chegar, com méritos e quase por unanimidade, numa prateleira de seleção brasileira em Copa do Mundo. Mas voltemos à causa.
Cuidar do elenco do Flamengo é um trabalho árduo, desgastante, que não deu conta de abrigar recentemente, por exemplo, Marinho e Vidal, com passagens aquém do esperado e uma dose de reclamação ao microfone (ou às redes sociais). Mas também não dá para dizer que eles farão falta nesta reta final de temporada. É um clube que primeiro contrata e depois entende como lidar com tanta gente graúda, que teria maior espaço na maioria dos concorrentes. A estratégia aqui é sempre ter talento à disposição, não importa a redundância. Contrata, depois a gente vai vendo.
Mas acontecem aí duas situações muito particulares nesse contexto. Primeiro a constante troca de técnicos, o que torna esse papo interno sempre efêmero. Pedro, por exemplo, já pegou Jorge Jesus, Domenec Torrent, Rogério Ceni, Paulo Souza, Dorival Junior, Vitor Pereira e agora Jorge Sampaoli. São sete técnicos que tiveram de conviver com a pergunta sobre a possibilidade de o centroavante ter espaço no ataque memorável que o recebeu. Dá uma média de um por semestre, um eterno recomeço, de tempo em tempo precisando construir novas relações diante de novos padrões de comportamento e de esquema tático.
Segundo, a concorrência desproporcional. Pedro disputa posição não com um quarteto ofensivo, mas com um verdadeiro museu rubro-negro. São jogadores históricos, estátuas do jardim do clube, como se Hulk chegasse num Atlético-MG com Reinaldo, Raphael Veiga fosse contratado no time de Ademir da Guia ou Tiquinho Soares desembarcasse no Rio de Janeiro para atuar na linha de Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagallo. É difícil.
Até acho que jogadores especiais merecem ter o cuidado dos treinadores, e vejo certa razão quando alguns reclamam da falta de atenção e pertencimento junto ao projeto dos técnicos, principalmente se no caso de um cara de Copa no banco. Mas o camisa 9 sempre soube que o espaço ali era curto para ele.
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Certa dose de desordem faz parte do DNA flamenguista
Acontece que, passado a excessiva reação no vestiário do estádio Independência, fica claro que uma dose de desordem também faz parte no DNA da megalomania flamenguista, um sentimento sem muitas concessões na arquibancada, na provocação aos rivais e no jeito de seguir a paixão.
O desafio é achar um torcedor rubro-negro que esteja desconfiado com o desempenho do time para quinta-feira, na abertura do mata-mata da Libertadores contra o Olímpia. Mais fácil é acreditarem que agora sim os paraguaios se deram mal, como se um Flamengo fosse também um pouquinho de loucura, à parte os benefícios da estabilidade.
É difícil cravar qual o resultado de tudo que aconteceu dentro das nuances de uma certa ética de vestiário. O comandante Sampaoli, que continua no cargo apesar da queda de um membro da sua equipe técnica, fez um pronunciamento público insuficiente, pela tangente. O clube também não formalizou uma defesa a um atleta agredido durante o trabalho.
Alguns jogadores acompanharam Pedro, outros não exerceram tamanha solidariedade com o colega. Os níveis de confiança e de humor do elenco, naquela corrente pré-jogo, numa comemoração de gol ou numa entrevista de saída de campo, ficarão mais evidentes na próxima noite de Maracanã.
De toda forma, a vitória na Copa do Brasil com a autoridade que remete aos melhores tempos aumentou o otimismo. Impressionante, aliás, como esses grandes jogos não acontecem com a frequência que o torcedor gostaria (até porque seria impossível, a demanda de ser um timaço quarta e domingo é irreal), mas estão aí, atendendo quando mais se precisa.
É o futebol de Porto Alegre, apoiado no elenco estrelado, que credencia o Flamengo como favorito a conquistar mais uma edição de Copa Libertadores – não único, claro. Com a impressão de momento que o alvoroço de Belo Horizonte até tem chances de marcar como turbulência, mas pode acabar só como tempero, detalhezinho na farra que o flamenguista, esse exagerado por essência, faz como ninguém.



