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Filpo Núñez: o argentino que fez história na Seleção, mas virou folclore

Comandar a Seleção é um sonho para qualquer técnico brasileiro. Que também já foi realizado por um argentino de nascimento, mas brasileiro de coração. Nelson Filpo Núñez é o único treinador estrangeiro a assumir sozinho a direção da equipe nacional. Por apenas um jogo, é verdade, mas com todos os méritos: ele é considerado o técnico que conseguiu o futebol mais bonito de uma das melhores equipes da história do futebol brasileiro, a primeira Academia do Palmeiras.

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Foi o ponto alto de uma carreira tortuosa. Filpo chegou ao Brasil por amizade e, por seus feitos, se arrastou graças à fama. Para alguns, foi genial pela forma como botava o time no ataque e mexia com o psicológico dos jogadores, ainda que muita gente também o chamasse de embromador. Por tudo o que fez, está no folclore do esporte do país, e com um feito pela Seleção que ainda o torna inigualável.

Pedindo emprego no Brasil

A carreira de Nélson Ernesto Filpo Núñez antes de chegar ao Brasil foi mediana. O argentino tentou emplacar como jogador a partir do fim da década de 1930, sem tanto sucesso. Em 1948, aos 28 anos, começou a trabalhar como técnico, comandando o Independiente Rivadavia. Depois de conquistar títulos municipais em Mendoza, partiu para o Santiago National, pegando o diploma de treinador na capital chilena. Rodou pela América do Sul, passando também por Peru, Equador, Bolívia e Venezuela.

Em Quito, chegou a treinar a seleção equatoriana, ao mesmo tempo em que conseguiu se formar em educação física. Depois, ainda passou pelo Sport Boys, onde revelou o atacante Juan Seminário, que fez sucesso no Barcelona, na Fiorentina e no Sporting. Quando trabalhava no Deportivo Municipal, da Bolívia, conheceu o brasileiro Tim, que treinava o Bangu em excursão por La Paz. A ponte para vir ao Brasil.

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A chegada de Filpo Núñez ao país aconteceu em 1955, graças à amizade que tinha com Martim Francisco, então treinador do Atlético Mineiro e que conheceu através de Tim. Foi até o Cruzeiro, onde pediu emprego o presidente José Greco. Porém, não teve vida longa em Belo Horizonte, em tempos nos quais o Galo vivia seu pentacampeonato mineiro. De qualquer forma, a Raposa serviu de porta de entrada para outros clubes. Na sequência, o treinador foi levado pelo Atlético Paranaense, onde acumulou resultados medianos. E começou a ganhar relevância nos diversos trabalhos que fez pelo Estado de São Paulo, passando por Guarani, Jabaquara, América e Portuguesa Santista. Chegou a ser eleito o melhor técnico do Estado em 1957, em votação realizada pelos cronistas esportivos paulistas.

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Em Santos, Filpo Núñez conquistou os seus principais resultados na década de 1950. Pelo Jabaquara, venceu o Santos do menino Pelé por 6 a 4, em virada que lhe rendeu o apelido de Don Nelson. Com a Portuguesa Santista, fez uma vitoriosa campanha em excursão à África, recebendo a Fita Azul por vencer os 15 amistosos que fez em Angola, Moçambique e África do Sul. Chegou até a ser cogitado no Corinthians, algo que não se concretizou. Pouco depois, retornou ao Jabaquara para salvá-lo do rebaixamento no Campeonato Paulista, e conseguiu. O resultado para que fosse convidado para assumir o Vasco em 1960.

O caminho até o Palmeiras

Filpo foi a opção a Ondino Viera, que acabara de deixar o Nacional de Montevidéu, após três títulos nacionais, mas não se acertou com antigo clube. O argentino desembarcou a São Januário pouco conhecido, mas tentando impor os seus métodos. “A espontaneidade e a naturalidade são condições essenciais à prática do esporte”, disse ao Jornal do Brasil em junho de 1960, mostrando-se contrário a uma militarização no treino dos jogadores. Sobretudo, defendia a valorização individual do jogador, em um meio termo com as determinações dos esquemas táticos. Queria um futebol mais solto, algo que podia se perceber nas suas equipes.

FUTEBOL - FILPO NUÑES

De início, Filpo Núñez até deixou boa impressão. Era um choque de realidade depois da passagem do linha dura Yustrich. A questão é que os resultados não apareceram de imediato e o argentino passou a enfrentar uma crise interna – ficando até sob ameaças de agressão, segundo o Jornal do Brasil. Já em agosto, a derrota para o Canto do Rio foi a gota d’água para a sua demissão.

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Na sequência, mais um período em que Filpo Núñez rodou sem se firmar em muitos clubes. Esteve outra vez à frente do Jabaquara, trabalhou no futebol português e voltou à Portuguesa Santista. E a Briosa serviu de trampolim de novo. Em novembro de 1964, o argentino foi anunciado como o novo técnico do Palmeiras, substituindo Mario Travaglini. Era um período glorioso no Palestra Itália. Os alviverdes haviam conquistado o Campeonato Paulista de 1963, enquanto o técnico dirigiu a equipe nas últimas rodadas do estadual de 1964, ficando atrás apenas do Santos de Pelé.

A Academia de Filpo Núñez

A passagem de Nelson Filpo Núñez pelo Palmeiras foi relativamente curta, diante das marcas que deixou. O argentino é considerado por muitos como o principal responsável pela primeira Academia palmeirense, especialmente pela forma como o fez render no ataque. A troca de passes rápida e vertical implantada pelo técnico era conhecida como “carrossel”, enquanto ele mesmo dizia que seu esquema era o “pim, pam, pum, gol” – a onomatopeia que traduzia os toques de primeira, em progressão. “Sempre fui favorável ao jogo ofensivo. Uma equipe pode sofrer até cinco gols, mas tem que criar condições para ganhar de sete”, analisava.

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É verdade que o elenco que tinha à disposição facilitou a vida de Filpo Núñez no Palmeiras. Sua estreia aconteceu justamente em um duelo contra o Santos, e com vitória dentro da Vila Belmiro. Ademar e Tupã, duas vezes, marcaram os tentos no triunfo de 3 a 2. Em campo com a camisa alviverde naquele confronto estavam lendas do porte de Djalma Santos, Djalma Dias, Dudu, Zequinha, Servílio e Valdir. Ademir da Guia e Julinho, os maiores talentos individuais daquele time, sequer jogaram. Do outro lado, o Peixe tinha Zito, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Um ótimo início, para mostrar o que o argentino seria capaz de fazer no Palestra.

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Para tirar o melhor de suas peças, Filpo Núñez se aproveitava da sua principal característica como técnico: a motivação. Como poucos, o argentino sabia usar o psicológico e incentivar seus atletas dentro de campo. Além disso, a forma como preparava as jogadas ensaiadas nos treinos se sobressaía nas partidas. E dizia-se que sua capacidade para transformar o resultado de um jogo era enorme, apenas pelas mudanças que realizava no time.

A grande conquista do Palmeiras de Filpo Núñez foi a conquista do Torneio Rio-São Paulo de 1965, no primeiro semestre de 1965. E a campanha dos alviverdes foi praticamente impecável, conquistando os dois turnos da competição. No primeiro, sete vitórias e dois empates, incluindo um marcante triunfo sobre o Botafogo por 5 a 3 no Maracanã. Já na metade final do certame, apenas o Flamengo conseguiu derrotar a Academia, com cinco vitórias em sete rodadas. Os alviverdes eram campeões com um ataque de 49 gols – 17 a mais que o segundo melhor, o botafoguense, e isso com apenas 16 jogos disputados.

O dia em que o Palmeiras vestiu o amarelo da Seleção

A relevância do Palmeiras era tão grande na época que levou a um convite honroso da CBD. O time foi chamado para representar a seleção brasileira em uma partida. E não era qualquer jogo: os alviverdes inaugurariam o Mineirão, em duelo contra o Uruguai. No dia 7 de setembro de 1965, os palmeirenses venceram a Celeste por 3 a 0, com gols de Rinaldo, Tupãzinho e Germano. Nelson Filpo Núñez se tornava o primeiro – e, até hoje, o único – técnico a dirigir sozinho a Seleção.

90 ANOS DE PALMEIRAS

Antes de Filpo, outro forasteiro passou pelo banco de reservas da seleção brasileira antes, é verdade: o português Joreca, em 1944. O detalhe é que o lisboeta, radicado no Brasil desde a juventude, dividiu por dois jogos a função com Flávio Costa, que seguiu no cargo a partir de então, até a Copa de 1950. A noção é a de que Joreca acabou sendo mais um técnico-adjunto nas duas vitórias sobre o Uruguai. O que não tira os seus méritos na função. Jornalista esportivo, formou-se em educação física e tornou-se um dos grandes técnicos do futebol paulista na década de 1940. No comando do São Paulo, conquistou três títulos estaduais, dirigindo o time estrelado por Leônidas da Silva. Já em 1950, fazia bom trabalho no Corinthians quando faleceu, vítima de um ataque cardíaco.

Logo depois de fazer história, entretanto, Filpo Núñez deixaria o Palmeiras. Sua primeira passagem pelo clube se encerrou pouco mais de um mês depois da partida no Mineirão, em 13 de outubro de 1965. Os resultados no Campeonato Paulista não eram bons, com os alviverdes distantes da briga pelo título. E o argentino acabou sendo sacado pela diretoria, substituído por seu então assistente Mario Travaglini. Segundo o próprio diretor de futebol do clube na época, Ferrucio Sandoli, “a saída de Filpo é uma coisa natural no futebol, porque todo o time que mantém um técnico por muito tempo termina por se enfastiar” e que “progressivamente, Filpo teve de ir concedendo licença aos jogadores e acabou perdendo prestígio, já não sendo encarado com muito respeito nos últimos tempos”.

Mais enrolação do que resultados

A Academia do Palmeiras foi mesmo o grande feito de Nelson Filpo Núñez no futebol, antes de começar uma carreira errante por vários clubes. Na sequência, passou por XV de Piracicaba e América de São José do Rio Preto, antes de ser levado ao Corinthians para substituir Osvaldo Brandão. No Parque São Jorge, porém, o argentino teve vida curta. Chegou a liderar o Campeonato Paulista de 1966, mas não durou mais do que quatro meses, sacado em dezembro daquele ano por causa da sequência de resultados ruins. Ficou mais marcado pela relação difícil com Garrincha, relegado ao banco de reservas pelo técnico no alvinegro.

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Filpo não conseguia passar mais de um ano em cada clube. No Galícia, foi vice-campeão baiano em 1967, derrotado pelo Bahia no jogo-desempate. Depois, também teve relativo sucesso no Palmeiras, em nova passagem que durou de 1968 e 1969. Foi vice-campeão do Torneio Rio-São Paulo de 1969, em um time que embalou na campanha e ganhou o apelido de Ciclone – por causa das ordens de Filpo, para que os jogadores “girassem” em suas posições. Contudo, foi só tempestade de verão e logo o argentino teve que arrumar suas malas do Palestra outra vez.

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No Coritiba, chegou a emendar uma boa sequência invicta no Campeonato Paranaense de 1970, mas os problemas internos levaram à demissão – rumores depois apontavam que ele exigia parte das luvas dos jogadores. E se queimou ainda mais quando retornou ao Cruzeiro, em 1970 – com um timaço à sua disposição, incluindo Tostão, Piazza, Dirceu Lopes, Fontana e Natal. Filpo Núñez tentou aplicar o seu carrossel na equipe celeste, mas o esquema foi por água abaixo. A psicologia também não funcionou com os jogadores do clube mineiro e, quase eliminado do Robertão, foi mandado embora.

Tamanha era a desconfiança com Filpo Núñez que, em 1971, a revista Placar escreveu: “É um dos técnicos que mais dividem opiniões no Brasil. Uns acham um profundo conhecedor; outros, o maior embromador que já apareceu no Brasil. Argentino de nascimento, Filpo já dirigiu os maiores times do Brasil. De qualquer maneira, teve sucesso em uns e foi um desastre em outros”. Milongueiro era o adjetivo que mais se relacionava ao argentino, que era notado pelas roupas extravagantes que vestia à beira do campo, pelos gestos exagerados e pelo portunhol embromado.

O fim do folclore

A reta final da carreira de Nelson Filpo Núñez foi cercada apenas por “causos”, embora ainda tenha ganhado novas oportunidades no Corinthians e no Palmeiras. Também rodou pelo exterior, contratado por clubes como Vélez Sarsfield, Leixões, Badajoz e Monterrey, mas não convenceu muita gente no exterior. A partir do final dos anos 1970, rodou por clubes do interior do Brasil, marcante apenas pelo folclore.

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Em 1979, era tratado como um show no Araçatuba. “Onde quer que ele chegue, é atração. Com seu estilo espalhafatoso, diverte e às vezes até impressiona”, descreve a Placar de setembro daquele ano. “No campo, ao orientar o coletivo, ele é o espetáculo. Faz pose, grita misturando castelhano com português, interrompe jogadas, dá instruções abraçando paternalmente os jogadores e tira frases de efeito: ‘Se não chutam em gol, não fazem gol nem ao arco-íris’”. No mesmo ano, foi para a sua segunda passagem pelo São José, que investia pesado para conseguir o acesso no Paulistão. De chapéu panamá em um clássico decisivo contra o Taubaté, foi alvejado por bagaços de laranja no Joaquinzão.

Talvez o momento mais peculiar aconteceu no Catuense, da Bahia, no qual permaneceu por apenas 45 minutos no banco de reservas antes de desaparecer. Mesmo assim, foi levado ao Sport em 1983, em meio a uma crise vivida pelo clube, após ser indicado por Rubens Minelli. “Ele é catimbeiro, experimentado e muito vivido”, justificava o diretor de futebol Mílton Bivar, em entrevista a Placar. Outro espetáculo fugaz do comandante, apesar de causar um impacto inicial.

FUTEBOL - FILPO NUÑES

Já em 1986, a despedida dos holofotes aconteceu no Fabril, de Minas Gerais. Chegou a derrotar Atlético e Cruzeiro em uma mesma semana, levando o time de Lavras ao segundo lugar no Mineiro. “Eu sou um ídolo. Se aceitasse todos os convites para almoços e jantares, já estaria com 120 quilos”, se vangloriava. Para ver seu time, caminhões paravam no entorno do Estádio Juventino Dias e transformavam suas carrocerias em arquibancadas, cobrando até ingressos para aumentar a capacidade de 3 mil espectadores da casa. Terminou em sexto naquela campanha

“Enfiamos 3 a 0 no Uruguai. Depois do jogo, me sentia como se nada mais tivesse a fazer no futebol”. Uma das frases mais célebres do homem que dizia ter introduzido o carrossel antes da seleção holandesa, mas que só tentou se aproveitar dessa fama a partir da Academia. Filpo Núñez perdeu o seu dinheiro no jogo. Pobre, morava na favela de Heliópolis, onde ensinava meninos em uma escolhinha de futebol. Morreu em 1999, aos 78 anos, transformado mais em folclore do que em lenda.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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