Brasil

Fernando Prass: o goleiro que conseguiu suceder um Santo e que mereceu o amor de mais de uma torcida

Fernando Prass já afirmou que era torcedor do Grêmio na infância. Poderia existir uma versão de sua carreira que é a perfeita narrativa do garoto que chega ao clube do coração, espera a chance, triunfa, vira ídolo dos seus pares. A realidade é raras vezes tão perfeita. Preterido por Danrlei, teve que sair para encontrar o seu espaço antes de fazer o primeiro jogo entre os profissionais. Os planetas nunca se alinharam para que voltasse. Um dos sonhos que não conseguiu realizar. Outro foi mais cruel: teria sido o goleiro da primeira medalha olímpica da seleção brasileira não fosse o corte por lesão. De resto, porém, a trajetória que encerrou na última quinta-feira foi muito satisfatória. Conquistou títulos nos clubes pelos quais passou, e, principalmente, o respeito das torcidas que representou.

Talvez seja exagero dizer que foi ídolo de todas elas. Certamente foi de algumas. Não cabe discutir os pormenores de algo tão particular. Cada um sabe quem ama e o quanto ama. Fato é que, enquanto vestia cada uma das camisas que vestiu, foi um dos favoritos da arquibancada. Sempre teve uma postura exemplar. Sempre foi muito inteligente e respeitoso com os clubes que defendia. E, não menos importante, foi um goleiro bom para caramba. “Pô, eu consegui chegar no Coritiba e ser reconhecido, no Vasco, chegar e ser reconhecido, no Palmeiras… chega até ser surpreendente, sinceramente”, afirmou, em entrevista ao UOL, antes de começar a sua história pelo Ceará – no qual também foi bastante reconhecido.

Após um empréstimo à Francana, Prass foi campeão goiano pelo Vila Nova em 2001. Chamou a atenção do Coritiba, pelo qual começou a se destacar em cenário nacional. Ganhou mais duas taças estaduais, nos Paranaenses de 2003 e 2004, e foi um dos destaques do quinto lugar do Coxa que valeu vaga na Libertadores. Saiu para a União de Leiria, após quase quatro anos de muito sucesso. Defendeu as balizas de Jorge Jesus no começo de uma ótima campanha que terminou em sétimo lugar no Campeonato Português. Perdeu espaço, mas emendaria duas temporadas como titular. Na segunda delas, foi rebaixado, como lanterna, mas ficou apenas seis meses na segunda divisão portuguesa antes de voltar ao Brasil para defender o Vasco na… segunda divisão brasileira.

Não demorou muito tempo para ganhar a vaga de titular e cair nas graças da torcida. Acabou sendo um dos jogadores mais identificados com ela no último time forte do Vasco antes de uma sequência de três rebaixamentos em oito anos. Em um total de 248 partidas com a camisa cruz-maltina, conquistou seu principal título até aquele momento. O adversário da final da Copa do Brasil de 2011 seria justamente o seu ex-clube, um Coritiba que fazia um começo de temporada fantástico, com 24 jogos de invencibilidade e que havia feito 6 a 0 sobre o Palmeiras nas quartas de final. O primeiro título de primeira divisão do Vasco desde 2003 foi conquistado com vitória por 1 a 0 em São Januário e derrota por 3 a 2 no Couto Pereira.

Valeu também o retorno do Vasco à Libertadores, que não disputava desde 2001. Prass chegou a fazer boas defesas nas quartas de final de 2012, em cabeçada de Paulinho (outra, não aquela) e em um chute à queima-roupa de Emerson Sheik. Mas nenhuma tão boa quanto a de Cássio contra Diego Souza – o lance, inclusive, começa em um soco do goleiro vascaíno -, nem conseguiu parar aquela cabeçada de Paulinho. No fim daquele ano, incomodado com o excesso de salários atrasados, pediu a rescisão do seu contrato. Escaparia do segundo rebaixamento do Vasco, consumado em 2013, mas não escaparia de mais uma temporada na Série B.

Prass tinha mercado para não precisar passar novamente pela segunda divisão, mas o Palmeiras tinha alguns atrativos. Uma “proposta irrecusável” era certamente um deles. Outro era poder disputar a Libertadores de 2013, privilégio de ter sido campeão da Copa do Brasil no mesmo ano em que o clube caiu pela segunda vez. Por outro lado, a responsabilidade que assumia era imensa. Ao contratá-lo, o Palmeiras desistia de confiar na sua academia de goleiros para substituir Marcos. Bruno e Deola não haviam se mostrado à altura. Foi o primeiro jogador da posição trazido de fora desde 1994, e a sombra do Santo foi um ponto de discussão em seus primeiros anos na Pompeia.

E o Palmeiras era um gigante adormecido. Ou, pelo menos, Prass achava que era, embora não fosse tão claro naquele momento – nem mesmo aos torcedores alviverdes. “Quem não aceitou jogar no Palmeiras na segunda divisão vai se arrepender”, afirmou à TV Gazeta. “É impensável um clube como o Palmeiras na segunda divisão. São coisas momentâneas. Pela estrutura e camisa, não é o lugar do clube. As coisas para o ano que vem serão muito boas: tem o centenário, a inauguração de uma arena espetacular e sensacional. A torcida está com muita expectativa por esses fatores, 2014 tem tudo para ser um ano maravilhoso”.

Bom…. não foi. Em parte, porque Prass se machucou, e o Palmeiras voltou a sofrer com goleiros pouco confiáveis. A experiência com Ricardo Gareca não deu certo, Valdivia não conseguia ficar em campo, e o rebaixamento parecia inevitável. A situação era tão crítica que ele abriu a caixa de analgésicos e foi para campo antes mesmo de estar completamente recuperado. “Não tinha para onde correr”, disse, à ESPN Brasil. “O time estava em uma fase muito complicada e, se fosse levar de uma maneira mais normal, eu teria voltado muito depois por causa das limitações que a dor me causava. Até o final do ano eu tomava um coquetel de remédios analgésicos para treinar e jogar. Quando acabava o treino, e o efeito do remédio passava, a dor ficava quase insuportável. Mas era necessário que tivesse um sacrifício naquela situação. Não podíamos esperar mais. Se esperássemos, talvez estaria numa situação pior”.

No fim, a terceira queda foi evitada por um triz, e a projeção econômica do goleiro se confirmou. Paulo Nobre havia equalizado as contas, com dinheiro do próprio bolso e uma austeridade que quase causou o rebaixamento no centenário do Palmeiras. O ano de 2015 começou com perspectivas melhores. Alexandre Mattos montou um time completamente novo. Poucos ficaram: Valdivia, Prass e a garotada. E depois de roer o osso da Série B e também o osso de uma péssima temporada, Prass teria o filé. Subiria de patamar pelo mesmo caminho que a sua sombra havia se consagrado: defendendo pênaltis. E do Corinthians. Pegou dois na semifinal do Campeonato Paulista daquele ano.

O título estadual bateu na trave. A grande campanha de Prass com a camisa do Palmeiras, a que realmente o solidificou como ídolo, foi na Copa do Brasil. Defendeu pênalti de Gustavo Scarpa na semifinal contra o Fluminense, mas a sua melhor defesa havia sido contra Fred, ainda com a bola rolando, porque, sem ela, o Palmeiras provavelmente teria sido eliminado. A decisão contra o Santos foi tão nervosa quanto uma decisão pode ser. O Palmeiras levou um baile na Vila Belmiro, poderia – e até deveria porque Gabigol perdeu um pênalti, e Nilson, um gol incrível – ter perdido por mais de 1 a 0. Prass fez defesas importantes.

No Allianz Parque, a vitória por 2 a 1 levou a definição do título novamente à marca do cal. O Palmeiras havia sido campeão da Copa do Brasil em 2012. E caiu alguns meses depois. Mas, em 2015, o grito de campeão teria outro significado: mais estruturado economicamente, com um time melhor e um projeto mais sólido, o grito seria um anúncio de que estava de volta. E se isso é verdade, a principal imagem desse momento divisor de águas na história do Palmeiras tem Prass como protagonista. Correndo, com os braços abertos, após cobrar o pênalti decisivo. “Eu não ia bater se não estivesse preparado. Eu não seria louco, seria irresponsável se eu pegasse a bola e fosse bater, mas eu tinha treinado muito, muito, muito”, afirmou, na entrevista ao UOL.

A lesão no cotovelo que sofreu em 2016 foi duplamente cruel. Além de retirar a sua chance de ser campeão olímpico – e não haveria outra para defender a seleção brasileira -, o retirou da segunda metade do Campeonato Brasileiro em que o Palmeiras encerrou o seu jejum de 22 anos. Entrou nos minutos finais da partida final, contra a Chapecoense, apenas para levantar a taça. A situação ainda lhe gerou dois concorrentes: Jaílson, que segurou muito bem a bronca na sua ausência, e Weverton, que foi convocado para seu lugar na delegação olímpica e depois chegaria ao Palmeiras para assumir de vez a posição.

Atuou pouco nos últimos dois anos de clube. Ainda assim, quando foi requisitado, compareceu, como contra o Júnior Barranquilla, ou contra o Novorizontino, com novas defesas de pênaltis. Com a ascensão de Weverton, a diretoria do Palmeiras precisava decidir entre Prass e Jaílson para ser o goleiro reserva. Preferiu Jaílson. Nada contra, ótimo goleiro, parece ótima pessoa, mas Prass havia feito por merecer se aposentar pelo Palmeiras, e se para isso Jaílson tivesse que sair, que assim fosse. Não se abre mão de ídolos do tamanho de Prass por questões financeiras, ainda mais da maneira como foi feito, uma mágoa que ele ainda carrega – Mattos deu sua versão da história também.

Aos 41 anos, Prass estava sem clube e havia atuado muito pouco em duas temporadas. Parecia a hora certa de se aposentar, mas ele ainda queria mais uma experiência. Dificilmente poderia ter escolhido um clube melhor para tê-la do que o Ceará, organizado, estruturado, em ascensão no cenário brasileiro e com uma torcida apaixonada. Acrescentou mais um título ao seu currículo, a Copa do Nordeste invicta, e foi titular na primeira metade do Campeonato Brasileiro antes de perder a posição para Richard, após algumas atuações oscilantes.

“Eu sou um privilegiado por jogar até aos 43 anos em alto nível, na primeira divisão, por um clube grande. Ainda mais privilegiado por ter encerrado minha carreira sendo campeão, como eu comecei. Para mim foi uma alegria enorme. Uma aposta mais que acertada (jogar no Ceará)”, afirmou, na entrevista coletiva após o jogo contra o Botafogo, na quinta-feira, a última de sua carreira.

Uma carreira que não lhe deu todas as glórias possíveis, mas o permitiu escrever uma história bonita em clubes do norte ao sul do país, mesmo que com percalços aqui e ali. Ser campeão da Libertadores é para poucos. Defender a seleção brasileira é para poucos. Mas ser respeitado e adorado como Fernando Prass também é.

.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo