Felipão, chegou a hora de você dar um tempo
Foi assustadora a atuação do Grêmio contra o Coritiba, no final de semana. Uma equipe desorganizada, fria, com defesa frágil e ataque estéril. Nem parecia ser treinada por Luiz Felipe Scolari, que no mínimo sempre conseguiu inspirar os seus jogadores a deixarem todas as suas gotas de suor no campo antes de aceitarem a derrota. Mas esse poder de Felipão parece pertencer cada vez mais ao passado. Nesta terça-feira, ele pediu demissão, segundo o presidente gremista Romildo Bolzan Júnior, que aceitou sem pestanejar.
LEIA MAIS: Erazo é forte candidato a ter marcado o gol contra mais grotesco do Brasileirão
Grêmio e Felipão separaram-se antes da iminente tragédia, o que já é mais do que se pode dizer da passagem do treinador pelo Palmeiras e pela seleção brasileira. Se conquistou a Copa do Brasil no Palestra Itália, também apontou o time na direção do rebaixamento. Não sentimos a necessidade de lembrar o que aconteceu na Copa do Mundo. As três camisas que mais conquistaram títulos com Scolari também viram-no naufragar. E como o capitão de um navio italiano, distanciou-se ainda mais dos seus jovens comandados quando abandonou o barco antes do final da derrota para o Veranópolis na Arena Grêmio. Ao mesmo tempo, surgiram reclamações dos garotos do clube sobre os métodos do técnico. A situação era ruim e não melhorou. Felipão não teve poder de reação em um clube com disputas políticas, elenco enfraquecido e contas comprometidas pela construção de um novo estádio.
Os problemas do Grêmio amenizam um pouco o trabalho ruim de Felipão, mas não muito, porque nem o básico ele conseguiu fazer. Em algum momento uniu o grupo? Motivou-os a correrem aqueles três quilômetros a mais por partida? Foi um líder, de fato? Em pouquíssimos. Os métodos que consagraram o treinador não estão mais funcionando. Chegou a hora dele dar um tempo para repensá-los e atualizá-los, se achar que deve.
Foram sete anos longe do Brasil, tempo suficiente para muita coisa mudar, tanto no futebol, quanto na sociedade. Não dá mais para apostar apenas na mística. Jogadores jovens e que não trabalharam com Felipão têm mais resistência a comprar o seu discurso. Primeiro, porque soa antiquado. Segundo, porque, por mais vencedor que ele tenha sido no passado, é impossível sofrer uma derrota por 7 a 1 em uma semifinal de Copa do Mundo, em casa, sem arranhar a sua imagem e o seu prestígio.
Nenhum técnico é desprovido de conhecimento tático, mas esse nunca foi o forte de Felipão. A sua grande arma era a motivação, e o futebol brasileiro já criou alguns anticorpos contra ela. O único técnico do Campeonato Brasileiro com o perfil mais ou menos parecido é Hélio dos Anjos, também da velha guarda. Mesmo que ele conseguisse injetar adrenalina nas veias dos jogadores do Grêmio, apenas isso não funciona mais.
Cães velhos dificilmente aprendem truques novos, mas no mínimo Felipão deveria analisar o que o lado bem sucedido do mundo do futebol está fazendo ultimamente e descobrir como adaptar os seus próprios métodos a isso. Não precisa necessariamente tirar foto com Carlo Ancelotti, mas ao menos espairecer, limpar a cabeça e deixar a poeira abaixar. Assumir outro clube, mesmo o Grêmio, logo após a Copa do Mundo provou-se um erro. Ele talvez tenha subestimado o desafio que tinha pela frente ou superestimado a sua capacidade de lidar com ele.
Aposentadoria é uma decisão pessoal e ninguém tem que se meter com isso. Nunca direi que alguém deveria parar de exercer a profissão que ama. Ele pode muito bem ainda se sentir empolgado com o dia a dia, o carinho dos torcedores, o desenvolvimento de jovens atletas, aquele friozinho na barriga antes das partidas ou até mesmo a relação com a imprensa (ok, essa última foi um pouco forçada). O bom de estar na história é que nada apaga o que ele fez, mas os fracassos estão maculando um currículo que era quase impecável. Se ele não se importar com isso, tudo bem, mas um conselho de amigo: uns meses de férias não fazem mal a ninguém, Felipão.



