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Felipão chegará como um escudo ao Cruzeiro, mas também sem margem para erros

Felipão deixou o Cruzeiro em 2001, sem as glórias construídas por Grêmio ou Palmeiras, mas com reputação o suficiente para decolar ao ápice de sua carreira: o pentacampeonato mundial. A história se reata na Toca da Raposa depois de 19 anos, com um treinador que conquistou praticamente todas as competições que disputou, embora tido por ultrapassado e chamuscado pelo maior vexame da história da Seleção. Ainda assim, ao que os cruzeirenses precisam, difícil imaginar uma solução mais interessante que Felipão – mesmo longe de ser certa. Chega para ser o paizão de um elenco perdido, o escudo de um clube em meio ao caos e o salvador de um time que flerta com a Série C. Este último ponto, o mais difícil, também marca o risco de fracasso também por não conceder tempo ou margem aos erros.

O Cruzeiro mediu o tamanho de seu buraco nesta semana, ao ser rejeitado sucessivas vezes pelos treinadores escolhidos para substituir Ney Franco – um acerto questionável desde o início e que afundou ainda mais a equipe na Segundona. As recusas de Marcelo Chamusca e Umberto Louzer indicam como é preferível lutar pelo acesso com um clube de menor projeção do que tentar fazer milagre com a Raposa. Não há um projeto claro entre os celestes. E diante de todos os problemas ao redor da agremiação, sobretudo os econômicos e os políticos, o futebol é apenas uma fritadeira que não oferece qualquer garantia.

Felipão também tinha rechaçado a oferta do Cruzeiro no início da semana. Porém, repensou sua decisão e resolveu ouvir os celestes mais uma vez. Dono dos Supermercados BH, Pedro Lourenço estaria envolvido na negociação para viabilizar o pagamento dos salários – que não seriam exorbitantes, segundo o jornal O Tempo. O treinador, mais do que resgatar sua ligação com os celestes, apresenta uma ambição de reconstruir o clube. Não à toa, seu contrato possui validade até o final de 2022. Mas é como se, depois de uma roleta russa na casamata, com vários profissionais queimados em pouquíssimos jogos, os cruzeirenses acreditassem na transformação como um passe de mágica.

A princípio, Felipão vem para proteger o Cruzeiro, emprestando sua reputação. É um treinador com estatura para segurar a bronca de todas as cobranças que existem sobre o time em campo e blindar o elenco. As atuações recentes da Raposa na Série B deixam bem claro que o desencontro da equipe, mais do que tático ou técnico, é psicológico. Os erros fatais se repetem e o mental dos cruzeirenses desmorona com facilidade. A equipe é uma pilha de nervos dentro de campo e, diante disso, não há estratégia de técnico algum que funcione. Motivador nato, Felipão vem para gerar impacto nesse sentido.

Não há garantias de que isso funcionará, porém. Apesar do renome do novo comandante, a necessidade é de resultados imediatos para fugir da zona de rebaixamento. Maus resultados de Felipão no início aumentarão a pressão e poderão gerar uma bola de neve. Será importante que os jogadores comprem a ideia de Scolari e tenham ao menos uma nova postura de imediato. O que também não é fácil de se exigir, considerando os salários atrasados e os descontentamentos que se expõem com os problemas de gestão no clube – a entrevista recente de Fábio, com queixas públicas, é emblemática neste ponto.

A ligação com o Cruzeiro e o respeito por aquilo que viveu lá no passado parecem ter pesado para que Felipão se aventurasse. Foi assim com todos os treinadores que aceitaram trabalhar no clube ao longo de 2020, sempre com um precedente celeste – nem que fosse nas categorias de base. Mas não dá para dizer que a passagem anterior do gaúcho foi retumbante. Felipão assumiu o time após o título na Copa do Brasil de 2000 e fez boa campanha na Copa João Havelange, eliminado nas semifinais pelo Vasco. Também conquistou a Copa Sul-Minas com uma campanha invicta em 2001. Porém, as derrotas para os clubes do interior no Campeonato Mineiro e a eliminação nas quartas de final da Libertadores para o Palmeiras pesaram contra. A saída para a Seleção, de qualquer forma, valeu certa impressão de sucesso interrompido e uma noção de que a história não se completou.

Felipão não será um técnico inventivo ao time, até por aquilo que se via no Palmeiras. Dá para esperar a montagem de uma defesa forte, como padrão em seus trabalhos, mas não um futebol coletivamente vistoso para garantir os resultados. E o peso da camisa exige mais da Raposa na segundona. Além disso, Scolari terá que extrair o melhor de um elenco que não se sobressai tanto para o nível da Série B – embora pudesse estar em condições bem melhores na tabela. Talvez necessite de um jogo mais propositivo, já que não conseguirá se pautar tanto nos lampejos de seus destaques individuais, como ocorria no Allianz Parque.

Ao trazer Felipão, o Cruzeiro também dá um grande crédito ao treinador. E não é apenas questão de esperar o sucesso do veterano de 72 anos, que não construiu nada duradouro no Palmeiras, mesmo com ótimas condições. O problema é o prazo do contrato, que parece atar as mãos dos celestes pelo longo período de vínculo. Obviamente, nada impede que a Raposa demita Scolari no meio do caminho, desde que pague a multa. Mas precisará gastar com isso, com as contas no vermelho, e ainda ter que correr atrás de outro comandante que segure a bucha em Belo Horizonte. Felipão soa como uma bala de prata da diretoria, por toda a sua representatividade, já que parece difícil encontrar outra pessoa com sua história para encarar a crise. Todavia, isso significa também confiar que o gaúcho encaminhará o futuro do departamento de futebol, algo que não fez em seus trabalhos recentes.

O campo acaba sendo um problema até superficial do Cruzeiro, sobretudo pelos impactos que a crise econômica pode gerar a médio e longo prazo. Tanto quanto conquistar os resultados, a preocupação do momento é cobrir os débitos urgentes e sanar a punição da Fifa para voltar a contratar – o que novamente deve depender do envolvimento de Pedrinho BH, um mecenas que pode até contribuir no desespero, mas não é um caminho sustentável à agremiação. De qualquer maneira, o campo é o que aciona o alarme mais estridente de que as coisas não vão bem na Toca da Raposa. Escapar da degola é primordial para diminuir a pressão sobre a gestão e fazer os demais departamentos andarem.

O Cruzeiro venceu apenas dois de seus últimos 12 jogos pela Série B. São três pontos para sair da zona de rebaixamento, além de 14 para alcançar a zona de acesso – uma missão que, neste momento, soa apenas como um devaneio. Felipão nem será cobrado pela volta imediata à Série A, mas sim por um alívio instantâneo na situação. Parece um técnico capaz de conseguir isso, apesar de todos os pesares. Porém, as coisas não andam muito óbvias na Toca da Raposa durante os últimos tempos. Se o veterano não der certo, vai ser ainda mais difícil de apontar um caminho e haverá o fardo de um longo contrato. Os celestes se agarram a Scolari, diante da tamanha falta de perspectiva. Sua imagem permite crer numa solução. O futebol, não necessariamente.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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