Brasil

Felipão surpreendeu e fez dos limões uma excelente limonada

Quando foi anunciada a demissão covarde de Mano Menezes, fruto de pura política, a escolha de Luiz Felipe Scolari para comandar a Seleção Brasileira pareceu péssima a este colunista. Um técnico que não mostrava qualidades para fazer os jovens e bons jogadores brasileiros se consolidarem em um time naquele momento. Não parecia capaz de fazer um time jogar em nível internacional, com a intensidade que se faz necessária. Posso dizer, tranquilamente, que estava errado. O Brasil com Felipão tornou-se um time, e um time muito forte. Goste ou não goste do seu estilo, e há críticas justas a se fazer em relação a isso, o Brasil se tornou uma equipe temida e campeã da Copa das Confederações. E isso não é pouco diante do cenário que ele encontrou quando assumiu o cargo.

Quando foi escolhido, Felipão tinha a missão de fazer o time vencer. Não importava como. Mano Menezes se preocupava com o estilo. Quis fazer o Brasil jogar bem, se esforçou, mas não conseguiu. Alguns bons jogos contra seleções pouco expressivas não convenceram. O baixo rendimento de alguns jovens fez alguns clamarem por veteranos. Não se esperava mais do que isso de Felipão. Mas com alguns meses no comando, alguns poucos jogos, um tempo de treinamento e uma competição disputada, o técnico conseguiu ir além de vencer. Porque o Brasil não venceu de qualquer forma. Venceu de forma categórica a Espanha. Venceu jogando com uma intensidade avassaladora, sufocante. Em uma analogia violenta, o Brasil parecia ter colocado um saco na cabeça da Espanha, que não conseguia respirar e se debatia. E não precisou dos veteranos que ele convocou quando chegou ao comando da Seleção.

Felipão trouxe os veteranos, como esperado, logo em sua primeira convocação, contra a Inglaterra, em fevereiro. E eles não tiveram o impacto que os que pediram imaginaram. Ronaldinho pareceu estar em um tom abaixo do jogo contra a Inglaterra, na estreia do técnico gaúcho. Se falou em falta de ritmo internacional, o que pode ser mesmo verdade, mas ele joga partidas para lá de intensas na Libertadores. O que explica então? Talvez o time do Atlético Mineiro, armado em função dele. A Seleção não é e Felipão não se convenceu que teria que fazer isso por ele. Se for para armar o time em função de alguém, teria que ser em função de Neymar, não de Ronaldinho.

Kaká também foi lembrando em um jogo contra a Rússia. Jogou, nem foi mal, mas longe de dar a contribuição que se esperava. Ronaldinho voltou à pauta. No Atlético Mineiro, Ronaldinho só falta fazer chover. Joga um futebol absolutamente fantástico, de encher os olhos, e que permite que alguns o considerem o melhor jogador em atividade no Brasil. Mas na Seleção Brasileira, continuava devendo. Kaká, que não convenceu no seu jogo com Felipão, continuava quase sem jogar no Real Madrid e sem convencer quando entrava no time merengue. Como não havia um substituto, parecia evidente que Felipão levaria Ronaldinho Gaúcho para a Copa das Confederações e deixaria Kaká de fora. Não havia muita dúvida que ele levaria um dos dois. A questão era saber quem. E Ronaldinho era o favorito. Felipão resolveu não levar nenhum dos dois.

Talvez tenha sido uma forma de dizer que nenhum deles o convenceu, que eles precisarão se esforçar mais se quiserem ter alguma chance – e possivelmente na reserva. Felipão levou Bernard, que pedia passagem há algum tempo. Na competição, ele mostrou que está pronto e apto para a missão de entrar em campo e ir bem. Ronaldinho e Kaká poderiam ser opções de Felipão, algum deles no lugar de Jadson, por exemplo, que mal foi aproveitado – jogou ali uns poucos minutos na final, uma forma de sapatear em cima da Espanha. Mas Felipão possivelmente queria mostrar que não precisa de Kaká e Ronaldinho para vencer. Mostrou. E deixou claro que o grupo não está fechado, o que é uma dica não só para os dois, mas para todos os outros, como Leandro Damião, cortado por lesão, ou mesmo Alexandre Pato, que segue indolente no Corinthians. Há tempo para chegar à Copa.

A vitória contra a Espanha foi marcante, mas não foi definitiva. Vencer a campeã do mundo não leva o time automaticamente para esse patamar. Mostra sim que o Brasil é forte e pode vencer esses times, que é uma seleção que tem jogadores capazes de resolver. O Brasil pode entrar no grupo das melhores seleções do mundo. Tem time para isso, mas precisará evoluir.

Há problemas, por exemplo, na lateral direita. Daniel Alves fez uma boa partida contra a Espanha, mas continua instável, sem jogar tão bem. E não tem um reserva. Felipão terá que procurar. Mário Fernandes, do CSKA Moscou? Rafael, do Manchester United? Marcos Rocha, do Atlético Mineiro? Felipão terá que procurar. Ainda não parece ter um jogador pronto para isso, mas definitivamente não poderá ser Jean, um volante improvisado. Lembremos que em 1998, o Brasil precisou de um lateral reserva para substituir Cafu e Zagallo tinha levado Zé Carlos. E ele foi engolido pelo então ainda promissor Zenden. Como dizem por aí, o ruim de ter um jogador mais fraco no grupo é que uma hora ele joga. E em uma Copa, pode ser determinante.

Jô fez uma boa Copa das Confederações e trouxe uma nova opção para o ataque, mas há outros que precisam ser analisados. Oscar está consolidado na posição de titular, mas é preciso trabalhar com outras opções. Ronaldinho e Kaká podem brigar por uma vaga ali, como outros jogadores também podem. Há tempo para que mostrem serviço. Felipão parece aberto a isso.

O Brasil voltou a ser temido e isso é fundamental para a autoestima do time. A Seleção Brasileira recuperou o respeito e tem um time. Impôs uma derrota pesada à atual campeã europeia e do mundo, certamente um dos melhores, se não o melhor time do planeta. É significativo. Só não pode “deitar em berço esplêndido”, como diz a parnasiana letra do hino nacional. Será preciso ter essa mesma intensidade de jogo contra adversários desse calibre. Qualquer redução no ritmo pode significar ser atropelado.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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