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Faz 20 anos que o Palmeiras ficou muito próximo de uma das maiores viradas do futebol

Um espasmo era o que bastava. Dois, na verdade, porque ainda haveria a disputa de pênaltis. Mas depois de reverter uma desvantagem tão grande, o que eram cinco cobranças da marca do cal? Após ser humilhado pelo Grêmio no Rio Grande do Sul no jogo de ida das quartas de final da Libertadores, por 5 a 0, o Palmeiras jogava pela honra no Palestra Itália. Sabia que a classificação não passava de uma utopia. Um sonho que ficou mais real a cada balançar de rede, no gol das piscinas ou do placar. Aos 40 minutos do segundo tempo, um tento era o que bastava para o time financiado pela Parmalat se manter na disputa. Ele nunca aconteceu.

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A goleada do Palmeiras sobre o Grêmio por 5 a 1, em São Paulo, completa 20 anos, neste domingo, ainda como uma das partidas mais malucas que vimos por essas terras. Caso a virada tivesse sido concretizada, certamente seria uma das maiores da história do futebol. O gol de Jardel, aos 8 minutos do primeiro tempo, pareceu uma crueldade desnecessária quando foi marcado, mas acabou sendo justamente o que fez a balança pender a favor dos gaúchos. Eram dois grandes times, dois esquadrões históricos dos seus clubes, o que deixou a ocasião ainda mais grandiosa.

O Grêmio de Luiz Felipe Scolari vinha credenciado pelo título da Copa do Brasil e estava prestes a fazer história com a Libertadores daquele ano e do Campeonato Brasileiro da temporada seguinte. Tinha Arce, tinha Jardel, tinha Carlos Miguel e tinha Paulo Nunes, entre outros jogadores que habitam o panteão dos imortais. Dava medo ao Palmeiras. Nas duas eliminatórias anteriores, pela Copa do Brasil de 1993 e de 1995, havia triunfado na base da raça, nos pênaltis e nos gols marcados fora de casa, respectivamente.

Mas não era uma boa ideia injetar o sentimento de vingança naquele Palmeiras. Porque se o Grêmio vinha formando um dos seus maiores times, o Palmeiras já havia terminado esse processo. Era bicampeão brasileiro e paulista, tinha todos os dólares da Parmalat para gastar e contratava craque atrás de craque. A partida aconteceu no período em que Vanderlei Luxemburgo deixou o time para treinar o Flamengo e o Paraná. O comandante era Carlos Alberto Silva. O time era Antônio Carlos, era Mancuso, era Cafu, era Paulo Isidoro e era Müller.

Seria Rivaldo e Válber também, mas os dois foram expulsos no jogo de ida no qual Jardel foi soberano. Só deu Grêmio no primeiro tempo, sem nenhuma jogada muito aguda. Até a bola cair no pé direito de Arce, que o palmeirense viria a conhecer tão bem, e o paraguaio acertar um chute perfeito no canto de Sérgio. O que Carlos Alberto Silva disse no intervalo não se sabe, mas não foi nada muito empolgante. O começo da etapa final foi desesperador para o time visitante. Entre os 4 e os 9 minutos, o Grêmio marcou três vezes, com Arilson e Jardel (2), e deu contornos à goleada. O próprio centroavante fechou o caixão e sua atuação impecável no final da partida.

O Palmeiras não teve muito tempo para lamber as feridas porque no domingo seguinte havia o primeiro jogo da decisão do Paulista contra o arquirrival Corinthians, que havia se tornado prioridade. O empate por 1 a 1 em Ribeirão Preto não foi o fim de mundo, ainda mais para um time que havia acabado de ser goleado, mas Roberto Carlos sentiu dores. Nada sério. Ele jogaria a partida decisiva do estadual. Mas não havia porque ser forçado contra o Grêmio no meio de semana. Ninguém realmente acreditava em uma virada na Libertadores.

Quase literalmente porque o Palestra Itália não conseguiu atrair mais do que 7 mil torcedores que cantam e vibram. O sentimento foi reforçado quando a defesa do Palmeiras falhou em uma cobrança de escanteio, e Jardel fez 1 a 0 para o Grêmio antes dos dez minutos. O time da casa precisava completar um set de tênis para passar às semifinais e nenhum cidadão da Pompeia poderia dizer que já havia visto isso antes. A questão era não perder novamente para o time gaúcho.

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Esse projeto foi executado com relativa tranquilidade. Cafu empatou aos 29 minutos do primeiro tempo, e Amaral, após bela jogada de Alex Alves pela direita, dançando para cima de Roger, virou. O gol de Amaral, um volante que se recusava a colocar a bola na rede, como se fosse uma espécie de religião, foi o sinal de que algo extraordinário estava para acontecer. Paulo Isidoro completou outra boa jogada de Alex Alves com um toquinho no canto de Murilo, que substituia Darnlei, suspenso. 3 a 1. Antônio Carlos saiu driblando pela esquerda (sim, o zagueiro, sim, já havia virado algo parecido com o fim de um churrasco) e foi derrubado. Mancuso cobrou com tranquilidade. 4 a 1.

O que são dois gols para quem precisava fazer seis? O Palmeiras intensificou a pressão porque tinha 20 minutos para fazer história. Da entrada da área, Magrão deu um passe de primeira para Cafu, que chegou batendo e completou de primeira, por baixo das pernas de Murilo. Como o árbitro Antônio Pereira da Silva deu dois minutos de acréscimo, os donos da casa tinham sete para darem um prêmio aos 7 mil torcedores que não desistiram.

O Grêmio reagiu em uma jogada individual de Carlos Miguel, só para gastar tempo, e o Palmeiras não conseguiu mais investir. Mancuso arriscou da intermediária, com algum perigo. A bola passou a quatro ou cinco metros do travessão. A distância que definiu o quase milagre que foi apresentado naquela noite. Pouco para levar à frente o Palmeiras, que só ganharia a Libertadores quatro anos depois. O bastante para entrar nos livros de história como um dos grandes jogos do futebol brasileiro.

FICHA TÉCNICA

Palmeiras 5 x 1 Grêmio

Local: Estádio Palestra Itália, São Paulo (SP)
Data: 2 de agosto de 1995
Fase: Quartas de final da Libertadores
Árbitro: Antônio Pereira da Silva
Público: 7.615
Renda: R$ 84.509,00
Gols: Cafu (29’/1T e aos 39’/2T), Amaral (39’/1T), Paulo Isidoro (13’/2T) e Mancuso (24’/2T); Jardel, aos (8’/1T).
Cartão amarelo: Antônio Carlos, Cléber, Wágner e Mancuso (Palmeiras); Adílson e Carlos Miguel (Grêmio)

Palmeiras: Sérgio; Índio, Antônio Carlos, Cléber e Wágner; Amaral (Magrão), Mancuso, Cafu e Paulo Isidoro; Müller e Alex Alves (Maurílio). Técnico: Carlos Alberto Silva

Grêmio: Murilo; Arce, Rivarola, Scheidt e Roger; Adílson, Luís Carlos Goiano, Arílson (André Vieira) e Carlos Miguel; Paulo Nunes (Vágner Mancini) e Jardel (Nildo). Técnico: Luiz Felipe Scolari

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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