Brasil

Faz bem ao futebol a falta de vergonha de Abel ao celebrar conquistas no Palmeiras

Técnico português do Palmeiras não se faz de rogado ao falar de sua parcela para os resultados ótimos do time

Abel Ferreira confessou que estava chateado. Já haviam corrido 17 minutos de entrevista coletiva quando Caio Paulista e Gabriel Menino, enfim, entraram na sala de entrevistas do Allianz Parque, segurando um cooler com gelo, para ser despejado no técnico tricampeão paulista. 

— Estava aqui falando muito para ver se eles vinham. Demoraram, e eu pensei, ‘mas será que não vêm mesmo?’. E notem, dois jogadores que não jogaram — disse, comemorando sua própria gestão de pessoas.

O técnico do Palmeiras não se faz de rogado. É daqueles que ressalta os próprios acertos comemora as conquistas com vontade. A mesma vontade que exige dos seus jogadores e colegas de clube em geral. Assim como exalta os próprios acertos, sem falsa modéstia.

— Não é arrogância, é confiança — disse Abel, ao falar sobre como construiu o Palmeiras e o preparou para a conquista de mais um título no Campeonato Paulista. Uma frase que não é nova, mas é real.

Elevar o nível

O comportamento do português faz bem ao futebol brasileiro. Entre outras razões, porque eleva o nível do debate. Se quem monta o time é o técnico, e o time ganha sistematicamente, certamente há mérito no técnico. E não há porque não se falar disso.

É uma conduta alinhada com outras de Abel que também são fora da curva no Brasil. Como, por exemplo, escrever um livro revelando todos os planos de ações usados para formar o Palmeiras bicampeão da Copa Libertadores. Se ele explica como fez para o time ganhar, e o time efetivamente ganha, é porque o que ele disse está certo.

Em um mundo no qual treinadores tratam estratégia como segredo. Ou em que um histórico vencedor como Vanderlei Luxemburgo, por acaso o antecessor de Abel, se queixa de falar sobre tática em uma entrevista coletiva, pode mesmo soar como soberba ser direto e honesto em uma autoavaliação.

Mas não é. É apenas levar a conversa sobre futebol a um patamar mais maduro de compreensão do jogo. É assumir e conferir responsabilidade a quem é de direito. E, por tabela, elevar a qualidade dos trabalhos em geral pela comparação com o que funciona.

Os acertos mencionados

Sobre Weverton, por exemplo, Abel celebrou o que chamou de uma partida nota 10. Uma melhora que vem depois de um começo de temporada bem ruim. Com falhas técnicas isoladas e falhas táticas provocadas por um pedido de Abel, para que ele cortasse mais cruzamentos. Algo que, enfim, ele aprendeu.

“Eu pensava: ‘Será que eles (comissão técnica) não estão vendo? Será que não é melhor eu ficar no meu canto? Mas aí, eu pensei, ‘pô, é mais um desafio'”, disse Weverton, no campo do Allianz, falando sobre o tema.

Sem ouvir o que disse o goleiro, fundamental na construção do lance que gerou o pênalti do primeiro gol, Abel foi na mesma direção.

“O Weverton hoje foi nota 10, ele soube lidar com as críticas com muita maturidade, ele foi criticado, não por mim, nem pelos colegas, mas pela imprensa, pois quando jogamos bem nos elogiam e quando jogamos mal somos criticados”, disse.

Abel falou também sobre como esperou o tempo adequado para lançar Endrick nos profissionais e como trabalha bem os timings dos jogadores. Como faz com Flaco López, por exemplo, também.

— Com os moleques é preciso ter paciência, colocar no momento certo. Foi o que fizemos com o Endrick… Eu lembro bem quando todos me criticaram porque não levei ao Mundial, a Disney… Sabem onde está o Endrick agora? No Real Madrid, está ajudando a Seleção a ganhar, está ajudando o Palmeiras a ser campeão — disse.

— Com o López?! Muita dor de cabeça, muito treino individual, algumas vezes acreditava mais nele do que ele próprio. Minha missão é ajudar os jogadores a serem melhores — completou.

Foto de Diego Iwata Lima

Diego Iwata Lima

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, Diego cursou também psicologia, além de extensões em cinema, economia e marketing. Iniciou sua carreira na Gazeta Mercantil, em 2000, depois passou a comandar parte do departamento de comunicação da Warner Bros, no Brasil, em 2003. Passou por Diário de S. Paulo, Folha de S. Paulo, ESPN, UOL e agências de comunicação. Cobriu as Copas de 2010, 2014 e 2018, além do Super Bowl 50. Está na Trivela desde 2023.
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